Editorial

O verdadeiro perigo dos devaneios de Trump

Donald Trump voltou a vestir o fato de rapaz de rua duro e brigão e anunciou ao mundo que os Estados Unidos estariam prontos para rasgar o tratado que limitava a proliferação de mísseis nucleares de alcance intermédio assinado em 1987 entre Mikhail Gorbatchov e Ronald Reagan. Não nos espanta que o Presidente dos Estados Unidos queira enterrar um acordo que livrou a Europa de mísseis nucleares com a mesma descontracção que elogia um senador acusado e condenado por agredir um jornalista. O discurso agressivo e belicoso de Trump simboliza uma era na política que isenta presidentes ou congressistas da responsabilidade pela decência ou pela promoção de valores.  

Com este contexto, a ameaça de Donald Trump deixou de ser levada a sério como seria normal. Como já aprendemos, Trump é pródigo em lançar ameaças que o tempo, o equilíbrio de poderes  e o contravapor da administração se encarregam de esvaziar — a história do muro com o México é a esse propósito relevante. Mas se há que conceder desconto às ameaças de Trump, será um erro ignorá-las por completo. Porque elas são proferidas na sequência de uma cultura que as tolera e até acolhe. Trump ameaça rasgar um acordo que deu enormes contributos para a paz porque o seu secretário da Defesa, John Bolton, é um militarista empenhado e porque a América profunda que o elegeu não quer saber dos avisos sensatos de senadores republicanos como Rand Paul e ainda menos dos avisos conscientes de analistas, de militares ou da comunidade internacional.

A simples escalada das palavras pode não significar nada a curto prazo, mas cria uma cultura, define um padrão nas relações internacionais baseada na ameaça e produz por simples inércia as condições que tornam mais provável a passagem da ameaça do conflito ao conflito. Acusar a Rússia (ou a China) de violar um tratado faz parte da tradição da diplomacia tensa que sobreviveu à destruição mútua garantida dos anos de 1960 e 1970. Dizer que se rasgam tratados para se poder investir em novos mísseis é mais alento para uma nova corrida às armas que já começou. Sabemos pelas lições da História como esta loucura começa e sabemos como acaba. Mais do que mais um devaneio do homem mais poderoso do mundo, a ameaça de Donald Trump torna as leituras do mundo ainda mais preocupantes.