Crónica de jogo

Plano de voo quase perfeito boicotado por desvio fatal

Num jogo frenético, o Benfica caiu no tempo de compensação na Arena de Amesterdão e comprometeu seriamente as ambições na Liga dos Campeões.

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Reuters/PIROSCHKA

Derrota demasiado cruel, numa noite personalizada que justificava um desfecho completamente diferente, sobretudo pelo plano de voo cumprido à risca pela “águia”... até ao último minuto. Um deslize de Conti, num alívio deficiente, e um ressalto inadvertido no pé de Grimaldo, com Vlachodimos já em pleno mergulho para segurar mais um remate do Ajax, deixaram o Benfica KO em Amesterdão (1-0) e obrigado a rectificar o desaire no Estádio da Luz. Seja como for, os “encarnados” ficam desde já obrigados a uma segunda volta perfeita para chegarem aos oitavos-de-final da Champions.

Da mesma forma que terminou, a partida começou louca, com o Benfica a cumprir a estratégia anunciada por Rui Vitória e a colocar o Ajax sob uma tensão psicológica que deixou os holandeses em estado de permanente alerta. 

A defesa de Onana, com pouco mais do que um minuto de jogo decorrido, a negar o golo a Rafa Silva, marcou de forma indelével uma primeira parte com oportunidades repartidas e com os dois guarda-redes irrepreensíveis entre os postes.

A vertiginosa velocidade imprimida por Rafa Silva, a tirar partido das sucessivas recuperações de bola em zonas muito próximas da área do Ajax, declarava uma espécie de lei marcial que só a ineficácia de Salvio, Seferovic e do próprio Rafa boicotou, não permitindo colher importantes dividendos. 

O Ajax sentia a confiança do adversário, com Fejsa e Gedson a reduzirem os espaços, mas encontrava sempre uma forma simples e pragmática para responder com uma atitude positiva, explorando a presença forte de Dolberg na linha da frente, quase sempre municiada pela arte de Ziyech. 

Vlachodimos foi chamado a intervir em três momentos cruciais, ainda que tenha competido ao central argentino Conti a acção mais decisiva da etapa inicial, cortando em cima da linha fatal uma bola com a assinatura de golo de Dolberg, superando a tecnologia de linha de golo e recolhendo aos balneários com aura de herói. 

O encontro da Cruijff Arena atingia o intervalo em branco num claro contrasenso com as dinâmicas ofensivas das duas equipas, boas para o espectáculo oferecido mas que deixavam as equipas muito expostas em termos físicos. Facto que determinou um reatamento mais pausado, com a intensidade a baixar significativamente e tanto o Ajax quanto o Benfica a aproveitarem para respirar um pouco melhor. 

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O anfitrião percebia que precisava de mudar a abordagem e passava a explorar o espaço deixado pelas “águias” quando pressionavam alto e se expunham às lanças holandesas. Apesar do maior equilíbrio, o Benfica continuava a justificar um golpe de felicidade e uma vantagem que o camaronês Onana teimava em negar-lhe com defesas nos limites. 

Porém, mesmo com Vlachodimos a responder a todas as tentativas de o guarda-redes local se destacar, o que sobrava em termos de entrega e construção de uma ideia ofensiva coerente, com o selo de qualidade de Seferovic, faltava em matéria de inspiração a Pizzi. 

Apesar das juras  de golo e das intenções declaradas de parte a parte — que incluíram uma defesa magistral de Vlachodimos a remate de Van de Beek —, o jogo ameaçava caminhar para o final sem o momento mais esperado. A Rui Vitória cabia mexer as pedras e o treinador do Benfica abdicava de Pizzi, lançando Gabriel para pensar e gerir melhor os momentos críticos que se aproximavam à medida que o desgaste físico ameaçava partir o jogo. Mas acabou por falhar a aposta no médio brasileiro, que revelaria os mesmos pecados do antecessor.  

E nem a entrada em cena de Franco Cervi resultou minimamente, com o argentino a reclamar uma falta para castigo máximo na área do Ajax e os holandeses a aproveitarem para  resolver o encontro num raide fatal para a formação portuguesa, abatida por um golo do defesa marroquino Noussair Mazraoui (90+2’), mesmo em cima do apito final.

Uma espécie de maldição de Amesterdão, parte II, depois da derrota no mesmo minuto registada em 2013, na final da Liga Europa, diante do Chelsea (2-1). Já sem tempo para reagirem, os “encarnados” não evitaram a fuga para a frente de Ajax e Bayern no topo do grupo, ao falharem um novo êxito após dois anos sem conseguirem vitórias consecutivas fora de casa na Champions. Com o desfecho dramático da Cruijff Arena, e a vitória do alemães em Atenas, o Benfica terá agora que fazer uma segunda ronda praticamente imaculada.