Opinião

A transição energética é para todos os sectores

O futuro se encarregará de demonstrar que a diversidade de tecnologias amigas do ambiente é algo de muito positivo.

Quando formou governo, o primeiro-ministro Pedro Sánchez justificou a criação de um novo ministério denominado da Transição Ecológica com a necessidade de se aproximarem o mais possível as competências energéticas com as de defesa do meio ambiente, de modo a se acelerar a descarbonização da economia em toda a Espanha. Em Portugal, António Costa acaba de realizar algo de semelhante com a criação do Ministério do Ambiente e da Transição Energética. Semânticas à parte, os objetivos são os mesmos: desenvolvimento de políticas dirigidas ao meio ambiente, à energia, às indústrias extrativas, à proteção do património natural, da biodiversidade e do mar, visando a proteção dos recursos hídricos, a luta contra as alterações climáticas e o desenvolvimento de modelos produtivos e sociais mais ecológicos.

Segundo os dados da NOAA, a agência dos Estados Unidos para os assuntos oceânicos e atmosféricos (algo que em Portugal é desempenhado pelo IPMA), é impressionante a tendência de crescimento contínuo do valor médio de CO2 presente na atmosfera. Se no início de 2014 o valor médio era cerca de 396 ppm (partes por milhão), atualmente já se situa nos 407 ppm. Ora, este crescimento dos níveis de CO2 presentes na atmosfera é atribuído às emissões produzidas pela utilização dos combustíveis fósseis em múltiplas atividades do nosso dia-a-dia, quer sejam operações produtivas de cariz industrial, quer sejam simples utilizações dos combustíveis fósseis para transporte, lazer ou aplicações domésticas. Os especialistas dizem que desde o início da Revolução Industrial, a qual começou na Inglaterra no século XVIII, a concentração global de CO2 na atmosfera aumentou aproximadamente 40%.

Normalmente a opinião pública concentra a sua atenção sobre a substituição dos combustíveis fósseis por fontes alternativas (fotovoltaica, eólica, hidrogénio, geotérmica, energia das ondas, etc.) nas atividades de produção de eletricidade e nos transportes. Mas a transição energética que se pretende é para todos os sectores.

A nível de investigação, Portugal deve ter uma maior participação nas atividades da EERA (European Energy Research Alliance): uma aliança de instituições de investigação e universidades que neste momento já junta mais de 20 países, e que tem como principal missão ajudar a coordenar esforços para o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono.

Alguns sectores industriais mais tradicionais e que usam combustíveis fósseis para a produção direta de calor (incluindo temperaturas de gamas variadas, desde os 60 graus até outras bastante mais altas) não devem ser descurados. Refiro-me, por exemplo, a estufas aquecidas ou instalações para secagem, mas também a industrias químicas ou metalomecânicas. Existe ainda o nicho das instalações de dessalinização da água do mar para obtenção de água doce, as quais podem usar diretamente o calor solar em vez de outras fontes fósseis.

Como o demonstram estudos de viabilidade conduzidos especialmente nas duas últimas décadas, através da utilização de radiação solar concentrada, o calor solar pode ser usado não só para produção de eletricidade (não por via fotovoltaica, mas sim por via solar térmica), mas também e sobretudo para a sua aplicação direta em operações industriais.

As indústrias metalúrgicas, fundições, oficinas e outras instalações industriais onde se necessitam de altas temperaturas, e que para isso recorrem a combustíveis fósseis, constituem as principais fontes de gases que contribuem para as alterações climáticas. Em países industrializados os processos metalúrgicos são responsáveis por uma parte relativamente significativa (4 a 5%) das emissões de CO2. Os esforços para reduzir as emissões de CO2 e a dependência da eletricidade para se conseguirem altas temperaturas irão a breve prazo dar frutos em vários sectores industriais. Por isso a União Europeia tem vindo a apoiar uma rede de instituições de investigação que se dedicam às tecnologias que utilizam a radiação solar concentrada. A participação de instituições de investigação e de empresas sediadas em Portugal neste tipo de iniciativas deve ser estimulada, pois, para lá das tecnologias das energias renováveis já implantadas no mercado, outras tecnologias se vão aperfeiçoando. O futuro se encarregará de demonstrar que a diversidade de tecnologias amigas do ambiente é algo de muito positivo. E a solução passará sempre pela sua complementaridade e hibridização. Grandes instalações, ou pequenas instalações. Em rede, usando sistemas inteligentes. Como fontes isoladas, em locais inóspitos ou como equipamento de emergência.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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