Tomás Correia diz que Santa Casa ainda não entrou no Montepio

O presidente da Associação Mutualista Montepio admite ainda recandidatar-se à liderança se não surgir ninguém adequado ao cargo.

Tomás Correia assume a presidência desde 2008
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Tomás Correia assume a presidência desde 2008 JOSÉ SENA GOULÃO

A Caixa Económica Montepio Geral ainda é totalmente detida pela Associação Mutualista Montepio uma vez que, apesar dos anúncios feitos, não foi concretizada qualquer entrada no capital de instituições da economia social, como a Santa Casa de Lisboa. "Ainda não há capital vendido, não", disse em entrevista à agência Lusa o presidente da Associação Mutualista Montepio Geral, Tomás Correia.

O responsável justificou com a necessidade de "muitas instituições terem o processo de decisão interno por fechar", nomeadamente de aprovar essa operação em assembleia-geral, afirmando estar convencido de que no final do ano serão "largas dezenas" as entidades participantes do capital da Caixa Económica Montepio Geral.

No final de Junho, o presidente da Associação Mutualista Montepio Geral, Tomás Correia, anunciou numa cerimónia em Lisboa a entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) e de mais 50 entidades sociais no capital do banco Montepio. Então, foi explicado que esse investimento ainda não estava formalizado, e quatro meses depois continua ainda por concretizar.

O provedor da SCML, Edmundo Martinho, disse então que a entidade entraria com 75 mil euros, valor ainda não concretizado, como noticiado pelo Jornal de Negócios esta segunda-feira.

O investimento da SCML no banco Montepio provocou muita polémica no início do ano, sobretudo perante as informações de que a instituição poderia entrar com 200 milhões de euros em troca de uma participação de 10%.

Em Abril, o provedor da SCML falou na possibilidade de ficar com 1% do capital do banco Montepio em troca no máximo de 18 milhões de euros, valor reduzido para 75 mil euros em Junho, com Edmundo Martinho a justificar pela "alteração das circunstâncias" depois da "discussão pública" que o investimento provocou.

Quanto às outras instituições da economia social de todo o país (nomeadamente misericórdias) não é conhecido o investimento que cada uma realizará no capital do banco Montepio, mas será sobretudo simbólico, no máximo de cinco ou dez mil. Tomás Correia disse, na entrevista à Lusa, que o investimento ficará acima dos 150 mil euros, uma participação muito reduzida, tendo em conta que o capital social da Caixa Económica é de cerca de 2400 milhões de euros.

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A Associação Mutualista Montepio aprovou este ano a alienação de até 2% do capital da Caixa Económica Montepio Geral (CEMG), o que significaria um investimento de 48 milhões de euros, uma vez que cada ação é vendida ao valor nominal de um euro.

Tomás Correia insiste agora que em causa neste processo não está capital, mas a "emoção" de um banco participado por entidades da economia social.

O responsável quis deixar ainda uma "tranquilidade ao regulador", referindo que não haverá "seguramente 150 participantes nesta primeira fase", pelo que não será preciso "lançar uma oferta pública de venda ou qualquer operação dessa natureza".

A recandidatura tabu

O líder da Associação Mutualista Montepio mantém o tabu sobre a sua recandidatura, mas admite que o poderá fazer “no limite”: "Gostava de ter uma pessoa da geração anterior à minha que assumisse as rédeas do Montepio, imbuída nos seus valores, que não renegasse a sua história e que tivesse condições para acrescentar mais património ao grande património que esta casa tem. E tem de ser alguém que pudesse cá estar 15 anos". Tomás Correia preside à Associação Mutualista desde 2008, função que, até 2015, acumulou com a presidência do banco Caixa Económica Montepio Geral.

Vincando que "há aqui uma oportunidade e um novo ciclo de reinvenção", o responsável considerou que "não haverá quem, no país e no Montepio, esteja em melhores condições" do que o próprio para enfrentar desafios como os novos estatutos da associação e o plano de transição, mas reconheceu que "o novo ciclo é muito mais do que isso". "É desejável termos uma equipa que o inicia e que o fecha e a minha dúvida é porque sei que nunca terei condições para cumprir com esse ciclo" devido à idade, acrescentou Tomás Correia.

Tomás Correia explicou ainda que Fernando Ribeiro Mendes, administrador escolhido por si que se afastou publicamente da sua gestão, foi "um acidente" deste mandato, mas assegura que não se sente "magoado" com "o divórcio".

"Vejo como um acidente e nós de vez em quando temos de estar preparados para coisas dessas acontecerem", disse Tomás Correia em entrevista à agência Lusa, quando questionado sobre a dissidência pública de Fernando Ribeiro Mendes, que deverá encabeçar uma das listas adversárias nas próximas eleições de Dezembro.

Confessando que o escolheu para administrador "com os dados que tinha na altura" e "de acordo com o que pensava ser o melhor para a Associação Mutualista", Tomás Correia admitiu que "a prática não veio a comprovar isso". "Mas isso são coisas que acontecem, não é uma preocupação" e "não me magoa", já que "só quem eu quero que me magoe é que magoa", declarou.

Antigo secretário de Estado da Segurança Social e da Indústria, Comércio e Serviços do Governo PS, de António Guterres, e também economista e professor no ISEG, Fernando Ribeiro Mendes fez parte da lista de Tomás Correia para a Associação Mutualista Montepio Geral no triénio 2016-2018, mas nos últimos tempos afastou-se da actual liderança.

Junção do Montepio e Crédito Agrícola

Já sobre a sua defesa de uma junção entre Montepio e Crédito Agrícola, Tomás Correia disse à Lusa que insiste neste tema – apesar da oposição pública do presidente do Crédito Agrícola – porque é necessário Portugal ter uma grande banco da economia social e considerou que "o sistema financeiro tem razões que os seus responsáveis, que são transitórios, desconhecem".

O presidente da mutualista Montepio afirmou que "há cada vez mais gente que comunga desta visão", e recusou a ideia de que com essa junção o Montepio pretenda melhorar os seus resultados face aos bons indicadores que o Crédito Agrícola tem apresentado.

"As coisas não são sempre coincidentes no tempo. Bons resultados numa altura trazem por vezes maus em outra, e o contrário também é verdadeiro. O Crédito Agrícola com certeza é bem gerido, é uma grande instituição, mas isso não impede de ter a visão clara de que o país precisa de um grupo financeiro da economia social com dimensão", acrescentou.

Sobre a venda da Montepio Seguros (que inclui a Lusitânia), depois da alienação falhada de uma posição maioritária a um grupo chinês, Tomás Correia disse que a mutualista não anda à procura de investidores, que aceitou a proposta do grupo CEFC porque significava "um quadro de desenvolvimento significativo para a companhia, com abertura de filiais em Macau e Hong Kong", mas admitiu que serão avaliadas propostas que eventualmente surjam.