Opinião

O país está à espera

Não deixa de ser curioso que a bomba dos relatórios estoire em cima do ministro no dia em que chega aos tribunais o processo das mortes dos Comandos.

Empurrado pelo novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, o general Rovisco Duarte demitiu-se de chefe de Estado-Maior do Exército (CEME). Fê-lo tarde. Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República e comandante supremo das Forças Armadas, já devia, há muito, ter-lhe retirado a confiança institucional. Da mesma forma expedita e com o mesmo vigor interventivo demonstrado ao exigir a cabeça da ex-ministra da Administração Interna Constança Urbano de Sousa, era preciso que o Presidente tivesse demonstrado a autoridade do poder democraticamente eleito, reposto a ordem democrática e reabilitado a credibilidade e o prestígio das Forças Armadas.

Mas mesmo depois das demissões do CEME e do ministro da Defesa,o problema de Tancos não está resolvido. Pelo contrário, todas as dúvidas e suspeitas se mantêm e não foram solucionadas pelo facto de o politicamente inábil professor universitário se ter imolado na fogueira a que se foi atirando, de modo precipitado e voluntarista, ao longo de um ano.

O que se passou em relação ao roubo de armamento no Quartel de Tancos contínua envolto numa cortina de fumo. Mas nem o maior ingénuo ou o mais completo tonto acredita que um homem comum entrou dentro de um quartel, abriu um paiol, tirou mais de 20 caixas de armamento e os levou para a quinta da mãe. Isto tudo, sozinho. Se fosse verdade, seria um roubo digno de figurar numa história dos Irmãos Metralha. Esperemos que a investigação em curso no Ministério Público não passe do universo Walt Disney para o de Hergé e se venha a perceber que esteve a cargo dos gémeos Dupond e Dupont. Não terá sido, aliás, por acaso que o primeiro-ministro, nas cerimónias do 5 de Outubro, em declarações aos jornalistas, perguntou porque não estão todos os ladrões detidos. António Costa não faz uma declaração destas por distracção, nem por acaso.

A nebulosa que se foi adensando à volta desta questão assassinou politicamente o ex-ministro Azeredo Lopes. Mas o roubo e sobretudo toda a novela da encenação de entrega dos caixotes de armamento feita por membros das Forças Armadas é um tiro de canhão na credibilidade e no prestígio da instituição militar. Depois de ter ficado a imagem de que o Exército não passa de uma tropa fandanga que, provavelmente, ocupa os dias a puxar o brilho às botas para desfilar na parada e que nem é capaz de tomar conta de um paiol, a percepção trazida pelo encobrimento agrava a situação. A noção criada é a de que as Forças Armadas perverteram o sentido da sua existência e se transformaram numa instituição permeável à corrupção e infiltrada de conivências com o banditismo — uma instituição, na qual os responsáveis se arrogam o direito de nada explicarem e de justificar desmandos, limitando-se a repetir a expressão “interesse nacional”, como uma versão actual do bordão salazarista do “a bem da nação”.

As respostas que o país aguarda tornaram--se mais complexas com o próprio momento em que ficou exposta a nebulosa que envolveu Azeredo Lopes. Lembremos: de repente, foi revelada a existência de memorandos (quantos são?) sobre a devolução encenada — documentos que terão sido entregues ao então chefe de gabinete do ministro, um major-general, mas que Azeredo Lopes diz não conhecer e que não estarão registados no ministério.

Ora, isto foi noticiado no mesmo dia em que se iniciou o julgamento dos oficiais dos Comandos responsáveis pelas mortes no treino deste corpo militar. Pode ser coincidência, para quem acredita nelas, mas não deixa de ser curioso que a bomba dos relatórios estoire em cima do ministro no dia em que chega aos tribunais o processo das mortes dos Comandos, um dos momentos em que Azeredo Lopes afrontou as Forças Armadas — o outro foi no caso de comportamentos homofóbicos no Colégio Militar, que levou à demissão do seu subdirector e do então CEME, Carlos Jerónimo.

Rovisco Duarte tinha ultrapassado como CEME todos os prazos de validade que a transparência democrática tolera. Mas há explicações que as Forças Armadas têm a dar ao país — até porque é importante frisar que, em democracia, o interesse nacional é defendido pelo poder legislativo e executivo democraticamente eleito. Não pelas casernas.