Entrevista

“Quando tentamos censurar a linguagem das pessoas, estamos a tentar censurar os sentimentos”

A neurocientista britânica Emma Byrne escreveu o livro Dizer Palavrões Faz Bem. “Há muitas coisas más a acontecer no mundo, por isso, praguejar pode ajudar-nos a todos”, defende.

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O calão está ligado à inteligência, reduz a dor e atenua o stress, defende a autora Vanity Studios

Dizer Palavrões Faz Bem é o livro da neurocientista britânica Emma Byrne, publicado pela editora Planeta recentemente. Neste, a autora defende, numa escrita muito livre e colorida com os ditos palavrões, que dizê-los faz bem à saúde mental e também à física — ajuda mesmo a aliviar a dor, diz.

Como investigadora, a autora defende o uso do calão e do praguejar, baseando-se na investigação científica em áreas como a neurociência, a antropologia, a psicologia e a sociologia. E, escreve, a própria gosta e diz muitos palavrões. Em périplo pelo mundo para apresentar o seu livro ou a fazer conferências — actualmente está na Noruega —, o PÚBLICO entrevistou-a por email.

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PÚBLICO: Defende que os palavrões fazem bem. Cabe aos pais introduzi-los na educação dos filhos?
Emma Byrne: Podemos ter a certeza de que os nossos filhos vão aprender a dizer palavrões, seja no recreio da escola, seja na música, seja nos filmes. Por isso, é muito melhor que nós, pais, superemos o medo de os nossos filhos praguejarem e falemos com eles sobre isso!

O que fazer quando eles dizem palavrões aos quatro ou cinco anos?
Aos quatro ou cinco anos, a maioria das crianças ainda está a aprender sobre as emoções, as suas e as dos outros. Falar sobre os sentimentos que surgem quando se dizem palavrões é a melhor maneira de os ajudar a entender por que é que as pessoas os dizem (e por que é que há momentos em que podemos não querer dizê-los!).

Mas explicamos-lhes por que é uma “má” palavra ou estimulamo-los a usá-las? 
Em vez de classificar as palavras como “más” ou “boas”, podemos falar sobre serem “fortes” ou “suaves”. Algumas palavras têm um efeito poderoso, e o praguejar, em particular, provoca fortemente as nossas emoções. Falar sobre o poder de dizer palavrões ou usar o calão é mais eficaz do que simplesmente bani-lo da nossa casa.

Existem novos palavrões? Quem decide que uma palavra é “boa” ou “má”?
Há mudanças ao longo do tempo. Por exemplo, em inglês, [o escritor medieval] Chaucer usou a palavra “cunt” nos anos 1300 como um termo perfeitamente inocente, e hoje é dos termos mais fortes no idioma inglês. Mas as palavras também saem do léxico dos palavrões, como “bloody”, que foi censurado na Grã-Bretanha durante muito tempo, mas que agora passa despercebido.

Por que defende que é bom para a alma e para o corpo praguejar ou dizer palavrões?
Novamente, tudo se resume às emoções. Embora ainda não tenhamos a certeza de quais as emoções que são desencadeadas quando dizemos palavrões, sabemos que acontece alguma coisa. Por outro lado, a força desses sentimentos já foi provada em muitas experiências que tinham como objectivo aumentar a nossa força física e resistência, e também para nos ajudar a suportar melhor a dor.

Os palavrões ajudam a curar?
Podem ajudar em experiências dolorosas, reduzindo a quantidade de dor que sentimos. Também podem ajudar-nos a expressar simpatia. Por exemplo, dizer a alguém que parece que está a ter um dia de merda é uma maneira poderosa de mostrarmos que entendemos o que se está a passar com essa pessoa.

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A professora num encontro com alunos universitários Mike Wyer

Por que está a maioria dos palavrões relacionada com sexo?
Isso varia enormemente de cultura para cultura. Em países que têm menos tabus sobre sexo (e, curiosamente, relações mais iguais entre homens e mulheres), chamar nomes [ligados ao sexo] é menos comum. Por exemplo, na Holanda, os palavrões estão mais relacionados com doenças do que com a sexualidade.

No que diz respeito à linguagem, as mulheres tendem a comportar-se melhor do que os homens. Porquê? 
Eu não diria que nos comportamos melhor: certamente somos julgadas mais duramente do que os homens por usarmos qualquer tipo de linguagem forte, não apenas por praguejarmos. A zanga, a raiva, a frustração tendem a ser julgadas mais duramente nas mulheres do que nos homens. Mas isso está a mudar, à medida que as mulheres aprendem a expressar os seus sentimentos mais fortes em lugares em que se sentem seguras. Em público e online, as mulheres continuam a ser mais propensas à crítica e ao ataque do que os homens por se expressarem. Diria que não são as mulheres que precisam de se comportar melhor.
 
Nesta era do #MeToo, como a gerimos com o uso dos palavrões?
O problema não é dizer palavrões. Muitos violadores que são poderosos, famosos ou não, usaram a sua capacidade de destruir reputações e carreiras para abusar sexualmente de mulheres e homens. Pelo contrário, a capacidade de praguejar ou dizer palavrões para expressar a dor e a raiva de se ser vítima de abuso ou violado é muito catártica. Quando tentamos censurar a linguagem das pessoas, estamos realmente a tentar censurar os seus sentimentos. A raiva por trás do movimento #MeToo merece ter a sua voz.

Quais têm sido as reacções ao livro?
Para mim, tem sido surpreendente a quantidade de mulheres que já me disseram que o livro as ajudou a superar a sua vergonha de ter sentimentos fortes, expressos em palavras fortes. Há muitas coisas más a acontecer no mundo, por isso, praguejar pode ajudar-nos a todos.