O navio mais antigo do mundo praticamente intacto está no fundo do mar Negro

Tem 23 metros de comprimento e mais de 2400 anos. Os arqueólogos acreditam que é grego e foi encontrado a 1,6 km de profundidade. Projecto que o identificou localizou 60 embarcações desde 2015. Parte dos resultados é apresentada esta semana em Londres.

O navio com mais de 2400 anos, muito provavelmente grego
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O navio com mais de 2400 anos, muito provavelmente grego MAP/EEF Expeditions

Uma embarcação de madeira pousada no fundo do mar a 1,6 km da superfície. O mastro, os lemes e os bancos destinados aos remadores estão ainda bem visíveis e num estado de conservação que só pode ser classificado como “incrível”, tendo em conta que terá sido construído há mais de 2400 anos, muito provavelmente na Grécia.

Os arqueólogos que o descobriram integram o Black Sea Maritime Archaeology Project (MAP) e fazem parte de uma equipa internacional que, desde 2015, trabalha no mar Negro em busca de embarcações e que já identificou 60. São estes especialistas que acreditam que este é o mais antigo navio do mundo praticamente intacto e que o seu estudo trará muita informação: “Isto vai mudar o nosso entendimento das técnicas de construção de navios e da vida no mar no mundo antigo”, disse ao diário britânico The Guardian o investigador que coordena o projecto, Jon Adams. “Um navio do mundo clássico que sobreviveu intacto sob dois quilómetros de água é algo que nunca conseguiria imaginar”, acrescentou este especialista que é também o fundador e director do Centro de Arqueologia Marítima da Universidade de Southampton, no Reino Unido.

A equipa do MAP defende que se trata de uma embarcação mercante muito semelhante à que aparece representada num dos célebres vasos gregos de cerâmica que fazem parte da colecção do Museu Britânico, um vaso que, aliás, data do mesmo período.

Embarcações dos impérios romano, bizantino e otomano

Os principais resultados dos trabalhos desenvolvidos pelo MAP, projecto que integra arqueólogos, cientistas e investigadores marítimos e que nos últimos três anos explorou as águas da Bulgária com o objectivo de reunir informação sobre o impacto das alterações do nível do mar depois do último ciclo glacial e a evolução da actividade humana na região, serão apresentados no final desta semana na Wellcome Collection, museu londrino cujo acervo se centra sobretudo nos cruzamentos entre a arte e a ciência. Esta terça-feira, o Museu Britânico associa-se também ao final dos trabalhos no terreno, passando o documentário de duas horas feito durante esta missão científica coordenada pela Universidade de Southampton que, entre muitas outras coisas, identificou embarcações dos impérios romano, bizantino e otomano.

Usando veículos telecomandados (ROV) e as mais modernas tecnologias de scanner a laser, acústica e fotogrametria (técnica que permite efectuar medições rigorosas a partir de fotografias), a equipa do MAP fez o levantamento de navios que vão do IV-V séculos a.C. ao século XVII, colocando à disposição dos investigadores um manancial de informação que, até aqui, era desconhecido ou estava acessível apenas através de fontes indirectas.

“Devido ao ambiente anóxico [com uma diminuição muito significativa de oxigénio] do mar Negro, a partir de uma certa profundidade, algumas das embarcações sobreviveram em condições incríveis”, lê-se num comunicado da Universidade de Southampton, de Setembro do ano passado, em que se dá conta dos resultados preliminares e em que se fala já de um navio com mais de 2400 anos no impressionante lote de 60 identificados.

Mar Negro, laboratório subaquático

O mar Negro é considerado um dos melhores laboratórios subaquáticos precisamente devido ao facto de as suas condições de oxigénio permitirem preservar muito melhor os objectos do que a esmagadora maioria dos ambientes marinhos. É por isso que entre os naufrágios localizados há uns tão bem conservados que os detalhes da decoração das madeiras e as marcas das ferramentas são hoje quase tão visíveis como no dia em que o barco foi dado por terminado, continua o documento. Noutros, as ânforas romanas que transportavam estão ainda no mesmo lugar em que foram cuidadosamente arrumadas, à espera de ser descarregadas no porto de destino.

“Muitos [dos navios] mostram características estruturais, encaixes e equipamentos que só eram conhecidos através de iconografia ou de descrições escritas. Até aqui nunca tinham sido vistos.” Jon Adams, coordenador científico deste projecto que envolve cientistas do Reino Unido, Bulgária, Suécia, Estados Unidos e Grécia, disse à publicação online The International Business Times que “o conjunto [de embarcações identificadas] forma certamente um dos melhores museus subaquáticos de navios e actividades marítimas” do mundo.

Além da informação reunida que pode relacionar-se com as alterações climáticas — entre ela, dados geofísicos que permitirão reconstituir a antiga linha costeira — e da cartografia do fundo do mar em 2000 quilómetros de águas sob jurisdição búlgara, o MAP recolheu ainda vestígios de uma antiga aldeia da Idade do Bronze (cerca 3300 a 1300 a.C.).

Ao que tudo indica, todos os navios identificados ficarão exactamente onde se encontram. Trazer qualquer um deles para a superfície seria uma operação extremamente complexa e que poria em risco a sua preservação.