Reportagem

Licomda: os 50 doces de Daniela

Parece que é — uma cozinha como as outras cozinhas —, mas não é. Em Vila Praia de Âncora há quem brinque com a fruta. E não só.

Daniela Amorim na sua cozinha Transformer
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Daniela Amorim na sua cozinha Transformer André Rodrigues
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A avó da dona Fátima fazia “aquela marmelada vermelhinha”. “Limpava com aguardente e punha papel por cima. E guardava numa despensa escura. Ao final de um ano ainda estava impecável.” Hoje em dia, Fátima é o braço direito da filha Daniela, faz-quase-tudo do projecto Licomda, 50 variedades de compota e muitas medalhas ao pescoço.

Fátima auto-intitula-se “a rapa-tachos”. “Sabe tão bem... Quando estou a ajudar a fazer compotas nunca tenho fome. Ou rapo a caçola ou como fruta”, sorri, envergonhada num canto da cozinha do apartamento onde tudo acontece, a divisão que meia dúzia de vezes por ano se transforma numa unidade de produção devidamente certificada. “Temos que tirar estas coisas todas: a máquina do café, os bibelots, as loicinhas, a torradeira e o puzzle que estamos a fazer”, explica Daniela Amorim, 27 anos, que aos 19, e por não gostar dos doces que provava, arregaçou as mangas. “Começou numa brincadeira de morangos, açúcar e chocolate. Pouco depois estava a produzir e a legalizar tudo e a brincar com álcool”, aponta.

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Produz 30 licores com base de fruta (“a nossa despensa, a única divisão sem luz, é um entreposto fiscal”) e sensivelmente cinquenta compotas que distribui entre cinco categorias: compotas tradicionais, compotas de fruta e chocolate (morango, laranja, manga, kiwi, menta, abacaxi, papaia malagueta, physalis e banana), compotas especiais (alho, cebola, cogumelo, pimento vermelho, pimento vermelho com malagueta, abacaxi e malagueta, maçã e malagueta, abóbora e caril...), compotas sem adição de açúcar (depois de abrir tem que ir para o frigorífico e dura um mês depois de aberto) e compotas com bebidas (pêra e moscatel de Setúbal, laranja e whisky, ameixa e vinho do Porto e framboesa com gin).

Na cozinha mutante ficam os balcões com tampos de mármore e são colocados mais dois fogões, onde é feita a esterilização e o vácuo dos 800 frascos em panelas bastante grandes. “Estamos numa casa”, recorda Daniela, formação em Engenharia do Ambiente. “Quando vamos produzir tira-se tudo, higieniza-se tudo. Durante a produção não há entrada e saída de pessoas, não usamos a cozinha para outra coisa a não ser produzir. Nessa altura não fazemos refeições em casa”, explica. Cada fase de produção dura duas semanas. Acontece por alturas do magusto, ali por Janeiro, perto da Páscoa e durante o Verão (altura de duas grandes feiras com banca Licomda: Feira Nacional da Agricultura e a Feira Internacional de Artesanato.

Os vizinhos são os primeiros a perceber quando a linha de montagem está activa. “O cheiro a compota pelas escadas abaixo...”, anota Fátima, olhos semicerrados como se estivesse a sonhar. Daniela está de quimono. A conversa arrasta-se. A compota de maçã e canela já borbulha no tacho.

O projecto comemora agora sete anos — os últimos dois com loja aberta no centro de Vila Praia de Âncora. Vive do sabor tradicional, das adaptações e combinações (“é simplesmente uma coisa que liga com outra”), da simplicidade e da criatividade, dos novos sabores, das sugestões dos clientes, do segredo (“está no tipo de chocolate”), da certeza de que as compotas “não levam nada de esquisito”, como apregoam os clientes da marca. “É o que eu ponho no pão”, diz a dona Fátima, entre o mundo das compotas e o universo da pesca (o marido é armador). “Eu deixava arrefecer bem a marmelada e congelava em tupperwares para todo o ano. Agora há muita fruta todo o ano, mas dantes não”, recorda.

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A filha Daniela promove showcookings sobre as mil e uma formas de comer uma compota — desde as bolachas com compota, a receita preferida dos seus escuteiros, até à combinação mais gourmet — e vai exibindo as medalhas nos três degraus do pódio das compotas no Concurso Nacional de Doces de Fruta Tradicionais Portugueses: ouro para o doce de morango com chocolate (2014), ouro no doce extra de physalis e prata no doce de abóbora, noz e mel (2015) e bronze no doce extra de pimento vermelho (2016), entre várias distinções para os licores.

Os frasquinhos já estão cheios. Sobra meio para a prova — e um tacho para rapar. A dona Fátima está atenta. “O tempo passa num instante. E só foi um quilo de compota.”