Londres, Paris e Berlim exigem investigação "credível" à morte de Khashoggi, Merkel suspende venda de armas

Os três países expressam claramente que não ficaram convencidos com a explicação da Arábia Saudita. Chefe da diplomacia saudita diz que houve "enganos e mentiras" mas que MBS não sabia de nada.

Jornalistas indonésios pedem "justiça por Khashoggi"
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Jornalistas indonésios pedem "justiça por Khashoggi" BAGUS INDAHONO/EPA

Os governos de França, Reino Unido e Alemanha sublinharam, num comunicado conjunto, a “necessidade urgente de esclarecer” a morte “inaceitável” do jornalista saudita Jamal Khashoggi, que desapareceu a 2 de Outubro dentro do consulado saudita de Istambul, na Turquia. 

Indo mais longe, a chanceler alemã, Angela Merkel, anunciou a suspensão de venda de armas ao reino saudita, o segundo maior cliente da sua indústria de armamento. “No que diz respeito às exportações de armas, não podem ter lugar nas actuais circunstâncias”, disse Merkel.

No comunicado conjunto, os três países expressam claramente que não ficaram convencidos com a explicação da Arábia Saudita, que reconheceu que o jornalista morreu dentro do seu consulado durante uma “luta” com elementos da segurança que tentavam convencê-lo a regressar ao seu país. Jamal Khashoggi, que chegou a ser próximo da família real saudita, partiu para os Estados Unidos quando se tornou crítico das políticas autoritárias e repressivas do príncipe Mohammed Bin Salman (MBS), a quem o pai, o rei Salman, com 82 anos e problemas de saúde, passou a gestão do país. 

“Registámos a declaração dos sauditas onde explicam as conclusões das suas explicações preliminares. Mas permanece a necessidade urgente de se fazer luz sobre o que aconteceu exactamente no dia 2 de Outubro, para além da hipótese avançada pela investigação saudita, que tem que ser corroborada por factos para ser considerada credível”, diz o comunicado dos três países. 

“Insistimos por isso que sejam feitos maiores esforços, necessários e desejáveis, para que se estabeleça a verdade de forma clara, transparente e credível”, diz o texto.

Nos Estados Unidos, país aliado dos sauditas e com negócios de biliões de dólares em fase terminal, o Presidente Donald Trump tem-se mostrado oscilante sobre a posição a tomar — num primeiro momento aceitou as explicações sauditas, disse esperar que os negócios entre a Arábia Saudita e os EUA não fiquem comprometidos e, sábado à noite, acusou Riade de “mentir”.

Porém, dentro do Partido Republicano, que o Presidente representa, há elementos mais contundentes. O senador Bob Corker, por exemplo, disse que MBS “pisou o risco” ao ter, aparentemente, ordenado o assassínio de Jamal Khashoggi — acrescentou que os EUA têm informações dos serviços secretos que sugerem “o envolvimento de gente ao mais alto nível”.

“Tem que haver punição, um preço a pagar”, disse Corker. “Se ele teve alguma coisa a ver com aquilo, então tem que haver uma resposta colectiva”, defendeu no canal de televisão CNN. O comunicado conjunto alemão, francês e britânico também fala na responsabilização dos verdadeiros responsáveis. 

Mal o comunicado conjunto foi divulgado, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita, Ahmed Al-Jubeir — a segunda pessoa que não pertence à Casa de Saud a ocupar o lugar —, fez declarações a outra estação de televisão dos EUA, a Fox News. Disse que a morte do jornalista foi “um enorme erro”, mas que Riade desconhece onde está o corpo de Jamal Khashoggi.

"Ele foi morto no consulado. Mas não sabemos pormenores. Não sabemos onde está o corpo", disse Jubeir, o primeiro alto responsável saudita a pronunciar-se sobre o caso aos jornalistas. “Estamos determinados em virar todas a pedras... Estamos determinados em punir os responsáveis por este assassínio.”

A Arábia Saudita já anunciara que 18 sauditas foram detidos no âmbito da sua investigação, alguns com ligações aos serviços secretos. Alguns estavam ligados aos serviços secretos — e MBS recebeu do pai a incumbência de reformar os serviços secretos sauditas.

“Obviamente, houve enganos e mentiras”, disse Ahmed Al-Jubeir ao jornal norte-americano The Washington Post. Acrescentou que MBS não sabia de nada do que se passou no consulado

No Ocidente, tudo indica que a pressão sobre a Arábia Saudita vai aumentar, de acordo com as declarações feitas neste fim-de-semana. O chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, sugeriu no sábado que o seu país suspendesse as exportações de armamento para o reino saudita até que termine a investigação à morte de Jamal Khashoggi.

“Até não sabermos o que se passou, não posso imaginar que exista base no Governo alemão para aprovar as exportações”, disse à televisão ARD. Neste domingo Merkel suspendeu os negócios.