O guarda-redes que ia desistir e a selecção que fez história

Madagáscar obteve um inédito apuramento para a Taça das Nações Africanas. E deu uma segunda vida a um futebolista sem rumo

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Adeptos de Madagáscar com uma bandeira gigante do país DR

Era uma vez uma selecção que nunca tinha conseguido qualificar-se para nenhum torneio internacional. Era uma vez um guarda-redes que tinha perdido a motivação e estava para desistir do futebol. Juntos, fizeram história: Madagáscar venceu a Guiné Equatorial (1-0) e, com duas jornadas da fase de qualificação ainda por disputar, já não precisa de fazer contas – apurou-se, pela primeira vez, para a fase final da Taça das Nações Africanas (CAN). E vai tornar-se na 40.ª equipa (das 54 que fazem parte da confederação africana) a estrear-se na competição que decorre entre Junho e Julho do próximo ano, nos Camarões, a primeira edição com a fase final ampliada de 16 para 24 selecções.

Ibrahima Dabo, de 26 anos, é o protagonista da improvável história de sucesso malgaxe. Saltou do anonimato dos escalões inferiores do futebol francês para a baliza da selecção de Madagáscar, redescobrindo a paixão pelo futebol e contribuindo para um feito histórico. O baptismo de fogo aconteceu há ano e meio, na ronda preliminar contra São Tomé e Príncipe, que valia um lugar na fase de qualificação: dois triunfos, por 0-1 e 3-2, permitiram afastar os são-tomenses e avançar para o Grupo A.

A estreia pela selecção malgaxe chegou na melhor altura para Ibrahima Dabo. Meses antes andava perdido pelo oitavo escalão do futebol francês, na terceira equipa do Créteil-Lusitanos. “Era jovem e não tinha noção da sorte que tinha. Faltava aos treinos, chegava atrasado nos dias de jogo...”, contava ao Le Parisien. Chegou a arranjar um trabalho como paramédico, e a perspectiva de deixar o futebol para trás passou-lhe pela cabeça. Até que se cruzou com um treinador que lhe devolveu a confiança e começou a apostar regularmente nele. Há um ano acompanhou o técnico na ida para o Gobelins, do quinto escalão. A selecção malgaxe, nessa altura, já era uma realidade.

“Fiquei surpreendido quando recebi a chamada, mas senti uma grande felicidade”, disse o guardião ao jornal francês, recordando o primeiro jogo: “Num momento em que o jogo decorria no meio-campo contrário, olhei à minha volta e apercebi-me que havia 35 mil pessoas nas bancadas. Quando me lembro, ainda sinto pele de galinha. A minha história é incrível, única.”

Se os 25 milhões de habitantes da ilha de Madagáscar têm a agradecer a Ibrahima Dabo pela segurança que dá na baliza, também devem gratidão a Nicolas Dupuis, o treinador francês de 50 anos que comanda a selecção. Com uma curta experiência de jogador e um igualmente curto trajecto enquanto treinador, em ambos os casos nos escalões amadores do futebol francês, Dupuis foi convidado a integrar a equipa técnica de Madagáscar em Março de 2016. E, um ano depois, assumia o cargo de seleccionador, com o desafio de qualificar-se para a CAN 2019.

“Disse aos responsáveis que era necessário parar de aceitar que certos dirigentes do futebol local impusessem jogadores. Na selecção devem ser convocados os melhores”, sublinhou em declarações à France Football, ainda a digerir o triunfo que permitiu fazer a festa. “A nossa qualificação é excepcional. Em quatro jornadas, [num grupo com Senegal, Guiné Equatorial e Sudão] conseguimos três vitórias e um empate. O próximo objectivo é terminar no primeiro lugar”, frisou ao L’Express de Madagáscar.

A selecção malgaxe disputará o penúltimo jogo de qualificação em Novembro, mas só em Março ficará concluída a caminhada. Para Dupuis, o trabalho continua: já viajou para França, onde, à semelhança do que tem feito desde que assumiu o cargo, irá encontrar-se com futebolistas que possam reunir os requisitos para jogar por Madagáscar, para convencê-los a juntarem-se ao grupo. “Pretendo dois ou três elementos que nos tragam maior experiência”, concluiu o técnico.

Segure ou não a liderança do grupo, Madagáscar já fez história. A CAN 2019 aguarda pela equipa malgaxe. E Ibrahima Dabo desfruta de uma segunda vida no futebol.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos