Haddad ou Bolsonaro? “Eu não votaria no Brasil”, diz Assunção Cristas

Assunção Cristas, 44 anos, é presidente do CDS e deputada. Num momento de grande agitação na Europa e fora dela, assume-se preocupada com o populismo e diz que o “grande desafio” do CDS é ajudar a travá-lo em Portugal.

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Desde que, em Março de 2016, sucedeu a Paulo Portas, um dos líderes mais populares que o CDS-PP já teve, Assunção Cristas conseguiu deixar a sua marca no partido, ao colocá-lo em segundo lugar em Lisboa nas eleições autárquicas de 2017. Mas quer mais. “Sinto-me muito uma empreendedora da política. E quero acrescentar mais ao CDS porque acho que o CDS pode ser muito mais para o país. Quero encontrar as políticas certas e as pessoas certas para um dia podermos merecer ser a primeira escolha”, diz a presidente do partido à direita do PSD, que assume o papel de travar o populismo no nosso país. Se votasse no Brasil, assume, nem Haddad nem Bolsonaro. Abstinha-se. A entrevista à centrista vai para o ar esta quinta-feira, às 12h, na Rádio Renascença.

Na quarta-feira reuniu-se com os vários grupos de polícias que hoje se manifestam. O que os preocupa? Dá-lhes razão?
Confirmámos aquilo que o CDS tem dito em relação a muitos pontos que este é um orçamento enganador, por ter proclamações que depois não correspondem à realidade dos números. Aquilo que tivemos oportunidade de verificar com os sindicatos, da PJ, da PSP, é que de facto há promessas que foram feitas pelo Governo que não são cumpridas, há redução das verbas orçamentadas para muitos pontos que não permitem saber que aquilo que o Governo tem vindo a anunciar vai ser concretizado. 

Exemplos...
No caso da PJ há uma redução do orçamento pelo quarto ano consecutivo e há um número que eu partilho convosco porque me impressionou muito: há dez anos havia 300 inspectores dedicados à corrupção, neste momento há 70. Como é que podemos querer um Estado de Direito a funcionar melhor, com instituições fortes, com a capacidade de escrutinar aquilo que está mal na área da corrupção quando não há meios e não vai haver previsivelmente?

O PSD apresentou uma reforma da Justiça. Partilha as preocupações de Rui Rio? 
O CDS tem há seis meses no Parlamento várias propostas na área da Justiça, algumas das quais são coincidentes com as que o PSD pretende propor e têm a ver com a questão muito prática da celeridade. Gostaria que essas propostas pudessem ser confrontadas, debatidas e decididas e aprovadas e temos toda a disponibilidade para isso. Temos também outro processo em marcha que já foi devidamente anunciado, com o dr. Rui Medeiros, que é uma reforma para a justiça, em questões que eventualmente possam implicar uma revisão constitucional. Também aí, as ideias que temos estão em linha com algumas das propostas do dr. Rui Rio. Do nosso lado há toda a disponibilidade.

Contudo, os dois partidos não estão a comunicar sobre o assunto...
Nós temos comunicado sobre o assunto, mas sobre esse ponto a melhor pessoa a quem perguntar é o dr. Rui Rio. Porque ele é que defendia um método que neste momento está inviabilizado. Pressupunha um modelo de trabalho que, no momento em que a comunicação social publica aquilo que está nesse trabalho preparatório do PSD, é muito difícil de seguir. Do nosso lado há sempre abertura, com propostas concretas. 

A relação no Parlamento entre PSD e CDS mudou bastante nos últimos três anos. Reconhece?
Não concordo. Ainda agora nós entendemos que as alterações feitas no Código Civil na área do direito de preferência violam a Constituição. Não temos o número suficiente de deputados (23) para pedir uma fiscalização sucessiva da constitucionalidade, mas estamos em diálogo ao nível do Parlamento com o PSD para perceber se eles concordam connosco e se querem juntar-se. É um exemplo de diálogo que existe nas várias áreas.

Preferia um Governo Cristas-Santana Lopes se o PSD descer nas sondagens e for substituído pela Aliança ou preferia Rio-Cristas?
Quero um Governo de centro-direita. Um Governo que tenha 116 deputados de partidos que se revejam nesse espaço político. Não me conformo com a posição tradicional do CDS, que é sempre estar em segundo plano. Ontem, na 13.ª sessão do nosso ciclo de conferências Ouvir Portugal, ouvi empreendedores. Uma das coisas que disseram é que não se contentam com sermos pequeninos. Nesse sentido, sinto-me muito uma empreendedora da política. E quero acrescentar mais ao CDS porque acho que o CDS pode ser muito mais para o país. 

Dê-nos três razões para um indeciso votar no CDS e não no PSD.
Ponto um: rejeitamos o socialismo, não queremos ter nenhum acordo com os socialistas e, portanto, um voto no CDS não irá para a viabilização de um Governo do António Costa. Ponto dois: temos uma estratégia muito clara do ponto de vista das prioridades políticas: a questão demográfica, a questão da coesão territorial e a questão da nova economia. Por fim, acreditamos num Estado social de parcerias, o que significa que o Estado não deve querer fazer tudo, deve procurar a conjugação certa para que os serviços públicos de qualidade sejam prestados da melhor forma às pessoas, seja pela área pública, social ou privada.

Com a excepção de nunca apoiar o PS, no resto, não há uma grande diferença...
Há algumas diferenças. Já ouvi o dr. Rui Rio dizer várias vezes que se sente como um homem à esquerda. Isso não ouvirá dizer de mim. 

Tem dito que vê o CDS como uma espécie de travão ao populismo da direita. Sente esse dever?
Sinto e posso dizer-lhes que é talvez a minha maior preocupação neste momento. Olho para o mundo, para Europa e não só, e pergunto-me sempre como é que nós no CDS conseguimos ao mesmo tempo ter um discurso moderado e democrático assente nos valores em que nós acreditamos, e não fazendo nenhuma concessão desse ponto de vista, mas ao mesmo tempo mostrar que há aqui um caminho de futuro de confiança, de rasgo e de esperança para todos nós.

Isso não vai colocar o CDS ainda mais à direita?
Não, porque nós não nos assumimos como um partido de direita radical. O grande desafio é saber como é que nós, não declinando o nosso espaço de direita, mas de direita democrática, conseguimos travar eventuais populismos. O CDS até agora fê-lo. Havia uma máxima do dr. Paulo Portas que era: "À nossa direita só a parede".

Se tivesse o dilema dos brasileiros, votaria Haddad ou Bolsonaro?
Eu não votaria no Brasil. 

Abstinha-se?
Nestas eleições eu não votaria no Brasil.

Abstendo-se, não estaria a dar a vitória a Bolsonaro?
Não sei. Dependeria de todos os que votassem do outro lado. Eu certamente não seria capaz de votar num partido que destruiu o sistema democrático brasileiro, que é responsável pelo outro extremismo que está a crescer. Como também, apesar de ser do espaço político de centro direita, não me revejo nos extremismos de Bolsonaro e não seria capaz de votar nele. 

Entre a corrupção e a ditadura o que é que preferia?
Nenhuma... é por isso que é tão desafiante. A corrupção leva à ditadura. Destrói, mina a democracia e leva à ditadura. Não se pode prolongar a corrupção. Por isso dizia que essa é a minha grande preocupação: como é que o CDS encontra para Portugal o caminho que nos impede de ter derivas extremistas. Os extremismos são maus, à direita e à esquerda.

Tem estado a ouvir Portugal, o que é que tem ouvido? E o que tem aproveitado?
A cada reunião, temos ideias novas. Acrescentámos para o Orçamento do Estado uma medida que ouvimos na Guarda que tinha a ver com a isenção de TSU da parte das empresas para os trabalhadores que vêm em substituição de grávidas que estão em baixa de gravidez ou nas licenças de maternidade e de paternidade. É mais uma medida que vamos juntar ao nosso pacote já vasto das medidas para o apoio à natalidade e à demografia.