Portugal é dos países da OCDE onde os alunos pobres ficam mais ansiosos com os testes

Estudo publicado pela OCDE com base nos dados do PISA conclui que o contexto socioeconómico ainda condiciona o sucesso escolar. Organização sugere mais heterogeneidade nas escolas para evitar a concentração de alunos desfavorecidos em alguns estabelecimentos de ensino.

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Rui Gaudêncio

O índice de resiliência social e emocional dos estudantes portugueses inseridos em contextos desfavorecidos é dos mais baixos da OCDE. O indicador mede o nível de satisfação com a vida, a integração no meio escolar e a ansiedade associada aos testes. Em Portugal, é nesta última dimensão que os alunos pobres — cujas condições económicas, culturais e sociais os colocam entre os 25% mais desfavorecidos segundo o índice ESCS, também calculado pela OCDE — mais se queixam. Só 26,3% dizem não sofrer de ansiedade associada aos exames, mesmo quando consideram estar bem preparados.

O índice ESCS tem em conta o nível de escolaridade e ocupação dos pais e outros elementos como o número de livros em casa.

Pior do que Portugal no que respeita à ansiedade, só o Reino Unido e a Nova Zelândia. A Holanda, a Suíça e a República Checa são os mais bem colocados — mais de metade dizem não sofrer com os momentos de avaliação. 

As conclusões são de um estudo da OCDE, intitulado Equidade na Educação: quebrar barreiras pela mobilidade social, publicado nesta terça-feira. O trabalho tem por base os dados de 2015 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA, na sigla inglesa) — um estudo da OCDE que visa avaliar a literacia dos alunos de 15 anos em Ciências, Leitura e Matemática, que se realiza de três em três anos.

A nível global, o indicador de resiliência social e emocional mostra que só 16,5% dos jovens desfavorecidos em Portugal estão satisfeitos nas três dimensões que o compõem. Só a Turquia, o Reino Unido e a Itália têm valores mais baixos.

Quanto à confiança nas suas capacidades, os alunos de contextos socioeconómicos desfavorecidos tendem a acreditar menos em si do que os seus pares mais favorecidos. Mesmo quando têm competências semelhantes. Outro indicador onde também há diferenças é a carreira que esperam vir a ter. Cerca de 85% dos alunos mais favorecidos esperam uma carreira de “estatuto elevado”. Já entre os mais pobres essa expectativa só existe para 38,8% — a diferença aumentou ligeiramente desde o PISA de 2006.

Ainda assim, Portugal está entre os países onde há quase tantos alunos pobres que dizem sentir que pertencem à escola como os de contextos favorecidos.

No relatório, a OCDE sublinha a importância de ter sucesso nestas métricas que avaliam a capacidade social e emocional dos estudantes: “Alunos desfavorecidos que são resilientes também tendem a sair-se melhor ao nível académico. Isso significa que ajudá-los a desenvolver atitudes e comportamentos positivos em relação a si mesmos e à sua educação também pode beneficiar o seu desenvolvimento académico.”

Escolas desfavorecidas, notas mais baixas

Não há nenhum país ou economia entre os 72 analisados (os 36 que integram a OCDE e outros 36 que não fazem parte da organização mas são parceiros) que possa afirmar que já eliminou a desigualdade associada ao estatuto socioeconómico dos seus alunos, sublinha a OCDE.

Mesmo assim, Portugal está a melhorar. Entre o PISA 2006 e o PISA 2015, houve uma redução de 1,4% na variação da performance na área da Ciência explicada pelo estatuto socioeconómico dos estudantes. Na Leitura e Matemática também houve uma evolução positiva entre os alunos de diferentes contextos.

A diversidade do contexto escolar é, para a OCDE, essencial. E há sinais do impacto que pode ter nos resultados dos alunos mais desfavorecidos. Um aluno em Portugal que esteja inserido num contexto socioeconómico mais pobre, mas que frequente uma escola classificada como favorecida, tem, em média, mais 52 pontos na avaliação de Ciência do que um colega pobre que frequente uma escola desfavorecida — a OCDE avalia o contexto em que a escola se insere através do índice ESCS.

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Na OCDE essa diferença é, em média, maior. Ou seja, alunos desfavorecidos em escolas de ambiente favorecido têm avaliações 78 pontos mais altas do que os seus pares que frequentam instituições caracterizadas como desfavorecidas.

Quanto à resiliência académica, 25,6% dos alunos desfavorecidos mostram-se bem-sucedidos no que diz respeito às competências essenciais — são avaliados no nível 3 ou acima em Matemática, Leitura e Ciência. Além disso, um em dez alunos de contextos mais pobres está entre os 25% de estudantes a nível nacional com melhores pontuações em Ciência. Esta classificação, diz a OCDE, é “mais prevalente nos países onde há maior equidade na educação”.

É possível melhorar

“Políticas e práticas que têm o objectivo de proporcionar oportunidades de educação mais equitativas para todas as crianças podem ser implementadas na sala de aula, escola e sistema educativo”, frisa a OCDE. E têm tanto mais sucesso quanto mais cedo forem postas em prática.

Tal como já tinha sido referido num trabalho da Direcção-Geral da Estatística da Educação e Ciência (DGEEC), em Maio deste ano, que se debruçava apenas nas escolas do 2.º ciclo, em algumas zonas do território a população escolar é demasiado homogénea dentro do estabelecimento de ensino. Em Portugal, diz a OCDE agora, há 48% de alunos desfavorecidos inscritos em escolas integradas nessa categoria.

A OCDE recomenda a “redução da concentração de estudantes desfavorecidos em escolas específicas”. A organização reconhece que a “segregação residencial” pode ser um factor explicativo, mas sublinha que é importante promover esta mudança. E que pode ser conseguida através da reformatação das áreas de abrangência de cada escola, para incluir alunos de contextos socioeconómicos distintos.

Outras medidas que podem ser eficazes são o apoio aos estudantes nas fases da sua vida onde estão mais vulneráveis a estas desigualdades; objectivos “ambiciosos” para monitorizar o progresso dos alunos; desenvolver a capacidade dos docentes para detectarem necessidades específicas e gerirem salas de aula diversas; promover o bem-estar dos estudantes.