Brexit. Chegou a vez de os empresários europeus entrarem em modo de pânico

Na semana passada, o director da associação industrial alemã BDI avisou que um não-acordo causaria problemas enormes a centenas de milhares de empresas europeias e poria em risco centenas de milhares de empregos no Reino Unido e na União.

1. Uma saída sem acordo deixou de ser um cenário utilizado como arma de pressão pelos dois lados da negociação do “Brexit”, para passar a ser um cenário que começa a ser plausível. Se era precisa mais uma prova, ela aí está. Subitamente, as associações patronais do Reino Unido, dos 27 parceiros e as associações europeias de empregadores de vários sectores vieram a público lançar o alarme sobre a possibilidade de uma saída desordenada. No Reino Unido, a argumentação “soberanista” dos conservadores radicais havia de chocar algum dia com a realidade, num mundo em que a interdependência é a regra, que a globalização económica apenas veio acentuar. No quadro do Mercado Único, a integração das economias europeias atingiu níveis ainda muito mais elevados. Há questões óbvias, como os fluxos comerciais. Quase metade das exportações britânicas tem como destino os seus parceiros europeus, dos quais importa 52% das suas necessidades. Como escrevia recentemente o Financial Times, comentando uma proposta japonesa para o Reino Unido se juntar à Parceria Transpacífica de Comércio, entusiasticamente saudada pelos apoiantes de um “Brexit” puro e duro, nem todos somados — Japão, EUA, Índia e outros países da Commonwealth — conseguem substituir o mercado europeu em condições vantajosas.

2. O choque de curto prazo é outra coisa, para a qual os britânicos têm estado menos atentos. Os defensores do “Remain” anunciaram durante a campanha do referendo uma catástrofe se votassem na saída. Os restaurantes estão cheios, o desemprego mantém-se em níveis muito baixos e a queda acentuada do investimento estrangeiro ainda não tem impacto nas suas vidas. Sem acordo, o impacto da saída seria imediato e brutal para uma larga fatia da economia, com muitas empresas a fechar as portas e outras a reduzir a sua actividade. Um inquérito recente a 1300 empresas britânicas particularmente dependentes das cadeias de abastecimento que diariamente atravessam a Mancha concluiu que um aumento de 30 minutos de espera na fronteira implicaria o encerramento de uma em cada dez das inquiridas. Não é por acaso que o Governo já iniciou obras na auto-estrada M26 de Kent, para que possa servir de parque de estacionamento aos camiões TIR que atravessam a Mancha. Com acordo, haverá tempo para uma transição que vá diluindo no tempo os efeitos de choque. Sem acordo, as únicas regras comerciais entre os dois espaços serão as da OMC. Ninguém contava com este cenário.

3. O problema não é só britânico. Entre os países mais expostos a um corte abrupto dos fluxos comerciais estão a Holanda, Bélgica e Irlanda, altamente dependentes das exportações para o Reino Unido. Em ternos de volume de negócios, a Alemanha e a França lideram. Empresas alemãs a operar no outro lado da Mancha empregam 400 mil pessoas. Dezasseis por cento do total das exportações dos 27 parceiros europeus vão para as ilhas britânicas. Na semana passada, o director da associação industrial alemã BDI avisou que um não-acordo causaria problemas enormes a centenas de milhares de empresas europeias e poria em risco centenas de milhares de empregos no Reino Unido e na União. A indústria automóvel já tinha feito o mesmo aviso. Os sectores mais afectados no que respeita às cadeias de abastecimento são, segundo a mesma associação, o automóvel, o aeroespacial e a indústria química. Nesta quarta-feira, a Ceemet, associação empresarial europeia dos sectores da metalomecânica, engenharia e indústrias tecnológicas, apontava os três grandes riscos que teriam um efeito desastroso: a quebra “nas cadeias de abastecimento integradas, na capacidade de recrutar na Europa e na garantia de níveis de regulação idênticos”. O sector representa 200 mil empresas que geram 35 milhões de empregos directos e indirectos.

4. O caso da City é menos controverso. A praça financeira de Londres disputa a Hong Kong o título de maior do mundo, com uma abrangência que vai muito além dos mercados europeus. Mas também nesta quarta-feira a instituição que gere a City deu conta da sua preocupação com a eventualidade de um “‘Brexit’ sem acordo”. “O Reino Unido é líder mundial na exportação de serviços financeiros e temos um conjunto de pontos fortes que atraem os investidores”, disse à Reuters Catherine McGuinness. Não deixou de acrescentar que “é vital que o Reino Unido garanta um acordo positivo para o ‘Brexit’, que mantenha a confiança e clarifique as regras do sector”. Mesmo assim, em 2017, 55% do IDE (investimento directo estrangeiro) em novos serviços financeiros foram para a City, em comparação com 26% para Dublin e Paris, 24% para Frankfurt e 20% para Nova Iorque. Os maiores investimentos vieram dos EUA, Alemanha, Suécia e China.

5. A dramatização vai continuar. É, porventura, a única arma que resta a Theresa May para conseguir aprovar um acordo satisfatório no Parlamento britânico. É do seu interesse manter a tensão até o mais tarde possível, confrontando os deputados, sejam eles conservadores radicais ou trabalhistas hesitantes, com a iminência do facto consumado. Citando Paul Taylor no site do Politico.eu, ou a deixam aterrar o avião em segurança ou ameaça despenhá-lo contra o solo. “A melhor aposta de May é tornear as manobras dilatórias dos seus opositores e avançar tarde, depressa e sem contemplações.” A única condição é que seja ela a controlar os comandos do avião. Do lado europeu, são vários os cenários em cima da mesa. Um deles passa por adiar a data da saída ou aumentar o período de transição. Mas, basicamente, já não lhes parece restar muito mais do que esperar que a primeira-ministra britânica lhes traga a garantia, o mais tardar na cimeira de Dezembro, de que já tem uma maioria favorável em Westminster.