Reportagem

Memórias: histórias em frascos e tigelas de loiça

Esta cozinha parece o fosso de uma orquestra em afinação. Fátima Branco é uma espécie de maestrina. “Ricos marmelinhos este ano.”

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Fátima Branco trabalha aqui há 14 anos André Rodrigues
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A azáfama e o cheiro a marmelos cozidos inunda todas as divisões André Rodrigues

O portão da garagem está escancarado. Aos poucos, como numa inauguração pomposa, afasta-se o pano verde e destapa-se um Volvo Amazon azulão, modelo moderno quando fabricado entre 1956 e 1970, primeiro Volvo com carroçaria do estilo barcaça, duas entradas de ar ovais à frente e ailerons traseiros prolongados que terminam como a ponta de uma barbatana. José Luís Noronha sorri ao recordar momentos da sua juventude ao volante do Amazon, travão de mão à esquerda e outros detalhes deliciosos. O clássico ocupa sensivelmente um terço da garagem. No resto mandam as abóboras gigantes verdes e cor-de-laranja vivo e os sacos de rede cheiinhos de marmelos.

Qual das memórias a mais intensa? A resposta (ainda) não está na ponta da língua de José, que decidiu perpetuar o cheiro e os sabores da marmelada, das compotas, das geleias e dos biscoitos que se faziam quando era miúdo. “São as minhas memórias”, sublinha. “Os cheiros e os sabores são os mesmos porque os produtos são os mesmos também”, explica o criador da marca Memórias, especialista em marmeladas, geleia de marmelo e compotas de cereja, ameixa (branca e vermelha), figo, abóbora, maçã, pêra, pêssego, chila, tomate, mirtilo e framboesa, para além dos biscoitos de milho e de trigo. “Em vez de escrever as minhas memórias e de as editar em livro, deixo-as em frascos e tigelas.”

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José Luis Noronha e o seu Volvo Amazon André Rodrigues

A azáfama e o cheiro a marmelos cozidos inunda todas as divisões do rés-do-chão da casa de família que já foi “um palheiro”, “a zona do porco aqui e da vaca ali”, aponta José, rodando o braço como o ponteiro de um relógio, recuando no tempo em que a “compota caseira era feita por pessoas”, “aos pedaços, clássica”. É assim que a mantém. Tradicional. “Há quem faça com casca, que altera a cor. Esta é mais clarinha.”

A cozinha parece o fosso de uma orquestra em afinações. Fátima Branco é a única funcionária efectiva. Trabalha aqui há 14 anos. “Quando há produção chamamos pessoas a dias”, diz. Filipa, Rosa e Carmo, batas xadrez e luvas de trabalho calçadas — porque a combinação de faca e marmelos não é macia — não param, circulam entre tarefas: cortar os marmelos em quatro partes, descascá-los e gerir o enche/esvazia das megapanelas vaporosas entre coadores e um passe vite, uma espécie de roda do leme deste navio. “À antiga”, vai-se repetindo pela cozinha — como o milho dos biscoitos que ainda é moído num moinho junto ao ribeiro. “As pessoas agora abreviam muito. Cozem o marmelo, passam-lhe a varinha mágica e fica um creme. Os marmelos aqui são ralados à mão no passe vite”, explica Fátima. “Dizem que é isso que faz a diferença.” Isso “e o marmelo”. Esta equipa podia usar “um marmelo muito grande, muito lisinho e macio”, mas “a marmelada não ficava tão saborosa”. Fátima e as suas ajudantes usam um “marmelo antigo: mais pequenino, com mais imperfeições, mas que é perfeito para a marmelada”. “É mesmo à portuguesa”, diz Rosa. “Só o cheiro... já ficamos cheias de marmelada”, junta Filipa. “Todos os anos levo uma tigela para dar ao médico como lembrança”, anota Carmo.

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A marca memórias usa uns 1600 quilos de marmelos por ano e confecciona quase todas as semanas. “Sempre fresquinha”, lembra Fátima, apontando para a polpa congelada nas arcas congeladoras depois de pré-cozida cerca de duas horas, ralada e arrefecida. “Fazemos marmelada todas as semanas. Bonita.” Cada saco de dez quilos de marmelos cozidos e ralados dá para 32 tigelas de meio quilo e 70 de 220 gramas. Há mais do que uma panela onde cozem os marmelos. Outra onde a marmelada já ganha ponto. E outra com cascas a boiar — a água será usada para a geleia.

“Aproveita-se tudo”, lembra Fátima. “Se fosse com máquinas roubava o emprego a muitas pessoas. Dá dias a ganhar, que é sempre bom.” “Dantes, não há muitos anos”, recorda Fátima, “não havia supermercados grandes” e “havia poucos sítios com fruta à venda”. “A variedade não era grande. Encontrava-se maçã. Hoje temos frutas modernas que nem sequer se cultivavam”. Empilhadas estão algumas caixas repletas de frasquinhos, prontos para as feiras. A marmelada já está “sequinha” numa série de tigelas de loiça. O papel vegetal é dobrado — uma rodela foi desenhada com a própria tigela a servir de molde —, cortado com a tesoura de recortes e delicadamente colocado, cobrindo a marmelada. “Ricos marmelinhos este ano.”

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