Iémen, a chacina que não indigna governos nem opiniões públicas

“Os civis não estão a morrer à fome no Iémen, estão a ser mortos à fome”, diz o secretário-geral do Conselho Norueguês para os Refugiados. A ONU avisa que se a guerra continuar até 13 milhões de civis podem morrer à fome.

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Em Março terão passado quatro anos desde que uma coligação liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos começou a bombardear o Iémen a pretexto de defender um Governo reconhecido internacionalmente mas quase sem território, atacado pelos huthis, supostas “marionetas do Irão”. Em 2016, essa intervenção já tornada o Iémen cenário de um dos piores desastres humanitários da actualidade. Agora, o país está à beira “da pior fome no mundo em 100 anos”, avisa a ONU.

Ninguém sabe quantos são os mortos – mais de 10 mil é um número repetido há quase dois anos – mas a Save the Children estima que só este ano podem morrer de malnutrição 50 mil crianças, numa média de 130 por dia. “As crianças têm metade do tamanho do que deviam ter para a idade: um miúdo de sete anos pode parecer ter quatro. As caixas torácicas estão à vista”, descreveu ao jornal Independent Sylvia Ghaly, da ONG, a partir de Sanaa, a capital.

“Os civis não estão a morrer à fome no Iémen, estão a ser mortos à fome”, afirmou esta semana Jan Egeland, secretário-geral do Conselho de Refugiados Norueguês. “Que fique registado que que a maior fome a que assistimos hoje é completamente provocada pelo homem, pelas partes em conflito e pelos seus patrocinadores internacionais.”

Se o conflito continuar, o Iémen pode enfrentar “a maior fome do mundo em 100 anos”, diz a ONU. Segundo a coordenadora das Nações Unidas para o país, Lisa Grande, até 13 milhões de civis podem morrer à fome se as forças lideradas por Riad não puserem fim aos bombardeamentos. Entretanto, mais de 1,1 milhões estão infectados com cólera.

“Se a situação persistir, podemos ter mais 3,5 milhões de iemenitas em grave insegurança alimentar, a necessitar de assistência regular para não deslizarem para condições de fome”, afirmou o porta-voz do Programa Alimentar Mundial, Herve Verhoosel. Estes 3,5 milhões juntar-se-iam aos 8,5 milhões que já estão em risco, num país de menos de 30 milhões.

Relatórios da ONU apontam para responsabilidades partilhadas, culpando tanto os xiitas huthis como Riad e Abu Dhabi, mas não só os ataques aéreos das forças árabes têm causado um grande número de mortos entre a população como são estas que mantêm encerrados os principais portos de entrada de ajuda (oficialmente, para evitar o desembarque de armas iranianas), isto num país que já era o mais pobre da Península Arábica e importava 90% dos produtos alimentares.

Nesta guerra, os sauditas contam com os mísseis e as bombas que compram aos Estados Unidos (e não só) mas também com a assistência dos serviços secretos americanos na escolha dos alvos e das forças do país na região para reabastecerem aviões em voo. O Reino Unido também contribui com armas e informações dos seus serviços secretos.

Em nome da chacina iemenita, países como a Alemanha ou Espanha anunciaram recentemente que iam anular contratos de vendas de armas a Riad, mas acabaram por recuar para não perderem outros valiosos negócios de defesa – no caso espanhol, a venda de cinco navios de guerra por 1,8 mil milhões de euros.

“Como é que a morte de um jornalista provoca as reacções que milhares de mortes iemenitas não provocaram”, escreve Max Fisher na sua coluna The Interpreter, no jornal The New York Times. Não é uma pergunta: o jornalista e colunista dedica todo o texto a explicar por que é que a morte de Jamal Khashoggi, que desapareceu no consulado saudita de Istambul no início do mês, desencadeou uma vaga de críticas e de vozes a questionar a impunidade de Riad (ao contrário do Iémen). Em Washington, por exemplo, muitos vêem Khashoggi “como um de nós”, escreve, um democrata, que estudou nos EUA, que escreve no Washington Post.

Perfis e estatísticas

O principal motivo para a tragédia iemenita não provocar a indignação que o caso de Khashoggi levantou junto de governos e das opiniões públicas ocidentais, escreve Fisher, passa por nos ser mais fácil digerir uma só morte do que milhares. E pelo efeito de identificação que o perfil de uma pessoa provoca, por oposição a números de mortos num país distante, onde quase não sobram jornalistas para contar as histórias por trás das estatísticas.

Entretanto, os sauditas, liderados pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, ministro da Defesa e Política Externa e responsável pela decisão de iniciar esta guerra, não dão mostras de qualquer recuo. A impetuosidade do príncipe vem acompanhada de teimosia – a tribo huthi, de confissão xita, mantém grande parte do território que controlava em 2015, mas os comandantes militares árabes insistem em anunciar vitórias significativas com regularidade.

Fisher espera que a pressão provocada pelo caso de Khashoggi – que muito criticou esta guerra nos seus textos – funcione como a gota de água que levará o mundo a reparar nos outros abusos sauditas. Caso contrário, os iemenitas vão continuar a morrer.

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