Opinião

Orbán, Trump, Bolsonaro: como chegámos até aqui? (II)

Se Bolsonaro chegar à Presidência, devem os brasileiros preparar-se para uma versão séc. XXI do fascismo?

Mas é mesmo fascismo o que aí vem? Se Bolsonaro chegar à Presidência do Brasil daqui a uma semana, devem os brasileiros preparar-se para uma versão séc. XXI do fascismo? A recorrente atitude de descartar qualquer comparação entre Hitler e Mussolini e figuras como Bolsonaro (ou Trump, ou Orbán, ou Salvini) decorre de um velho vício que é o de, anacronicamente, julgar que o fascismo não existe sem bigodinhos ridículos, paradas noturnas com archotes e Auschwitz – e, contudo, por aí não faltam deportados, campos de prisioneiros, discriminação racial, milícias, retórica anticomunista e discursos de ódio.

Depois de terem promovido a fascização das relações de trabalho (precariedade e falta de liberdade na relação com o empregador, ação coletiva e sindicalização assumidas, na maioria dos casos, como necessariamente clandestinas), a questão reside em saber se os grupos sociais e políticos que se reservam a possibilidade de usar a carta da fascização do Estado acham ainda que os seus interesses estão suficientemente garantidos nos sistemas formalmente liberais em que vivemos. Exatamente como aconteceu na era do Fascismo (1918-45), o problema é mais de oportunidade do que de necessidade: mais do que avaliar a necessidade de proteger os seus interesses eliminando (política e fisicamente) os seus opositores e a resistência social, porque julgados demasiado fortes, o que hoje se pergunta quem empurra Bolsonaro para o poder (e com ele acordou uma agenda económica e social) é se se pode dar ao luxo de perder esta oportunidade, a primeira que se lhe oferece desde o fim da ditadura militar (1985).

Há duas semanas defendi aqui a ideia de que vivemos um pouco por todo o mundo um estádio adiantado de uma transição autoritária, na qual, sem que se quebre a aparência da continuidade do sistema democrático, se evolui na direção da ditadura – exatamente como aconteceu com o fascismo e o nazismo, entronizados no poder por via constitucional. A pergunta, portanto, é se são suficientes os instrumentos que já estão operativos (Estado securitário Big Brother que viola direitos humanos e liberdades fundamentais em nome de uma emergência tornada permanente; inventar uma pretensa invasão demográfica para securitizar as migrações, naturalizar o racismo e dividir os explorados em torno de identidades étnicas/culturais) ou se, pelo contrário, é preciso partir para a violência institucionalizada do Estado.

Que triunfem personagens como Trump e Bolsonaro em duas das sociedades mais violentas e mais policializadas do mundo (segundo o World Prison Brief, 2,1 milhões de presos nos EUA, 0,66% de toda a população, a proporção mais alta de todo o mundo; 700 mil no Brasil, 0,32%; por comparação, 0,13% em Portugal, 0,18% na Venezuela, 0,12% na China), é a prova de como a violência se naturalizou nas relações sociais. Uma parte muito significativa dela é praticada pelas forças policiais, legitimadas que estão por uma opinião que a justifica e que, quanto menos aceitar explicações sociais, mais tende a julgar que a solução é mais violência ainda. Por exemplo, ocupando militarmente cidades inteiras; se necessário, suspendendo o Estado de Direito; se preciso, impondo a ditadura. E aí está Bolsonaro prometendo cinco ministros militares e fazendo campanha no BOPE (Batalhão de Operações Especiais), no Rio, onde foi dizer que, se for eleito, “a classe militar terá um dos nossos” em Brasília (Estado de São Paulo, 15.10.2018). Bolsonaro no poder será sempre violência de Estado; não que ela seja novidade, mas haverá mais, e mais legitimada. E, além dela, haverá a violência praticada por quem se sente politicamente legitimado pela ideologia do Estado.

Em 1924, ano e meio depois de Mussolini chegar ao poder, o deputado socialista Matteotti não precisou de ser detido pela polícia e executado por uma via legal que ainda nem sequer havia sido implantada; matou-o uma squadra de militantes fascistas. No Brasil dos esquadrões da morte e dos assassinos da vereadora Marielle Franco, percebe-se bem do que estou a falar: matar ativista de esquerda é coisa bem mais fácil do que matar Kashoggi. Confrontado com as suas responsabilidades no caso Matteotti, Mussolini, chefe de um governo de coligação que ainda tolerava a existência de oposição legal, limitou-se a dizer: “Se o fascismo é uma associação de delinquentes, sou eu o chefe dessa associação! Se toda a violência foi o resultado de um determinado clima histórico, político e moral, a responsabilidade é minha, porque este clima histórico, político e moral criei-o eu”.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico