Câmara de Loulé pretende municipalizar as ruínas romanas de Vilamoura

Zona está na posse de um fundo. Na zona envolvente ao museu vai surgir uma “cidade lacustre”, dando continuidade ao projecto de expansão urbanística de Vilamoura – 637 fogos mais 480 camas turísticas.

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Virgilio Rodrigues

As ruínas romanas do Cerro da Vila, em Vilamoura, vão passar do domínio privado para a esfera pública. A Câmara Municipal de Loulé anunciou que está “em negociações” com a Vilamoura World para municipalizar este espaço cultural. O fundo financeiro Lone Star, o mesmo que adquiriu o Novo Banco, é actualmente o proprietário de empreendimento turístico de Vilamoura, onde se integra este sítio arqueológico rodeado de hotéis e apartamentos.

O processo de transferência do museu, inaugurado em 1988, iniciou-se há cerca de um ano, quando se realizou a exposição “Loulé: Territórios, Memórias e Identidades”, patente no Museu dos Jerónimos, em Lisboa. A mostra já contabiliza mais de 230 mil visitantes, e passou a ser apresentada como o exemplo da cooperação entre administração central e local no campo da arqueologia. “Estamos profundamente empenhados em prosseguir com os trabalhos de aprofundamento da identidade cultural da região e do concelho”, disse o presidente da câmara, Vítor Aleixo, justificando assim o interesse pelo sítio arqueológico. Por seu turno, os promotores imobiliários apresentaram uma proposta par retomar o projecto da “cidade lacustre” — prevista desde 1977 no Plano de Urbanização (PU) —, com o objectivo de alargar a área de construção.

A marina, onde chegam iates vindos de todos os continentes, é o bilhete-postal de Vilamoura. Mesmo ao lado, apenas seis metros acima da antiga laguna de Quarteira, fica o museu do Cerro da Vila. André Jordan — presidente do Conselho de Administração da Lusotur (proprietária de Vilamoura) há duas décadas — foi quem abriu o museu, concebido como uma peça do programa que pretendia fazer da região um destino, não apenas para gozar o sol e a praia, mas também cultural. A criação do Festival Internacional de Música do Algarve foi outra das marcas do empresário que, antes de Vilamoura, construiu a Quinta do Lago.

Mudaram os tempos, alterou-se o modelo de negócio. O fundo de investimentos Lone Star, através da Vilamoura World, focou-se no programa de expansão urbanística. Nesse sentido, está a tentar recuperar o projecto da “cidade lacustre” que já fazia parte do Plano de Urbanização de 1997, com André Jordan à frente do empreendimento. Para desenvolver o projecto, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) emitiu Declaração de Impacto Ambiental (DIA) favorável, em 2008, impondo que os três lagos, a criar, sejam alimentados por água salgada, bombada a partir da marina. À volta dos espelhos de água estão aprovadas licenças para 64 mil metros quadrados de novas áreas de construção — 637 fogos, mais 480 camas turísticas.

As ruínas do Cerro da Vila são o símbolo que resta do antigo povoado romano. O museu que mostra a antiga comunidade portuária que ali existiu está classificado de “monumento de interesse público” desde 1977. O acervo dos achados permitiu aos arqueólogos concluir que ali existiu um povoado que teria sobrevivido ao declínio do Império Romano.

O presidente da câmara, em declarações ao PÚBLICO, adiantou que o município está a trabalhar num programa para posicionar o concelho “na rota dos grandes destinos turísticos com cultura”. Às ruínas romanas do Cerro da Vila, no litoral, sublinha, acresce os banhos islâmicos, já escavados, na zona história de Loulé e as estelas com a escrita do Sudoeste, datadas de há mais de 2500 anos, encontradas no interior, na freguesia do Ameixial. O autarca diz pretender dar “um contributo” para a candidatura de Faro Capital Europeia da Cultura, em 2027. O projecto, que será apresentado oficialmente daqui por dois anos, não se fica pela capital do distrito — estende-se a outros locais da região. Guilherme d’Oliveira Martins preside à comissão de honra e tem feito várias conferências a chamar a atenção para a necessidade de preservar o que resta do património de uma região que apagou muitos dos traços e raizes da sua história.