O "clima de ódio" saltou das palavras para as bombas enviadas a Obama e Clinton

Vários pacotes com bombas foram enviados a figuras do Partido Democrata e à CNN. Presidente do canal aponta o dedo à Casa Branca e acusa Trump de "falta de consciência sobre a seriedade dos seus ataques contra os media".

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Membros da polícia norte-americana no exterior do edifício da Time Warner em Manhattan onde houve um alerta de bomba Reuters/KEVIN COOMBS
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A polícia foi chamada depois de ter sido encontrado um "pacote suspeito" LUSA/JUSTIN LANE
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A ameaça ao edifício onde está sediado o canal televisivo foi respondida por uma equipa do departamento antiexplosivos das autoridades nova-iorquinas Reuters/KEVIN COOMBS
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O senador republicano do Arizone, Jeff Flake, na zona do edifício da Time Warner LUSA/JUSTIN LANE
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O camião que transporta o explosivo afasta-se do edifício da CNN, em Nova Iorque LUSA/JUSTIN LANE
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Os portões da casa de Bill e Hillary Clinton, onde foi encontrado um dos explosivos Reuters/CARLO ALLEGRI
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A antiga secretária de Estado norte-americana e rival de Donald Trump na corrida à Casa Branca falou sobre o ataque num comício esta quarta-feira LUSA/CRISTOBAL HERRERA
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A congressista Debbie Wasserman Schultz, a ex-secretária de Estado Hillary Clinton, um dos financiadores do Partido Democrata George Soros e o antigo Presidente norte-americano Barack Obama foram alguns dos alvos da tentativa de ataque Reuters/STAFF
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Num comício, Clinton disse que "estava bem", mas "como americana" encontrava-se assustada, apelando à união do país LUSA/CRISTOBAL HERRERA
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A polícia local à porta de casa dos Clinton, onde um engenho foi encontrado na terça-feira LUSA/PETER FOLEY

Em apenas três dias, várias figuras de topo da política norte-americana ligadas ao Partido Democrata, com destaque para o ex-Presidente Barack Obama e a antiga secretária de Estado Hillary Clinton, receberam no correio pacotes com bombas artesanais, preparadas para serem detonadas. O caso acontece a apenas duas semanas das importantes eleições para o Congresso, onde os dois maiores partidos jogam muita da sua capacidade para influenciarem as eleições presidenciais de 2020, e levou vários responsáveis do Partido Democrata a denunciarem a existência de um "clima de ódio" no país, com um destinatário não nomeado, mas presente nas entrelinhas: o Presidente Donald Trump.

O primeiro caso aconteceu segunda-feira, no estado de Nova Iorque, com um destinatário que é visto pela direita radical como o responsável por muitos dos males da sociedade norte-americana, transformado em personagem principal das mais variadas teorias da conspiração: George Soros, o multimilionário das finanças convertido em activista político e filantropo que já deu várias fortunas para apoiar causas próximas do Partido Democrata.

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O pacote enviado para a casa de Soros na cidade de Bedford foi detectado por um segurança, que o levou para uma zona afastada. Mais tarde, a polícia procedeu a uma detonação controlada e confirmou que o engenho estava preparado para explodir — era uma bomba artesanal contruída com um tubo de 15 centímetros, preenchido com um pó explosivo e colado a um dispositivo que parecia ser um relógio.

No dia seguinte, na terça-feira à noite, um agente dos Serviços Secretos da segurança permanente do ex-Presidente Bill Clinton e da sua família encontrou um pacote suspeito quando fazia a triagem da correspondência na casa do casal em Chappaqua, também no estado de Nova Iorque. O pacote, endereçado a Hillary Clinton, era semelhante ao que foi enviado a Soros e continha uma bomba do mesmo género.

"Tempos conturbados"

Esta quarta-feira, numa declaração a partir da Florida, Hillary Clinton disse que o país atravessa "tempos conturbados". "Estamos bem, graças aos homens e às mulheres dos Serviços Secretos. Estamos a atravessar tempos conturbados, não estamos?"

Depois destes dois casos, quando o corpo de segurança de Barack Obama encontrou um pacote suspeito entre o correio que chegara à casa do ex-Presidente em Washington D.C., na manhã desta quarta-feira, ficaram poucas dúvidas de que se tratava de uma operação premeditada e com alvos definidos: alguns dos principais rostos do Partido Democrata, em particular antigos e actuais responsáveis que se destacaram nas críticas ao Presidente Donald Trump.

Essa ideia foi confirmada ao longo do dia, à medida que iam sendo noticiados mais casos de pacotes suspeitos. Pelo menos um deles, enviado para a redacção de Nova Iorque da CNN (um canal acusado várias vezes pelo Presidente Trump de produzir notícias falsas), também continha uma bomba artesenal.

O destinatário era John Brennan, comentador político e antigo director da CIA na Administração Obama, a quem o Presidente Trump retirou o acesso a informação secreta, em Julho, acusando-o de mentir nas críticas à investigação sobre a Rússia.

Para além de Soros, Obama e Clinton, outras figuras do Partido Democrata — todas com um passado de zangas públicas com o Presidente — receberam pacotes com bombas.

Na capital dos EUA, a segurança do Congresso encontrou outro pacote semelhante aos que começaram a ser enviados segunda-feira, destinado à congressista Maxine Waters. Waters entrou em confronto com Trump no Verão, depois de ter pedido aos eleitores que deixassem os membros da Casa Branca "desconfortáveis" em locais públicos. Em resposta, o Presidente chamou-lhe "louca" e repetiu a acusação, "feita por algumas pessoas", de que a congressista é "uma das pessoas mais corruptas na política".

Um sexto pacote suspeito foi recebido nos escritórios da congressista Debbie Wasserman Schultz, na Florida, mas o destinatário era o antigo procurador-geral Eric Holder, nomeado pelo Presidente Obama.

O pacote acabou por ser devolvido porque a morada do destinatário estava errada, e foi recebido por Schultz porque é o seu nome e a sua morada que aparecem no remetente, neste e nos outros casos — a CNN mostrou uma fotografia do envelope que foi enviado para a sua redacção onde se lê o nome da congressista do Partido Democrata no espaço reservado ao remetente.

Para afastar dúvidas, o FBI disse que a hipótese de Schultz ter enviado os pacotes foi afastada. O mais provável é que o verdadeiro responsável, ou responsáveis, tenha usado o nome da congressista, que está na lista negra da direita e da esquerda norte-americanas — no Verão de 2016, viu-se forçada a demitir-se da presidência do Comité Nacional do Partido Democrata, acusada de favorecer Hillary Clinton na corrida com o senador Bernie Sanders pelo lugar de candidata do partido às eleições presidenciais do mesmo ano.

Os investigadores dizem que é cedo para determinar quem enviou as bombas, e qual foi o seu motivo — nas próximas horas e dias, vão tentar determinar onde foi comprado o material usado e de onde foram enviados os pacotes, para tentarem chegar aos responsáveis.

Não é novidade que o clima político nos EUA se agravou nos últimos anos, e o Partido Democrata tem acusado o Presidente Trump de criar um ambiente propício à violência com os seus ataques contra o jornalismo — que descreveu como "o inimigo do povo", em Agosto.

Do outro lado, o Partido Republicano acusa responsáveis do Partido Democrata — como Eric Holder e Maxine Waters — de instigarem a violência, com apelos a uma forte contestação contra o Presidente.

Por isso, os olhos estavam postos na declaração de Trump sobre a vaga de bombas recebidas por figuras do Partido Democrata, entre as quais um ex-Presidente. Num caso tão sensível como este, esperava-se que a Casa Branca fosse vigorosa na condenação, e a CNN chegou a avançar que o Presidente iria falar em "terrorismo doméstico".

Mas o Presidente não foi tão longe quanto isso na sua declaração na Casa Branca. Depois de partilhar um tweet em que o seu vice-presidente, Mike Pence, se referiu ao caso como "um acto cobarde" — acompanhado com a frase "Concordo sinceramente" —, Trump apelou à união em face de "actos desprezíveis". "Temos de nos unir para enviar a mensagem clara de que os actos ou ameaças de violência política de qualquer tipo não têm lugar nos EUA", disse o Presidente norte-americano.

Em resposta, o presidente da CNN, Jeff Zucker, acusou a Casa Branca de "continuar a mostrar uma total falta de consciência sobre a seriedade dos seus ataques continuados contra os media". "O Presidente, e especialmente a porta-voz, deviam perceber que as suas palavras têm influência", disse Zucker.

Horas antes, o presidente da câmara de Nova Iorque, Bill de Blasio, tocara na questão do clima de ódio, referindo-se, indirectamente ao Presidente Trump. “Quero dizer aos responsáveis de todos os partidos: não encorajem a violência, o ódio e os ataques contra os media. Este clima de ódio está a contribuir para as escolhas que as pessoas estão a fazer. A forma de travar isso é fazer o contrário. Fazer descer a temperatura, acabar com as mensagens sobre o uso de violência contra pessoas de quem discordamos. E isso tem de começar no topo.”