Com o Brasil no coração, Mallu Magalhães “defende o amor”

A cantora fecha digressão de Vem nos coliseus de Lisboa e do Porto. Duas noites de consagração e que abrem um novo ciclo.

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Mallu Magalhães Nuno Ferreira Santos
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Mallu Magalhães rita rodrigues

É de Lisboa, da pachorrenta Lisboa onde cuida da filha Luísa e imagina, sem pressas, as canções do futuro, que Mallu Magalhães observa o seu Brasil em ebulição, violento, antagónico, explosivo, antes das eleições presidenciais de 28 de Outubro. O Brasil “está frágil há muito tempo”, diz a paulistana, que vive na capital portuguesa desde 2013. “A população tem problemas muito graves e muito profundos. É todo esse desespero que leva ao extremo dos dois lados. A população está reagindo a muitas feridas, está todo o mundo meio ferido nalgum aspecto.”

A situação do Brasil levou-a a acompanhar mais a política (“Era uma coisa que eu simplesmente não fazia”), mas ainda não a fez criar música com esse teor. Talvez não seja preciso. “Por acaso, nunca fiz uma música política. Às vezes, paro e penso: poxa, eu acho que a minha música é, pelo menos para mim, onde encontro liberdade, onde defendo a liberdade, a autonomia e a permissividade. Uma música que defende o amor, o ser humano, esses valores que são os mais construtivos, isso, por si só, já é bem político. Você cantar, fotografar ou continuar fazendo um trabalho que prega o amor, de uma maneira subtil, diz muito, talvez mais do que uma música que acha que diz muito sobre política”, afirma ao PÚBLICO num café lisboeta, dias antes de se apresentar nos coliseus de Lisboa, no sábado, e do Porto, a 27 de Outubro. São os dois últimos concertos da digressão em torno do álbum Vem (2017).

Com uma banda luso-brasileira que inclui o marido, Marcelo Camelo, na percussão, “uma grande surpresa” para o público, portugueses como Diogo Ribeiro (Francis Dale, nos teclados), um trompetista e um saxofonista, os dois espectáculos serão, ao mesmo tempo, a consagração de uma artista que criou uma relação especial com Portugal e um fecho de ciclo.

“Quando a gente finaliza uma tournée, nunca sabe quando vai voltar a tocar e isso também traz uma mística muito maior. Estou fazendo estes últimos [concertos], nem sei quando vai ter de novo. Isso é muito bom: finalizar as coisas dá a sensação de trabalho cumprido. [Vou] Comemorar e depois poder parar um pouco para pensar, para descansar, para criar de novo...”

Dentro e fora

Mallu deu que falar cedo. Tinha 15 anos e foi empurrada para a fama pela então poderosa plataforma digital MySpace. Em 2008, já com os olhos do Brasil postos naquela mui jovem promessa, lançou o primeiro álbum, Mallu Magalhães, a que se seguiram outro disco homónimo (2009) e Pitanga (2011). Vem, o quarto disco, mostrou Mallu a procurar no samba rock e na música popular brasileira o corpo que faltava às suas canções, até então ainda muito influenciadas por modelos anglo-saxónicos.

Em Junho de 2017, dizia ao Ípsilon que Vem é “um disco grandioso”, voltado “para fora”, “mais sobre o mundo de todos”, enquanto o antecessor, Pitanga, era sobre o seu mundo privado. A força de Vem revelou-se em pleno nos concertos que se seguiram, em Portugal e no Brasil, com uma banda “muito entrosada”. “É natural”, reflecte Mallu sobre os músicos com quem toca “há ano e meio”. “É como se os elementos, conforme a gente vai tocando, fossem ficando mais à vontade com as mudanças e a dinâmica da canção. E aí a gente consegue aproveitar a vantagem de ter uma banda grande, que é exactamente nesses momentos que precisam de uma presença muito forte, que precisam desse tronco, dessa roupagem, desse exército todo. E a banda tem arma para isso”, garante.

Nos coliseus, haverá também momentos de “voz e violão”, que “remetem bastante para os discos anteriores, uma coisa bem caseira, intimista”, e canções da Banda do Mar, partilhada com Camelo e o português Fred Ferreira. “Sinto que foi muito positivo, gostei de ter feito um show com uma banda grande, uma coisa que nunca tinha feito antes. Senti que tive de aprender a trabalhar com essas dinâmicas e a maneira que encontrei foi essa, fazendo formações variadas: há momentos em que não estão todos no palco, em que estou só eu, não só entre músicas, mas na mesma música. Aproveitar esse recurso de uma banda grande… Agora já sei gerir isso tudo.”

Fechado o ciclo Vem, abrir-se-á outro, ainda sem direcção ou calendários definidos. Entre os muitos concertos e nas horas deixadas vagas pela filha Luísa, Mallu foi armando no computador, com sintetizadores e loops, aquilo a que chama “experiências meio fora da curva”.

“Começaram quando ela era muito pequenininha – o recém-nascido dorme muito e qualquer coisinha acorda, pelo menos ela... Durante muito tempo foi assim: ela fazendo a soneca em casa, domingo à noite, e eu com uma vontade louca de fazer coisas… Fui fazendo no computador”, conta. Assim nasceram “12 ou 15 canções”, das quais “talvez sobrevivam umas duas ou três”. “Ainda tenho muita dificuldade com essa linguagem, ainda não faço ideia de como se fazem as coisas. Então, às vezes, eu me pego lutando contra o equipamento electrónico.”

“O mais interessante dessas experiências todas é que estou meio sem objectivos, estou só experimentando. O Vem foi bem decidido, senti uma vontade muito grande de ir ao encontro do público, de querer cantar para as pessoas e sentir que elas estavam cantando de volta, meio que a entregar uma espécie de presente”, explica. “Estou gostando muito desta falta de intenção desta vez, fazer uma coisa mais... como se eu deixasse o que quer que aconteça acontecer.”

Diz que não sabe quando voltará a gravar – mas será “certamente” em 2019 – ou a dar concertos. “Essa questão da maternidade... tem acontecido muita coisa. Preciso de passar um tempo sem pensar em nada para poder pensar em alguma coisa de novo”, reconhece.

Lições das entrelinhas

Durante o período de Vem, Mallu envolveu-se numa polémica suscitada pelo vídeo da canção Você não presta. Gravado em Portugal, o vídeo mostra Mallu a cantar e dançar com dançarinos maioritariamente negros, de tronco nu. O site cultural brasileiro Vírgula contou “sete estereótipos racistas” alegadamente reforçados por Mallu, da “hipersexualização do corpo negro” ao papel “decorativo” dos bailarinos negros; a Internet brasileira dividiu-se entre quem via os mesmos problemas e quem não os descortinava. Mallu pediu desculpa: só queria “ter um clip com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar”, escreveu no Facebook.

“Foi construtivo, aprendi bastante com essa situação, porque passei a ver coisas que eu não via antes”, diz agora. “São as entrelinhas, as coisas muito subtis que às vezes são usadas com leveza e em que ninguém repara como podem ferir ou ofender alguém. Acho que é muito importante ser dito, é nesse momento que a gente como sociedade consegue crescer.”

É, por isso, com conhecimento de causa que aplaude os movimentos de denúncia de injustiças raciais, de género ou orientação sexual que ganharam força em vários países nos últimos meses. “Lembro-me de coisas que eram muito ditas há cinco anos e que não são mais ditas. Comentários de várias naturezas, ofensivos para a mulher, para o homossexual, para a comunidade negra”, aponta. “O que a gente tem como comum e OK não é OK. Para desconstruir isso, é preciso alguém falar: isso que você está a falar há gerações não é OK, ofende-me”, continua.

Alerta, contudo, para o risco de se cair “numa caça às bruxas, como se o ser humano fosse uma coisa asséptica e totalmente correcta”. E conclui: “É interessante continuar com esse canal aberto dos dois lados. [Fechá-lo] É que não pode acontecer. O caminho do encontro é precisamente o respeito e a tolerância com o próximo, dos dois lados, tanto com quem julga como com quem é julgado.”