"Tancos já passou a ser um complot para ocultar a farsa", diz Marco António Costa

Presidente da comissão parlamentar de Defesa diz-se "profundamente chocado" com a possibilidade de Azeredo Lopes saber do esquema de recuperação das armas. "A partir daqui tudo é possível", admite, quando questionado sobre um eventual conhecimento de António Costa.

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Marco António Costa à direita do ex-ministro Azeredo Lopes, durante uma das audições do ministro da Defesa no Parlamento sobre o roubo das armas de Tancos. Miguel Manso

A ser verdade que o ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes terá dado conhecimento ao ministro do esquema da recuperação das armas de Tancos, o presidente da Comissão de Defesa Nacional, o deputado do PSD Marco António Costa, pensa que "a partir daqui tudo é possível". Ou seja, que o primeiro-ministro também tenha tido conhecimento, algures nestes últimos onze meses, da encenação montada em Outubro do ano passado pela Polícia Judiciária Militar para recuperar o material de guerra na Chamusca.

Falando aos jornalistas no final de uma reunião com o novo chefe do Estado-Maior do Exército (CEME), o general Nunes da Fonseca, a pedido deste último, Marco António Costa afirmou-se "profundamente chocado e triste" se se confirmar a notícia do PÚBLICO de que o ex-chefe de gabinete de Azeredo lhe contou a encenação. O deputado do PSD contou que "as conversas que tinha tido com o sr. ex-ministro Azeredo Lopes de forma alguma evidenciavam que ele pudesse ter conhecimento de uma situação tão profunda de um complot para ocultar uma farsa". 

"Porque já passámos de uma farsa para o complot para ocultar a farsa", insistiu, acrescentando que agora fica ainda mais preocupado com a necessidade de que a comissão parlamentar de inquérito "possa vir a apurar a real dimensão deste complot e quem efectivamente faz parte dele".

Questionado pelos jornalistas sobre se a ser verdade que o ministro da Defesa sabia do encobrimento da PJM, acredita que o primeiro-ministro não saberia do assunto, Marco António Costa mostrou-se algo titubeante. "Eu acreditei que, ainda que o chefe de gabinete o pudesse saber, poderia ter existido a circunstância – dou esse benefício da dúvida – de não o ter transmitido ao sr. ministro. Pelos vistos, eu estava enganado. A ser verdade o que foi dito pelo ex-chefe de gabinete, estava enganado. Portanto, aquilo que posso admitir a partir daqui, tendo caído esta barreira de confiança a que me estava a tentar agarrar para ter confiança na estrutura do Estado, a partir daqui acho que tudo é possível."

Escusando-se a dizer se o primeiro-ministro também deve ser ouvido na comissão de inquérito, Marco António Costa socorreu-se do Presidente da República que, lembrou, "veio dizer que todos os responsáveis que encobriram e que estiveram envolvidos no complot têm de ser desmascarados, têm de ser responsabilizados e têm de prestar contas ao país". "Seja quem for", reforçou.

O presidente da Comissão de Defesa Nacional fez questão ainda de salientar que o dossier de Tancos assume um papel especialmente delicado porque "envolve várias áreas de intervenção do Estado" que falharam. "A primeira falha que se detectou foi no dia em que se apurou que havia um roubo porque falhou a comunicação ao sistema de segurança interna e aos serviços de informação. A partir daqui temos uma base suficientemente ampla para perceber que tem que ser tudo apurado seja qual for a circunstância, sejam quem forem os envolvidos."

Deputados podem consultar documentos 

Questionado sobre os documentos enviados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) à comissão de Defesa referentes a este processo de Tancos, o deputado vincou que não os analisou, antes limitou-se a conferir que havia documentos, a voltar a fechar o envelope, a lacrá-lo e guardá-lo num cofre. A comissão aguarda que a PGR lhe comunique "se estão ou não em segredo de justiça", acrescentou Marco António Costa, que fez questão de realçar que os deputados da comissão podem, a qualquer momento, decidir que querem ver a documentação.

"Se entenderem que querem ver os documentos, têm toda a liberdade para o fazer. Assumem é a responsabilidade disso. Porque eu sou muito cioso de respeitar - e a comissão de Defesa no seu todo – de não atropelar nenhuma regra, de não violarmos nenhum código de conduta e, acima de tudo, de precaução relativamente a matérias tão sensíveis que têm a ver com o segredo de justiça, com a segurança do Estado e com a defesa da imagem das nossas Forças Armadas."

Nenhum deputado se chegou à frente para os consultar, mas houve um grupo parlamentar - que não especificou - que defendeu que os documentos "não deviam ser sujeitos a consulta de ninguém mas sim ser endereçados directamente à comissão de inquérito". Que é algo que a Comissão de Defesa decidirá "a seu tempo".

Cumprimentos do novo chefe do Estado-Maior do Exército

Do encontro com o novo CEME - que Marco António Costa disse ser "tradicional" apresentar cumprimentos à Comissão de Defesa quando assume o cargo -, o deputado afirmou ter ficado com a "convicção de que é um homem profundamente empenhado em unir o Exército, em transmitir-lhe um conjunto de valores, procedimentos e regras que façam com que a imagem que sempre existiu - e estou certo que continuará a existir - seja de total e absoluta confiança dos portugueses nas suas Forças Armadas, e particularmente no Exército".