Três Mulheres, a série em que Natália, Snu e Vera Lagoa devolvem os anos 1960 a Portugal

Três mulheres, do realizador Fernando Vendrell, estreia-se na noite de 26 de Outubro na RTP1. Maria João Bastos, Soraia Chaves e Victoria Guerra são as actrizes que interpretam as três mulheres que marcaram uma época em Portugal.

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Victoria Guerra dr
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Maria João Bastos dr
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Soraia Chaves,Soraia Chaves Rui Gaudêncio ,Rui Gaudêncio
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Soraia Chaves Rui Gaudêncio
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Fernando Vendrell a dar indicações aos actores Rui Gaudêncio

Na próxima sexta-feira, pelas 22h30, Três Mulheres que marcaram o século XX português regressam à televisão. Têm novo fôlego, o da ficção sobre histórias reais, e três actrizes a dar corpo a Natália Correia, Snu Abecassis e Maria Armanda Falcão, ou Vera Lagoa – Fernando Vendrell dirige Soraia Chaves, Victoria Guerra e Maria João Bastos. “Foi um pouco antes do MeToo que tivemos esta ideia”, diz o realizador, mas foi durante esse momento e em parte com essa consciência que agora também será recebida.

Ainda sem se ter estreado, estão já nomeados para a 32.ª edição dos Prix Europa na categoria de Melhor Série de Ficção, cujos resultados são conhecidos esta sexta-feira. “É um projecto muito especial, retrata uma fase da vida de três mulheres muito importantes e que marcaram muito a sociedade portuguesa na sua época”, resumia Maria João Bastos sobre o período em que a série histórica se foca – 1961-1971. “Quem viveu essa época poderá reviver essa história, e quem não viveu poderá conhecer a realidade destas três mulheres e o que elas fizeram”, dizia a actriz durante as filmagens, em Novembro de 2017. Duas escritoras e uma editora, três mulheres com inúmeras identidades no trabalho, no amor, na política.

“A Vera Lagoa e a Natália Correia eram das mulheres mais bonitas de Lisboa. Nos anos 1950, uma descida delas do Chiado fazia parar os transeuntes, os homens ficavam boquiabertos, eram muito marcantes. Eram amigas e diferentes. A Snu também era um bocadinho diferente, porque era uma nórdica que veio para Portugal. A ideia base da série é que elas fazem dez anos de diferença umas das outras e a série dura dez anos da vida delas”, explica Fernando Vendrell sobre um projecto que nasceu com Elsa Garcia e cuja ideia original foi transformada, numa proposta à RTP logo aceite pela anterior direcção de programas, de Daniel Deusdado, numa série de época dramática de 13 episódios.

José Fragoso, director de programas há cerca de cinco meses, descreveu-se na apresentação da série, na quarta-feira em Lisboa, como “feliz” por ter chegado ao cargo com “esta série feita” e que dará “um contributo para que alguns temas sejam discutidos” em muitas casas. Tudo começa dias depois de Louis Armstrong ter tocado no Monumental e entre os lápis vermelhos e pretos da censura e os novos recrutas da PIDE. Contar como foi esta última década do Estado Novo, no fundo, pelo prisma de três mulheres que são, para Vendrell, ícones. 

Protagonistas habituais da ficção televisiva nas novelas, as actrizes e as mulheres são tema de uma nova série numa altura em que o género é olhado por um novo prisma. “Quando fiz [a série Os Dias do] Regicídio, tinha muito poucos personagens femininos”, constata o realizador, que desde então quis trabalhar mais essas figuras. “Na Noite Sangrenta, que não realizei mas concebi, já me interessou mais a Berta da Maia e um personagem feminino forte”, exemplifica. Três Mulheres tornou-se particularmente repleto de nuances no último ano, diz, aludindo ao movimento #MeToo, “porque a paridade e a igualdade de género em Portugal não está garantida”.

Fala da “posição até beatífica da mulher portuguesa, que pensa ou sabe que controla, de aceitar e relegar-se do plano político”. “Achei que era muito interessante mostrar que somos muito políticos até na nossa vida, no nosso quotidiano e que uma atitude de mulheres que não eram militantes, que eram até se calhar um bocado individualistas, já transformava a sociedade dessa época. Isso foi um leitmotiv muito forte para mim, e foi uma espécie de suporte, de mission statement da série”, explica ao PÚBLICO. Na apresentação à imprensa, Vendrell lembrou como a série se candidatou aos apoios à produção do Instituto do Cinema e do Audiovisual e não foi aprovada, mas que a RTP manteve a sua aposta numa série que representava também um desafio financeiro.

Admite que houve resistências ao criar e investigar para a série – confrontou-se com quem pensava que “era muito cedo para tratar” estas vidas, “as famílias questionavam”. E reconhece que “é um trabalho muito delicado. Há pessoas que estão vivas e que figuram na série”. Mas considera esse temor “uma falácia bloqueadora”. “Podemos trabalhar sobre matérias recentes — o Stephen Frears fez A Rainha, porque é que nós não podemos?”

Sente-se “um privilegiado de ter podido trabalhar com estas três actrizes e de elas terem dado o máximo à série e às personagens”. Como se construíram então Natália, Snu e Vera sobre os ombros dos seus ícones reais?

Maria João Bastos é Maria Armanda Falcão/Vera Lagoa

Foi durante as gravações da série, com parte de um edifício do Hub Criativo do Beato a fazer de apartamento dos anos 1960, que Maria João Bastos reconheceu aquilo que é transversal às três actrizes que darão corpo às Três Mulheres – o peso de uma grande responsabilidade. A actriz interpreta Maria Armanda Falcão, a portuguesa cuja transformação e assunção do famoso pseudónimo jornalístico Vera Lagoa se revela na série dirigida por Fernando Vendrell.  É  a primeira vez que dá corpo a “uma personagem tão forte, biográfica e que seja tão conhecida”, contava em Novembro. A pesquisa levou-a a vários sítios, mas, tal como no caso de Soraia Chaves a ser Natália Correia, não à caricatura. “Ninguém está aqui a imitar ninguém”, garantia, ciente da exuberância física e de personalidade de Maria Armanda Falcão.

Tinha acabado uma cena na sala de Natália Correia, sua amiga, e confessava: “Exactamente porque era uma pessoa com muitos maneirismos, muito específica, tivemos de aligeirar bastante a forma verdadeira como a Vera Lagoa era e se comportava — uma opção de direcção.” Minimizando muito alguns maneirismos, porque numa “forma de filmar que é cinema”, como a de Fernando Vendrell, “não se pode exagerar muito, são planos muito apertados e fica muito estereotipado”. Em suma, “o trabalho é feito ao contrário — primeiro coloca-se e depois tira-se.” Soraia Chaves impressionava-se com Maria João Bastos ao filmar e depois do “corta!”: “Quando entra em plateau está sempre em personagem, ao almoço também me falava sempre como a Maria Armanda.” 

Maria Armanda Falcão e Natália Correia foram secretárias de Humberto Delgado. “Toda a gente conhece o seu trajecto a partir do 25 de Abril, mas é uma figura que se calhar é mais a sua persona, Vera Lagoa, do que propriamente a Maria Armanda Falcão”, diz Fernando Vendrell na apresentação da série, quase um ano depois. “Logo de início na pesquisa encontrámos uma brochura em que se dizia que ela ajudava famílias de resistentes antifascistas fazendo campanhas para conseguir meios para a sua sobrevivência.” “Há contradição” com a figura ligada à direita e co-fundadora do semanário O Diabo. Apaixonada por José Manuel Tengarrinha, redactor principal do Diário Ilustrado e irmão de Margarida Tengarrinha, que vivia na clandestinidade, o seu percurso no primeiro episódio é o de uma mulher apaixonada pela liberdade e por um resistente.

Maria João Bastos, actualmente a gravar no Brasil, garantia esta semana que este foi “um dos projectos mais importantes” da sua carreira. Há um ano, estava com Maria Armanda, e Vera Lagoa, todos os dias. “Ensaio com ela, com a própria da Vera Lagoa, que vejo todos os dias durante uma hora e meia, e depois reproduzo o meu texto da forma como ela falava”, revelava aos jornalistas no Beato. Uma entrevista ao programa Quarta-Feira, de Carlos Cruz, era o começo das suas manhãs. “As palavras, os gestos das mãos, os risos dela saem-me naturalmente, porque não estou a tentar reproduzir, interiorizei de ver tantas vezes. Por isso é que digo que trabalho com ela, ela tem-me ajudado imenso.”

Soraia Chaves é Natália Correia

Natália Correia escritora, Natália Correia deputada, Natália Correia tertuliana, Natália Correia mulher, Natália Correia açoriana. E, agora, Natália Correia por Soraia Chaves. Um papel que esteve para não ser. “Da primeira vez que falei com a Soraia, ela leu atentamente e recusou”, diz ao PÚBLICO Fernando Vendrell. “Disse que não tinha tempo para preparar, que era uma missão muito difícil. Mas a série foi adiada um bocadinho e voltei a insistir. Às vezes deve-se insistir.” Para o realizador e co-autor, com Elsa Garcia, da ideia da série, Soraia e Natália eram, de resto, escolhas evidentes. “Muito cedo, na parte de concepção, de escrita com os argumentistas, já tinha pensado na Soraia para fazer a Natália. Muito por causa da semelhança física, até será absurdo se disserem que a Soraia não é parecida com a Natália”, comenta, depois de garantir que “o casting não é uma coisa literal, não é só pela fisionomia, é pela força inerente e pelos atributos das actrizes e sua capacidade técnica e artística”. Talvez das Três Mulheres a mais reconhecida e reconhecível pelos portugueses pela sua forte presença na vida pública até à sua morte, em 1993 aos 69 anos, Natália Correia era também, como Vera Lagoa, uma força da natureza. O seu corpo, da beleza aos gestos, acompanhava a força do seu pensamento. Perante esta figura potente, a actriz teve “muito medo”. “Uma mulher fortíssima”, continuaria Soraia Chaves na apresentação da série esta semana em Lisboa, numa série que “mais do que sobre a Natália, é sobre uma época”.

A actriz, conhecida por ser uma espécie de sex symbol da década passada no cinema, empunha a boquilha e ergue o pescoço tão reconhecíveis de Natália Correia a cada cena. Ainda assim, “escolhi uma das Natálias – a mais íntima, muito sonhadora”. Aos jornalistas confessava ter-se surpreendido sobretudo com “a leveza, sobretudo na juventude”, da poeta que apresentou Snu Abecassis a Francisco Sá Carneiro e que é vista no primeiro episódio tanto em tribunal, em 1967, pela linguagem dita “obscena” da sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica quanto em 1961 em sua casa a ser fotografada para um artigo de Luís Sttau Monteiro e a dar uns escudos ao divertido mas estouvado escritor Luiz Pacheco. Açoriana, veio aos 11 anos para Lisboa e foi uma das figuras da busca da liberdade no Estado Novo. Depois da revolução, considera Soraia Chaves, “criou-se um certo peso nela, algo desiludida com o país”. Para construir a personagem tinha talvez mais material do que as duas co-protagonistas, mas teve de trabalhar a fisicalidade. “Detectou-se em mim uns movimentos muito redondos, e ela é recta”, exemplificou. “Na sua aura, luz, energia – foi nisso que me foquei.”

Victoria Guerra é Snu Abecassis

Há variações da frase que Natália Correia disse sobre Snu Abecassis, aliás, Ebba Merete Seidenfaden, a Francisco Sá Carneiro, mas esta é a que Fernando Dacosta transcreve no seu livro O Botequim da Liberdade: “Ela é uma princesa que jaz adormecida num esquife de gelo à espera do príncipe que a desperte com um beijo de fogo.” À “princesa”, noutras versões, acrescenta-se ser “nórdica”.

Snu Abecassis entra na vida portuguesa bem antes de conhecer Francisco Sá Carneiro, líder social-democrata com quem acabaria por morrer em Camarate em 1980, pela mão do marido, Vasco Abecassis. É nas suas primeiras vindas a Portugal que começa a história de Três Mulheres, mesmo a tempo de ver partir o filho de uma das empregadas dos Abecassis para combater em Angola e de questionar as versões censuradas da imprensa portuguesa sobre o conflito nas então colónias.

O facto de ser estrangeira e ter uma postura diferente da da maioria das portuguesas burguesas dos anos 1960 marcava a sua diferença. “As pessoas diziam que ela era muito fria, havia esta imagem dela”, diz Victoria Guerra ao PÚBLICO na apresentação da série. Mas o que se pensava ser distância podia simplesmente o ser alguém que “não se preocupava tanto com a fofoca”. “Nos jantares ela não queria estar na mesa das mulheres, queria falar de política, era uma mulher do seu tempo e foi interessante ver como as mulheres da época olhavam para ela e aquela forma de estar diferente.” Victoria Guerra, de 29 anos, nasceu nove anos depois da morte da dinamarquesa, que na editora Dom Quixote não só cumpriu um papel de resistência cultural, mas também política. Nunca ouviu a voz de Snu Abecassis, ao preparar-se para este papel, mas ouviu-a através de muitas fontes para “construir a Snu que esta série pede”.

“A Snu era efectivamente uma pessoa muito reservada. Encontrei muito mais coisas sobre ela depois de se divorciar do Vasco, mas há um livro muito interessante, [Snu], da mãe, Jytte Bonnier, que é a visão da mãe sobre uma filha, e o livro [Snu e a Vida Privada com Sá Carneiro] da Cândida Pinto, e muitas reportagens da RTP”, enumera a actriz. E falou com um casal amigo que com ela privava nos jantares que dava em sua casa, outros amigos de Vasco Abecassis, mas valoriza sobretudo as conversas com Virgínia Caldeira, sua secretária e assistente na Dom Quixote e que lhe deu a visão da Snu no trabalho, enquanto editora, patroa, enquanto mulher, amiga dos seus funcionários”.

“[Depois foi] juntar todos estes olhares, pegar no texto — uma ficção, algo real mas ficcionado — e com estes olhares todos criar um, tentar imaginar como ela poderia ser e com o meu corpo e a minha voz tentar, com o maior respeito, fazer o melhor possível.” Victoria Guerra está também ciente da responsabilidade de representar Snu Abecassis, uma figura fascinante das décadas de 1960 e 1970 em Portugal que tanta atenção concitou, que além dos vários livros sobre si ou a sua paixão com Sá Carneiro será também tema de filme homónimo a estrear-se na próxima Primavera (e com Inês Castel-Branco como protagonista). “É como a Soraia disse, primeiro é ‘não’”, ri-se sobre o medo inicial e a vontade que teve de recusar um papel que será inevitavelmente escrutinado.