Marco Gil
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Marco Gil

Megafone

A vida tem uma banda sonora

Caetano Veloso é parte da minha cicatriz no braço direito e dei o meu primeiro beijo ao som dos Mamonas Assassinas. Cada vida é uma nota musical que vive num espaço de tempo infinito.

A minha avó sempre foi a última balada do Paco Bandeira (quem não conhece, que não google): sempre que ele aparecia na televisão, ela aumentava o som no aparelho e surgia aquele típico: “Shiu…é o Paco Bandeira”. O homem que nos obrigava a parar na infância. Nunca fui à bola com ele por causa disto. Hoje continuo por lhe entender a ternura e a fraca audição, mas sempre que o vejo já o escuto, pela nostalgia; mas não se páram os Jogos sem Fronteiras para se pôr a dar o Paco Bandeira.

O meu avô era uma das músicas que ele escrevia para a mãe dele, enquanto a tropa lhes trocava o destino e aumentava a distância. Compostas pelo coração de quem fazia da saudade a palavra que mais se sentia.

A minha mãe tem sempre um verso de Tony Carreira. As músicas são cheiros, pessoas, são momentos, às vezes são décadas e outras vezes descrevem meses da nossa vida. São datas marcantes, circustâncias ou apenas uma melodia solta que nos remete sempre para qualquer lado.  A música pode não estar que estará sempre. Não a ouvimos quando a escutamos; é presença, mas se nos limitamos a sentir, a música é para sempre. A música é feita de memórias e conta-nos histórias, as nossas e as dos outros.

A férias de Verão em Tavira costumavam ser Carlos Paião. Sempre que oiço Pó de Arroz a felicidade assola-se de mim, inexplicavamente, nem preciso de recuar para me lembrar dos dias bons. Basta-me ouvir os primeiros segundos que sou levado a uma viagem no tempo e só volto quando o som pára ou me concentro no mundo.

Os casamentos são uma música. O meu irmão é a Lena d'Água — espero que ele nunca chegue a ler isto — e o meu primo a banda sonora do MacGyver. O Verão é sempre uma música diferente da de Inverno, o Natal tem uma colectânea de cinco músicas e até a nossa primeira bebedeira costuma ter sempre Knockin´on heavens door.

E a primeira vez? Aposto que o Tiago Bettencourt está na primeira vez de alguém. Ou os Dama, ter três tipos sentados em bancos de pé alto. Mas isto conta nas primeiras vezes de tudo. Antes de entrarmos na sala de aulas para o primeiro dia de escola vinha qualquer coisa a tocar no carro que ficará para sempre ligada àquilo que vínhamos a sentir.

A música é passado mas também é presente e será futuro mesmo que ainda não o seja. Os locais serão para sempre uma música que ouviamos: Porto Covo não tem que ser Porto Covo e Portimão é Florence and The Machine. A aldeia são os bailes que começam no Clemente e terminam nele também.

Um duche é uma música e uma sova da nossa mãe pareceu um CD inteiro que tocava interruptamente. Os Beatles ou o Marco Paulo estão sempre na vida de alguém. Os desgostos de amor são sempre músicas em que sentimos a letra e não há um casal que não tenha o seu medley, mesmo que não se ame alguém que não oiça a mesma canção.

Todas as vidas têm uma banda sonora e existe sempre uma letra que conta a nossa história. As melodias são momentos marcantes, felizes ou tristes, que nos levam ao detalhe daquilo que vivemos. E as memórias sentem-se. A música são os maiores passos que demos ou os dias que sentimos em demasia.

O cheiro a limonada que música é? As minhas fotografias são sempre uma música. Caetano Veloso é parte da minha cicatriz no braço direito e dei o meu primeiro beijo ao som dos Mamonas Assassinas. Os Trovante nunca eram dias bons, muito menos se seguidos pelo Leandro e Leonardo mas vinha o Rui Veloso e num instante dava um novo solfejo à vida. Cada vida é uma nota musical que vive num espaço de tempo infinito.