Bernardo Sassetti continua a revelar-se

Ricardo Toscano Quarteto Toca Bernardo Sassetti é o título do concerto que esta quinta-feira, no Centro Cultural de Belém, celebra a música do pianista português. E que a projecta para o futuro.

Foto
O Ricardo Toscano Quarteto escolheu os temas de Bernardo Sassetti que melhor se adequariam à sua linguagem PAULIANA PIMENTEL

Após ter recebido o convite da Casa Bernardo Sassetti para apresentar o concerto anual com que esta tem vindo a comemorar o imenso legado da obra do pianista português, Ricardo Toscano dedicou-se a ouvir com atenção redobrada a música que Sassetti (1970-2012), “uma grande referência para todos os músicos de jazz e toda a música criativa” – no seu caso pessoal, o impacto deu-se desde que começou a tocar saxofone aos 16 anos –, deixou registada. Estava longe de imaginar que ainda havia espaço para algumas revelações inesperadas. Mas Unreal – Sidewalk Cartoon, nome do disco que Sassetti compôs para um enorme colectivo que integrava o grupo de percussão Drumming (e que é também uma delirante ficção literária da sua autoria publicada em livro), “foi uma grande descoberta” para Toscano.

Esse trabalho de investigação aturada que partilhou com os restantes membros do seu quarteto – João Pedro Coelho (piano), Romeu Tristão (contrabaixo) e João Lopes Pereira (bateria) – acabou por conduzir Ricardo Toscano à conclusão de que seria necessária “uma temporada de concertos” para os quatro poderem apresentar toda a música que desejariam levar consigo para o palco do Centro Cultural de Belém (CCB), onde actuam esta quinta-feira. “Gostávamos de poder repetir esta encomenda para tocar tantas outras coisas de que gostamos mas não pudemos incluir no reportório deste concerto”, afirma o saxofonista. Em vez de uma temporada, portanto, uma noite. Na esperança de que haja outras.

O reportório do serão Ricardo Toscano Quarteto Toca Bernardo Sassetti – composto por peças de Mundos, Nocturno, Unreal – Sidewalk Cartoon e Alice – traduz a preocupação do músico em atravessar várias fases distintas do percurso de Bernardo Sassetti, desde que “começou por ser super craque dos standards, do hard bop e da tradição”, até que “percorreu todo um caminho pela música improvisada que o levou às últimas composições”. Daí que, no CCB, o jazz expansivo de travo latino e mais fundado na tradição que se descobre em Mundos dê, mais tarde, lugar ao maior lirismo e à introspecção de Nocturno, ao mergulho no experimentalismo e no humor de Unreal, e desemboque por fim numa suite em que o quarteto juntará vários temas da banda sonora de pendor minimalista que o pianista compôs para o filme Alice, de Marco Martins.

Além desse critério de escolha que reflecte parcialmente a amplitude de linguagens que Bernardo Sassetti explorou entre Salsetti (1994) e Motion (2010) – “Foi sempre uma grande inspiração para mim”, confessa o saxofonista, espantando-se “como é que alguém podia ser todas aquelas coisas àquele nível” –, o Ricardo Toscano Quarteto teve também de seleccionar os temas que melhor se adequariam à sua própria linguagem, desenvolvida em conjunto ao longo dos últimos cinco anos. Confessando a sua admiração particular por álbuns como Alice, Unreal e os discos com o trio que Sassetti partilhava com Carlos Barretto e Alexandre Frazão, prefere salientar uma outra inspiração colhida junto do pianista: “Onde me relaciono e me revejo mais é na atitude dele enquanto artista e músico. A atitude de querer explorar novos territórios, sempre com grandiosidade e simplicidade. Espero ter a vontade e a coragem para continuar a fazer isso mesmo durante muitos anos.”

A escolha de Ricardo Toscano para este concerto da Casa Bernardo Sassetti, justifica a associação – que se dedica à divulgação da obra de um dos mais notáveis criadores e intérpretes da História da música portuguesa –, funda-se no facto de os percursos de ambos partilharem uma “abordagem que se apoia fortemente no jazz tradicional” mas que é “acompanhada de uma inevitável curiosidade e abertura à exploração musical”. Através do Ricardo Toscano Quarteto, celebrar-se-á a música de Bernardo Sassetti, mas também as ramificações que a sua imaginação deixou sugeridas para o futuro.