Lâminas de gelo na lua Europa dificultarão a aterragem de veículos espaciais

Satélite natural de Júpiter terá formações de gelo pontiagudas de 15 metros de altura nas regiões equatoriais, o que poderá complicar a aterragem nestas zonas da lua.

A lua Europa
Foto
A lua Europa NASA/JPL-Caltech/Instituto SETI/Reuters

A orbitar o planeta Júpiter, a lua Europa tem um oceano interior de água líquida. Isto torna-a uma candidata muito promissora na procura de vida fora da Terra. Contudo, num estudo publicado na revista Nature Geoscience, um grupo internacional de cientistas refere que nas regiões equatoriais de Europa há formações de gelo com cerca de 15 metros de altura que podem dificultar a aterragem de veículos espaciais nestas zonas.

“Antes deste trabalho, supúnhamos que a superfície de Europa era gelada, mas que era relativamente uniforme”, diz ao PÚBLICO Daniel Hobley, geomorfologista da Universidade de Cardiff (Reino Unido) e um dos autores do trabalho. “Não tínhamos boas imagens da superfície, por isso estas suposições baseavam-se no que sabíamos sobre outros planetas e sobre as texturas mais comuns das superfícies de gelo na Terra.”

Para saber mais sobre a superfície de Europa, a equipa de Daniel Hobley calculou as taxas de sublimação da água gelada ao longo da superfície da lua Europa e comparou-as a outros processos erosivos – como a colisão de objectos astronómicos e o bombardeamento de partículas. Percebeu-se assim que, nas regiões equatoriais de Europa, a sublimação (quando o gelo passa instantaneamente para o estado gasoso) deve ser o principal processo erosivo e esse processo origina formações de gelo e neve chamadas “penitentes”.

Observados cientificamente pela primeira vez por Charles Darwin, estes pináculos são autênticas lâminas de gelo ou neve dura que se formam em grupo. Podem ter apenas centímetros ou vários metros de altura. No site do Observatório Europeu do Sul (ESO) descrevem estas formações como “florestas de gelo no meio do deserto”. Afinal, um sítio onde podem ser encontradas é no deserto de Atacama, no Chile, onde também há telescópios, ou na cordilheira dos Andes.

PÚBLICO -
Foto
As lâminas de gelo no deserto de Atacama ESO/B. Tafreshi

A equipa de Daniel Hobley começou por estudar as condições em que estes pináculos se formam na Terra. Depois, usou essa informação para saber se se desenvolveriam em Europa e onde. Como se formam então? Tudo começa quando a luz do Sol incide na superfície de gelo ou de neve. Devido às condições (no deserto na Terra e na lua Europa), o processo de sublimação começa imediatamente: o gelo passa do estado sólido para o estado gasoso sem se derreter.

Segundo Daniel Hobley, na Europa, os pináculos começam a formar-se se o Sol iluminar o gelo ou a neve todos os dias a meio do dia. “Começarão a ficar mais profundos, uma vez que o solo dessa depressão fica mais quente do que as paredes laterais”, refere o geomorfologista. “Isto significa que as lâminas de gelo são separadas por longos fossos lineares, tal como as penitentes que vimos na Terra.”

Um dia aterraremos lá

A equipa usou equações de física para prever quão rápido estes pináculos crescerão em Europa e quão grandes poderão ser. Verificou-se que podem alcançar 15 metros de altura e estarão separados por sete metros de distância nas regiões equatoriais.

É a primeira vez que se sugere que Europa tem estas lâminas de gelo. Por isso, os cientistas tentaram observar estas estruturas em fotografias da superfície desta lua, mas foi em vão. “Encontrámos informação em imagens de radar de Europa e em mapas de temperatura da sua superfície, que não provam que realmente lá estão, mas sugerem fortemente que existem”, indica o geomorfologista. Antes, cientistas já tinham sugerido que estas estruturas existem em Plutão.

Mas o que significa tudo isto? Significa que estas formações de gelo tornam o terreno de Europa irregular nas regiões equatoriais. “Concluímos que uma textura pontiaguda tal como aquela que descrevemos poderá tornar difícil aterrar na superfície de Europa perto do seu equador”, considera Daniel Hobley.

Contudo, o investigador salienta que isto não quer dizer que será impossível aterrar nesta lua. “Certamente, ainda aterraremos algum dia em Europa, mas esta investigação sugere que os engenheiros precisarão de ter cuidado para aterrar longe o suficiente do equador ou conceber veículos espaciais aterrem entre as grandes lâminas de gelo.”

Nos próximos tempos, estão planeadas duas missões espaciais para estudar Europa. Mas nenhuma delas vai tentar aterrar lá. A NASA planeia lançar a sonda Europa Clipper por volta de 2022. Já a Agência Espacial Europeia (ESA) também pretende lançar em 2022 a sonda Jupiter Icy Moons Explorer (Juice). As duas deverão chegar ao seu destino no final da década de 2020 ou no início de 2030. Talvez a partir daí ficaremos a saber mais sobre o oceano líquido interior, que tudo aponta que seja salgado, e lâminas de gelo desta lua.