Crítica

Turbilhão

Quando se fizer a arqueologia da música improvisada em Portugal, este disco será documento fundamental.

Alguns dos melhores, mais respeitados e reconhecidos músicos portugueses ligados  à improvisação livre
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Alguns dos melhores, mais respeitados e reconhecidos músicos portugueses ligados à improvisação livre VERA MARMELO

Olhamos para a formação: Luís Lopes (guitarra eléctrica), Rodrigo Amado (saxofone tenor), Bruno Parrinha (saxofone soprano e clarinete), Pedro Sousa (saxofone tenor), Rodrigo Pinheiro (piano e Fender Rhodes), Ricardo Jacinto (violoncelo), Hernâni Faustino (contrabaixo), Pedro Lopes (gira-discos e electrónica) e Gabriel Ferrandini (bateria e percussão). É uma equipa de luxo, encontramos aqui alguns dos melhores, mais respeitados e reconhecidos músicos portugueses ligados à improvisação livre. Formado por iniciativa do guitarrista Luís Lopes, este dream team reúne a nata dos improvisadores de Lisboa, músicos que têm estado muito activos nesta última década, oriundos de formações como RED Trio, Rodrigo Amado Motion Trio, Humanization Quartet, Garden, EITR, Peter Gabriel Duo, entre outros projectos e grupos ad-hoc.

Este improvável noneto, designado Lisbon Freedom Unit (LFU), trabalha uma música puramente assente na improvisação livre. Sem composições ou bases pré-definidas, o grupo desenvolve um diálogo musical que vai evoluindo do zero pelas sugestões individuais, cada um alimentando o propósito de contribuir para o colectivo. Todos músicos com vasta experiência a trabalhar sem rede, Lopes, Amado, Ferrandini e companhia articulam ideias e, sem atropelos, lançam sugestões individuais de cada instrumento para o som comum, sobrepondo camadas, num processo de transformação que vai crescendo de forma contínua.

Exemplo do trabalho de pesquisa e diálogo é o início do segundo tema, que arranca com um diálogo entre piano e contrabaixo, primeiro soam perdidos, procuram pontos em comum, depois vão entrando outros músicos, contribuindo para a massa sonora crescer em volume e intensidade. Já no quarto tema ouvimos a dinâmica típica da improvisação enérgica, aquele rápido crescendo de tensão até chegar a rebentação, com aquela soberba energia que já conhecemos destes músicos, revelada noutros projectos.

Os nove músicos expressam a sua facilidade de comunicação instrumental, combinando uma amálgama de vozes e ideias musicais, daí resultando uma música por vezes sensível, delicada, noutros momentos rugosa, bruta. E, com todos os músicos a participarem em simultâneo, chega um verdadeiro turbilhão. Quando, num longínquo futuro, se fizer a arqueologia da música improvisada em Portugal no início do século XX, este disco será um documento fundamental para se entender as dinâmicas da improvisação mais pura. Quem não quiser esperar, poderá ouvir já este disco.