Bar

O primeiro bar vegan do Porto esmerou-se para chegar ao Apuro

Uma Vegan Purista que gosta de comer, beber, conversar e ir a concertos abriu um bar que, surpresa, quer juntar tudo isto. O menu é 100% vegetal, mas os animais (vivos) são sempre bem-vindos.

Fotogaleria
Fotogaleria
O Apuro situa-se na Rua do Breiner. O lema: "comida gulosa, mas saudável" André Rodrigues
Fotogaleria
O bar abre ao meio dia e fecha à meia noite. Para comer, beber e conviver. André Rodrigues

Descansem os mais cépticos: o veganismo “é mesmo uma moda”. Palavra de vegan. Comentários como este — levante a mão quem nunca os ouviu à porta de um restaurante — não causam comichão a Natacha Meunir que, aos 27 anos, acaba de abrir o Apuro, o “primeiro bar 100% vegan do Porto”.

Natacha celebra a “tendência” com um hambúrguer — sem ovo ou carne picada — numa mão e uma cerveja — também vegan — na outra. De braços e portas abertas (na Rua do Breiner, do meio-dia à meia-noite). Porque “a moda está a ajudar a quebrar o estigma e encoraja pessoas a experimentarem e a perceberem que não é um bicho-de-sete-cabeças”. Porque através dela “há pessoas que começam a compreender as verdadeiras motivações do veganismo”. Porque “há pratos e restaurantes vegan realmente muito, muito bons”. E porque, enquanto a moda durar, “menos pessoas comem e exploram animais”, brinca.

PÚBLICO -
Foto
André Rodrigues

Por estas e por outras razões queiram, por favor, sentar-se. E experimentar os cachorros quentes a cinco euros (sim, a salsicha é de tofu). Ou um dos quatro hambúrgueres que Natacha faz à mão, um a um, triturando grão, feijão preto ou lentilhas. Para quem não se sentir aventureiro, aconselha-se o No Chicken, feito de um “frango” que deixa as galinhas em paz (seis euros). Críticas: “Não sabia que isto podia ser tão parecido e tão bom", exclamou-se por ali, em português do Brasil.

Para acompanhar, há uma selecção de vinhos vegan — sem gelatina, albumina (clara de ovo) ou caseína (proteína do leite) usados normalmente no processo de clarificação — e de cervejas artesanais portuguesas. “Tenho uma cerveja do Porto, uma que apoia a causa animal e outra voltada para a vertente cultural." O triângulo do Apuro materializado. "Tem conteúdo, história e contexto. Espectacular!" 

PÚBLICO -
Foto
"Tenho uma cerveja do Porto, uma que apoia a causa animal e outra para a vertente cultural. Tudo vegan." Cervejas artesanais vão desde os 2 aos 4 euros André Rodrigues

Natacha gosta de comer e de conversar — de preferência os dois ao mesmo tempo — e defende a comida “gulosa, mas prática e saudável”. Para comer à mão e para partilhar (ou não, não julgamos). “Sem qualquer peso na consciência”, ri-se, para a indirecta ser bem entendida.

O menu continua com cogumelos salteados (cinco euros), tábuas de “queijos” (oito) — sem leite — wraps (4,50) e tostas mistas (três) — o “fiambre” vegetal é da Violife, produzido na Grécia. Para sobremesa há brownies e mousse de chocolate com tofu — a receita, sem açúcar, fica pronta em dez minutos e está disponível no Vegan Purista, o blogue de Natacha.

Por causa dele, o Apuro esteve quase para se chamar Purista. Mas a fundadora quis incluir no nome a “ideia de te ultrapassares a ti mesmo, de te esmerares, para teres algo bom”.

Neste caso, um “espaço descontraído que junte cultura, bebida e comida” preparada com “alimentos frescos e de agricultura biológica”. Compra quase tudo a fornecedores locais como a Bio Habitus, de Vila Nova de Gaia, o Quintal Bioshop, a um minuto do bar, ou o Macrobiótico, onde vai buscar pão de fermentação lenta.

Para encher o palco que montou num dos cantos do espaço, está em contacto com associações e editoras independentes. Quer que ali decorram conversas, apresentações de livros, performances e concertos. O próximo está agendado para 1 de Novembro, quinta-feira, com Lamansarda, uma banda italiana de indie folk.

PÚBLICO -
Foto
Natacha Meunier e Batisco, o gato (arisco) da casa André Rodrigues

“Criou-se uma comunidade aqui e era também isso que eu queria fomentar”, diz, lembrando-se de como, há cinco anos, em Coimbra, enquanto ainda trabalhava na área da comunicação, foi a primeira pessoa do círculo de amigos a recusar-se a ter no prato (e na roupa e na maquilhagem) produtos de origem animal.

A decisão foi tomada de um dia para o outro. Uma última tentativa para resolver os distúrbios gastrointestinais que tantas vezes a levaram ao hospital. “E resultou”, assegura. A partir daí, fez o “clique entre o alimento que chega ao prato e o animal que adora”. “E depois disso não há como voltar atrás”, declara, com o Batisco, o gato preto residente, a ouvi-la, com atenção.

Aqui, ao contrário dos animais (vivos), os preconceitos devem ficar à porta, para não influenciar a estadia. Quem sabe se, à saída, eles já lá não estão.