Tomar é viajar ao passado e voltar

O Convento de Cristo em Tomar foi um dos primeiros locais portugueses a receber a distinção de Património da Humanidade, em 1983. Descubra-o numa visita guiada pelos olhos de quem conhece a cidade como a palma da sua mão, no ano em que se celebra o Ano Europeu do Património.

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O encontro está marcado na subida acentuada do Convento de Cristo em Tomar, um dos quatro lugares Património Mundial do Centro de Portugal. Paulo Pereira, historiador de arte, está à sua espera para viajar ao longo da história até à época dos Templários. “O Convento de Cristo constitui um dos maiores conjuntos monumentais portugueses”, começa por explicar o autor de um livro com o mesmo nome do monumento. Razão suficiente para, em 1983, ser um dos primeiros locais portugueses a receber a distinção de Património da Humanidade pela UNESCO. Daí nasceram muitas outras classificações ao longo dos anos, mas não há amor como o primeiro.

“Implantado no cimo do monte que domina a cidade de Tomar, o Convento reúne edificações ou vestígios que vão do período romano, até ao século XVIII”, explica orgulhosamente Paulo Pereira. E, por falar em período romano, é importante sublinhar que o lugar onde hoje é a cidade de Tomar já foi ocupado por uma importante urbe romana. A explicação está no Rio Nabão que se estende junto ao lugar de “Sellium” (como lhe chamavam) e viria a ser determinante em termos de recursos. “Sobretudo, Tomar deve ver o Nabão como uma dádiva”, afirma o historiador. Na verdade, são as águas deste rio que explicam parte da magia da cidade, actualmente dominada pelo castelo lá no alto. O mesmo que albergou o primeiro número de povoamento da região. “Mas é o castelo templário, refundado em 1160 pelo mestre-procurador da Ordem do Templo Gualdim Pais, que determina o desenvolvimento da região”, alerta o licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa e Mestre em História de Arte pela Universidade Nova de Lisboa.

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A estátua de Gualdim Pais, em plena Praça da República repleta de pombos, é a prova disso. Foi inaugurada a 9 de Junho de 1940 e imortaliza a figura do cavaleiro da ordem do Templo. “Quem?”, pergunta e bem. Do fundador e povoador da cidade de Tomar que acabou por ser sepultado nas capelas laterais da Igreja de Santa Maria do Olival. Junto à estátua, encontra a velha Igreja de S. João Baptista que sofreu uma reconstrução em meados do século XIV — um ponto de paragem obrigatório na nossa visita. “No seu interior encontra-se uma preciosa colecção de pintura portuguesa quinhentista, hoje provavelmente incompleta, mas que mantém uma notável coerência uma vez que segue temas eucarísticos e joaninos”, escreve Paulo Pereira na obra “Convento de Cristo, Tomar”.

Mas a demonstração do sincretismo religioso e da convivência pacífica das comunidades muçulmana, cristã e judaica mora no edifício da Sinagoga que, nas palavras de Paulo, é “a mais bem conservada do país”. Foi construída em meados do século XV propositadamente para a função religiosa. Serviu também como escola, assembleia e tribunal da comunidade judaica tomarense. Foi encerrada em 1496, na altura do édito manuelino de expulsão dos Judeus, e convertida em prisão. Depois de comprada por Samuel Schwarz em 1939, foi instalado o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto. Esteja atento porque a fachada passa facilmente despercebida. O interior é que é uma pequena surpresa. De planta quadrangular, o tecto é suportado por quatro colunas que representam as mães de Israel: Sara, Raquel, Rebeca e Lea. Entre as colunas ligam-se 12 arcos, símbolo de 12 tribos de Israel e nos cantos da sala de culto quatro bilhas de barro ampliam o som da voz.

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Cidade dos Templários, de arte e história

A visita ao Património Mundial do Centro de Portugal continua, guiada pela Turismo Centro de Portugal. De passagem pela rua onde judeus de Tomar viviam, nas proximidades da Praça da República, é fácil imaginar como se desenrolava toda a actividade social e mercantil. Comerciantes por excelência e artesãos experientes, a comunidade judaica terá mesmo estado ao serviço da Ordem dos Templários, mais tarde substituída pela Ordem de Cristo. “A Ordem do Templo foi fundada em Jerusalém no ano de 1118 com o intuito de defender os peregrinos cristãos que se deslocavam à Terra Santa”, explica o historiador Paulo Pereira. No início, tinha uma função defensiva, mas rapidamente se tornou indispensável para a estratégia de manutenção do domínio cristão no Oriente. Seguiu-se a expansão e, sob o olhar de Gualdim Pais, os templários também começaram a crescer a nível nacional. “A sua actividade de banqueiros, inovadora à época, assentou nos depósitos de valores que os peregrinos que se dirigiam à Terra Santa faziam para evitar serem deles despojados”, desenvolve o autor de diversas obras relativas à história da arte portuguesa, entre as quais “A Obra Silvestre” e a “Esfera do Rei”, galardoada com o prémio D. João de Castro 1991. “Os templários geriam assim uma enorme riqueza, que financiou as actividades no Oriente, sem serem, porém, os detentores dessa riqueza: eram sim os seus guardiões.”

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O poder da Ordem era notável e até os reis de França recorreram aos Templários em momentos de crise financeira até 2 de Maio de 1312, data em que a ordem é extinta por manobras do rei francês Filipe-o-Belo. Logo depois da extinção, D. Dinis funda a Ordem de Cristo em continuação da primeira que trouxe a construção dos Castelos de Pombal, Almourol e Tomar. O último, data o início da edificação a 1 de Março de 1160. “Na era de 1198 [1160], reinando Afonso, ilustríssimo rei de Portugal, D. Gualdim, mestre dos cavaleiros do Templo, com os seus freires, começou no primeiro dia do mês de Março a edificar este Castelo chamado Tomar que, acabado, o rei ofereceu a Deus e aos cavaleiros do Templo…”, lê-se na porta de acesso ao interior da Torre de Menagem da Alcáçova. Castelo e respectiva Mata dos Sete Montes (uma antiga Cerca Conventual) que no seu todo perfazem um dos maiores conjuntos monumentais da arquitetura peninsular e europeia, no espaço, com cerca de 45 hectares, e no tempo, com sete séculos de construção.

Da Charola ao Convento de Cristo

Ao encontrar a Charola dos Templários (apelidada por rotunda) e a Janela Manuelina da Sala do Capítulo, testemunhamos os primeiros contactos entre o mundo ocidental europeu e o oriente, e que justificaram a classificação deste lugar, em 1983, como Património da Humanidade pela UNESCO. “Este monumento traduz de forma surpreendente os diversos capítulos da história da arquitectura portuguesa”, conta Paulo Pereira. Uma afirmação que ganha todo o sentido à entrada do Convento onde os claustros góticos (século XV) falam por si. “O piso inferior, com arcadas de volta quebrada providas de cantaria lisa e facetada nos cantos, remete para a arquitectura do gótico tardio mediterrâneo”, o historiador faz as honras à casa. Já no Coro, a fachada ocidental tem uma janela que apresenta um emolduramento sobrecarregado de coração vegetalista.

A visita não termina sem uma breve passagem pelo o interior do coro/igreja da Charola que se faz por um monumental arco quebrado inscrito numa parede debruada por outro arco. “Por sua vez, a Sala do Capítulo, de acesso directo a partir das portadas a partir do piso térreo, nunca terá sido completada”, confirma o antigo vice-presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico entre 1995 e 2003. Finalizado foi o Claustro da Hospedaria, construído sensivelmente entre 1541 e 1542, para acolher todos os visitantes do Convento.  Assim como o Claustro dos Corvos que serviu de rótula de organização dos espaços reservados aos freires letrados.

De volta à cidade, o seu centro histórico organiza-se em cruz, tendo um convento em cada um dos pontos cardeais: a norte encontra-se o antigo Convento da Anunciada, a sul está o Convento de São Francisco, a este o Convento de Santa Iria e, a oeste, o Convento de Cristo. Acabe a sua visita com um passeio junto às margens do Rio Nabão onde os Tomarenses fazem pequenas caminhadas pela Rua João Carlos Everard e pela Avenida Marquês de Tomar. As despedidas estão feitas no Parque do Mouchão, junto à Roda hidráulica em madeira do Mouchão, que é um símbolo da prosperidade económica que Tomar já viveu.

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O salto para o futuro

“E nível de futuro, que impacto pode ter esta comunidade na história?”, perguntámos a Paulo Pereira. “Tomar necessita de um processo de renovação urbana que se estenda muito para lá do centro histórico. Há uma fronteira, coisa que não é única, entre o que se considera merecedor de atenção especial e o resto da cidade”, diz o autor. “Não vejo Tomar como o “Convento-e-a-cidade velha”. Os Tomaraneses têm que se libertar desse centralismo nuclear se é assim que vêem o convento: como a coisa única que vale a pena. Seria um erro”, conclui.

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Afinal de contas, Tomar é muito mais que isso. Dos tesouros escondidos às narrativas lendárias, da arquitectura religiosa ao impressionante registo simbólico, a cidade de Tomar respira história e merece ser visitada pelo menos uma vez na vida.

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A operação Lugares Património Mundial do Centro é promovida e coordenada pela Turismo do Centro de Portugal em colaboração com os municípios de Alcobaça, da Batalha, de Coimbra e de Tomar, a Universidade de Coimbra e em parceria com o Ministério da Cultura, através da Direcção Geral do Património Cultural e da Direcção Regional de Cultura do Centro.

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