“Pode ameaçar-se culturalmente um povo pela indiferença política”

É francês mas escreveu um romance policial nórdico, Quarenta Dias Sem Sombra. Com a Lapónia como cenário, Olivier Truc dá-nos conta de como vivem os Sami, um dos últimos povos indígenas da Europa. E das ameaças que pairam sobre a sua cultura tradicional.

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Olivier Truc Miguel Manso
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O povo Sami, um dos últimos povos indígenas da Europa REUTERS/William Webster
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O polical de Oliver Truc está publicado em Portugal na Planeta dr

Numa altura em que os romances policiais nórdicos já se libertaram da herança que o género trazia desde a tetralogia Millennium, do sueco Stieg Larsson – histórias de crimes com motivação e dimensão social, em que se movimentavam forças políticas ou económicas ocultas, e em que os crimes tinham pouco derramamento de sangue – eis que chega um autor francês com um thriller ‘nórdico’ que parece ser o ‘elo perdido’, embora um pouco fora de tempo, entre Larsson e os actuais escritores suecos e noruegueses de policiais, em cujas histórias volta a aparecer ‘sangue derramado na neve’. Ele é Olivier Truc (n. 1964) – jornalista e documentarista a viver há mais de vinte anos em Estocolmo, agora como correspondente dos jornais Le Monde e Le Point, especialista em assuntos dos países nórdicos e bálticos – e o livro tem o título Quarenta Dias Sem Sombra, acabado de traduzir pela editora Planeta.

A acção – e esta é uma das suas singularidades – tem lugar no território da Lapónia norueguesa e sueca, a terra onde vive o povo Sami, um dos últimos povos indígenas da Europa. São quase inexistentes, pelo menos entre os muitos romances policiais nórdicos que conhecemos, aqueles em que os crimes acontecem entre o povo lapão, entre os pastores de renas – a excepção é um livro de Åsa Larson, cuja parte da trama decorre em Kiruna, a cidade capital da Lapónia sueca. Olivier Truc – que passou por Lisboa aquando do lançamento do livro, e que falou com o PÚBLICO – confirma: “Os escritores suecos e noruegueses não conhecem a Lapónia nem a cultura da região. Aliás, nem o resto da população nórdica conhece, a não ser como turistas. Os escritores não sabem o que se passa lá, que tipo de conflitos têm, como vivem e como sentem. Não podem escrever romances com a Lapónia como cenário e os lapões como personagens.” E confessou não ser um leitor de policiais nórdicos, mas que leu com gosto a tetralogia de Stieg Larsson.

Três anos depois de ter chegado a Estocolmo – ainda como correspondente do Libération – enquanto fazia reportagem sobre as eleições para o parlamento lapão sueco, conheceu numa mesa de voto um jovem Sami a viver na capital. Foi da conversa que teve com ele, e ao aperceber-se dos conflitos (sobretudo entre pastores e agricultores) que por lá aconteciam, e da discriminação de que os lapões eram alvo – num dos países europeus mais conforme ao “politicamente correcto” – que lhe surgiu a ideia de fazer uma série de reportagens e de artigos para o jornal em que trabalhava. Visitou a região algumas vezes.

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Uns anos depois, ocorreu-lhe filmar um documentário sobre a “polícia das renas” – corpo policial que se desloca em motos de neve, que dá apoio e mantém a ordem entre os pastores – na região da Lapónia norueguesa. Durante cerca de dois meses, Olivier Truc e a equipa de filmagens viveram com estes homens, deslocando-se também em motos, dormindo nas mesmas tendas, alimentando-se da mesma maneira na vasta tundra lapã onde durante quarenta dias por ano o sol não sobe no horizonte. Foi durante este tempo que pôde presenciar os conflitos de pastagens entre os criadores de renas, entre estes e os agricultores e por vezes o Estado, as desavenças entre famílias, as suas dificuldades de vida, o peso das tradições na maneira como vivem.

“A Lapónia é um território imenso, do tamanho do Líbano”, afirma. “Claro que quando alguma coisa acontece, a não ser por um enorme acaso, a Polícia chega sempre tarde de mais. É quase ridículo se pensarmos numa Polícia assim, eles são muito poucos, talvez não mais do que uma dúzia de elementos, que se deslocam aos pares por toda aquela vastidão. Mas fazem o seu trabalho de mediação e mantêm em relatórios um conhecimento sobre a região, que está muito distante dos centros de poder.”

Olivier Truc conta que quando pensou em escrever um livro sobre o povo Sami – actualmente, apenas 10% da população se dedica ao pastoreio – queria fazê-lo sobre os criadores de renas, sobre o seu modo de vida, sobre o que tinha vivido e aprendido com eles, sobre as muitas histórias que eles e os polícias lhe contaram. Não pensou logo num livro de ficção: Truc é um jornalista e ficcionar estava longe das suas ambições. Mas aos poucos houve personagens que, de uma maneira ou de outra, foram ganhando corpo, e ele sentiu que precisava da liberdade ficcional para aprofundar alguns assuntos, levá-los para campos em que o jornalismo o tolhia. “A minha primeira mentira no romance foi sobre a polícia das renas. Esse corpo policial existe apenas na Lapónia norueguesa. E eu estendi-o pelos três países, Noruega, Suécia e Finlândia. Dei-lhe o quartel-general em Kiruna, uma fascinante cidade sueca que cresceu no meio da tundra para explorar uma mina de ferro. Achei que seria mais interessante para a história mostrar de maneira prática a cooperação entre os três países.”

Em Quarenta Dias Sem Sombra o acontecimento que está no centro da trama é o roubo de um tambor de xamã do centro cultural onde iria ser exposto – acontecimento que ocorre em paralelo com um outro: a morte de um criador de renas a quem cortam as duas orelhas. “Em todo o mundo estão referenciados setenta e um tambores de xamã lapões, a maior parte deles está nas mãos de coleccionadores particulares deste tipo de objectos”, diz Truc, “mas nenhum deles se encontra na Lapónia. A necessidade do regresso a casa destes símbolos culturais alimenta muitas discussões na região. Eu quis falar de um assunto real, e decidi fazer do retorno de um objecto o principal elemento da intriga.” E este tambor vai levar o leitor a uma expedição francesa em 1939, entre muitos outros acontecimentos, e também com recuos ainda maiores aos séculos da evangelização protestante (com referências actuais à seita luterana dos Laestidius), tempos em que muitos xamãs acabaram os seus dias nas fogueiras religiosas.

Olivier Truc escreveu uma espécie de “policial étnico”, como alguns lhe chamaram. Mas para além dos interessantes aspectos antropológicos e etnográficos de que faz uso, há um outro lado bastante bem explorado por Olivier Truc, que é o da paisagem e do clima. A relação do homem com a longa noite árctica e com o frio extremo, aparece algumas vezes nos pensamentos ou nas frases do polícia Klemet, um lapão: “Aprendera há muito a não ter frio. Desde a juventude. O frio, como a noite, roubam a razão, despertam medos terríveis. Não podia permitir-se ter frio. Tinha-o jurado a si mesmo, há muito tempo.”

Políticas

A dimensão política deste romance não é de modo algum dispicienda. São várias as referências ao longo da narrativa à actual situação do povo Sami, sobretudo na parte da região lapã pertencente à Suécia. Como a seguinte: “O Estado tinha demasiado má consciência em relação à sua população autóctone alegadamente mal tratada no passado.” Note-se que há algumas dezenas de anos que o assunto do povo Sami se discute na Suécia – a Suécia e a Finlândia não assinaram até hoje um documento das Nações Unidas titulado ‘Convenção Sobre os Povos Indígenas e Tribais’ datado de 1989 – e o assunto continua em aberto. “Na Suécia parece não haver vontade política de serem tratados os problemas dos lapões. Estou certo que o próximo governo fará o mesmo: criar uma nova comissão para tratar do assunto. Estas comissões nunca tiveram conclusões práticas. Pode ameaçar-se culturalmente um povo pela indiferença política. A lei norueguesa, talvez porque grande parte da população Sami habita neste país, dá mais garantias à cultura tradicional lapã. São muitos os interesses que se estendem à tundra.”

Os problemas que afectam os pastores de renas – e por consequência a cultura Sami – têm sobretudo a ver com a demarcação das áreas tradicionais de pastagens: que são afectadas pela contrução de novas estradas que as atravessam, dificultando assim a transumância das grandes manadas, e com a pressão das companhias de exploração de minérios, sobretudo de ferro. A sociedade Sami continua a ser bastante tradicional, e apesar de ser uma pequena parte da população a que vive da criação de animais – a grande maioria dos lapões trabalha nos serviços, no turismo, e na indústria mineira – a sua cultura tradicional (o que os torna um povo coeso) ainda é mantida em redor da vida dos pastores de renas, hoje menos idílica do que no passado – os pastores já se deslocam em motos de neve e muitos têm habitações fixas onde pernoitam com a família.

Poder-se-ia pensar que haveria neste povo indígena europeu algum assomo de vontade independentista (têm uma língua própria). Mas Olivier Truc esclarece que essa questão nunca se coloca. “São relativamente muito poucos, o território é enorme. Têm, obviamente, direitos civis como os de qualquer cidadão dos seus países. A discriminação é a um outro nível, mais cultural do que de direitos políticos. Daí talvez o facto de não serem considerados suecos por inteiro. Tradicionalmente eles não são donos da terra, em extensas áreas a posse é estatal, e os Sami têm o direito do seu uso. Mas a pressão da indústria mineira é enorme.”

Mas não só a ausência de políticas governamentais perigam a cultura tradicional Sami. Também as alterações climáticas: Truc, que ao longo de todos estes anos visitou várias vezes a Lapónia, afirma tê-las presenciado: “O aumento da temperatura provoca uma diminuição da precipitação de neve e um aumento sob a forma de chuva. Água que no solo acaba por se transformar em gelo. As renas conseguem partir a primeira camada gelada para chegarem aos rebentos das ervas, mas como a água cai agora mais vezes sob a forma de chuva do que de neve, e outras camadas se formam, os animais já não conseguem partir a terceira lâmina de gelo formada, diminuindo assim, em muito, a quantidade de comida. Já assisti a manadas de renas a serem alimentadas com ração. É economicamente incomportável se isto passar a ser uma forma regular de alimentação. É o fim de uma cultura tradicional.”