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Revolução na NBA: quem manda agora são os jogadores

Nova época arranca na madrugada desta quarta-feira depois do cruzamento improvável durante o Verão de duas estrelas entre conferências: LeBron James nos Lakers, do Oeste, Kawhi Leonard nos Raptors, do Este.

Os San Antonio Spurs são pacificamente citados como o modelo de gestão da Liga Norte-americana de Basquetebol profissional (NBA), depois de um domínio de 20 anos (sempre nos play-off), cinco títulos, uma lenda viva (Tim Duncan) e talvez o melhor treinador de sempre (Gregg Popovich). Numa época, a última, tudo mudou. O jogador escolhido e formado para perpetuar a cultura de vitória dos texanos entrou em choque com o clube por razões ainda por esclarecer – lesões, contratos, patrocínios? – e do amuo à ruptura foi um ápice.

Agora, uma troca depois, os Toronto Raptors ficaram com o melhor jogador do Este (se estiver completamente recuperado física e mentalmente) e os Spurs descaíram para a mediania do Oeste, com um substituto forçado (DeMar DeRozan) que dificilmente conseguirá repetir os dias gloriosos de Duncan e companhia, apesar da mestria de Popovich.

Na madrugada desta quarta-feira, arranca mais uma temporada da NBA, com um Boston-Philadelphia 76ers. Mas os eixos de poder abanaram numa só temporada. No exacto momento em que um jogador, por razões exclusivamente individuais, decide que quer jogar noutra equipa, com os amigos, com mais adeptos, com mais sol, com mais história ou com mais dinheiro. E os projectos que antes duravam ciclos, tantos quantos os mandatos dos directores gerais dos clubes, agora mudam em seis meses.

O precursor deste fortalecimento da vontade individual dos jogadores, desta revolução na NBA, foi ele próprio protagonista, este Verão, de um abanão no poder da liga, com a mudança dos seus Cleveland Cavaliers para os hegemónicos Los Angeles Lakers.

Em 2010, LeBron rasgou um contrato social vigente na NBA. Nenhum jogador de topo se juntava aos rivais para formar uma equipa melhor. E, sobretudo, nenhum jogador o fazia ao arrepio do interesse da Liga, das paixões dos adeptos e da estrutura de poder construída pelos donos das equipas e pelos patrocinadores. A imagem de LeBron ficou manchada, emotiva e comercialmente, mas o drama impulsionou a NBA para um nível de interesse e militância sem paralelo. O sucesso desportivo que se seguiu e, acima de tudo, a sensação de liberdade que transmitiu aos seus pares, iniciou a revolução que nos últimos cinco a seis anos já fez várias estrelas quererem seguir os seus instintos. Ou simplesmente exercerem a sua liberdade individual, em muitos casos até contra a sua responsabilidade contratual ou colectiva. O advento das redes sociais – e o desaparecimento da mediação profissional entre jogadores e adeptos – legitimou a sensação de liberdade dos jogadores, em plena evolução da sociedade, onde tudo é possível de escolher sem compromisso, desde comida, transporte, roupa, entretenimento nocturno, companhia social, ou equipa e cidade onde jogar basquetebol.

Desde então, de forma mais ou menos forçada, mudaram de equipa – com impacto profundo na hierarquia da liga – James Harden para os Houston Rockets, LeBron James de regresso aos Cavaliers, Kevin Durant para os Golden State Warriors e, só no último ano e pouco, Carmelo Anthony nos Oklahoma Thunder, Chris Paul nos Rockets, Gordon Hayward nos Boston Celtics, Jimmy Butler dos Chicago Bulls para os Minnesota Timberwolves e, há dias, provavelmente destes para qualquer lado. E, talvez os casos mais simbólicos deste movimento: Kyrie Irving, que quis abandonar uma equipa campeã e acabou nos Celtics, Paul George, que forçou a saída com os Lakers na mira e acabou por ficar nos Thunder, e o referido Leonard. Todos preferiram outras paragens. E todos definiram num ápice uma nova escada de favoritismo na liga.

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A culpa é dos Warriors

Os campeões em título continuam superfavoritos. Se os jogadores mandam na liga, os Warriors mandam mais. Muito mais. Em quatro anos, três títulos e o quarto perdido apenas por um pontapé do seu líder Draymond Green entre as pernas do LeBron James. E se os jogadores de topo mandam na liga, os Warriors tinham quatro e passaram a ter cinco. Boogie Cousins rasgou o tendão de Aquiles a meio da última época, estava sem propostas aliciantes e decidiu telefonar aos Warriors: “Querem-me? Eu vou por pouco dinheiro”. E uma equipa que já só joga contra ela e contra os Chicago Bulls de Michael Jordan, os Celtics de Bill Russell e os Lakers de George Mikan pelo topo da história, ficou ainda mais forte.

De forma simples: se Cousins recuperar fisicamente a tempo dos play-off e os Warriors aguentarem o tédio da glória, os Golden State Warriors serão os campeões de 2018-19.

O próprio LeBron James parece acreditar neste cenário, pela escolha que fez de tentar ganhar um título nos Lakers antes de arrumar as botas, abandonando o direito quase divino de chegar às Finais pelo Este, nos seus Cavaliers. Não será este ano, numa equipa com jovens cheios de potencial mas com debilidades estruturais tão sérias que anulam totalmente a hipótese de se chegar a Junho ainda com LeBron equipado. O ciclo de James nos Lakers parece estar no ano zero, antes da chegada de mais alguém de topo no próximo ano, quando haverá espaço salarial para acomodar um Kawhi ou um Durant. E, tal como os Warriors, também LeBron joga contra a história. Nunca ninguém do seu nível foi campeão em três equipas diferentes. Os únicos que o conseguiram foram jogadores de classe média, John Salley e Robert Horry.

A sensação de imbatibilidade dos Warriors torna esta temporada numa espécie de posicionamento na grelha de partida, à espera que o carro lá muito à frente tenha um furo, nos tornozelos do Steph Curry, nas costas do Draymond Green, no joelho do Kevin Durant ou nos pulsos do Klay Thompson.

Rockets e Celtics reforçam apostas

As maiores ameaças aos Warriors continuam a ser os finalistas vencidos das conferências no ano passado. No Este, os Celtics regressam mais saudáveis, depois do improvável sucesso nos play-off de 2018 sem as suas duas estrelas maiores, Kyrie Irving e Gordon Hayward. Com os jovens Jotas – Jalen Brown e Jason Tatum – e o veterano Al Horford formam um cinco fortíssimo, apoiado por um banco rodado já em jogos de alto nível. São os favoritos a substituírem os traumatizados Cavaliers como representante do lado direito da tabela da NBA.

Do outro lado, os Rockets estiveram a uma lesão de distância de poderem interromper o domínio de Curry e companhia, mas a queda de Chris Paul cumpriu infelizmente uma também já negativa tradição do experiente base não estar saudável nos jogos decisivos das suas equipas. Este ano, arrancam renovados pela chegada de pernas mais frescas, mas perderam veteranos chave na química da empresa. E renovam a aposta numa estrela em final de carreira com a chegada de Carmelo Anthony, na ressaca de um ano perdido em Oklahoma.

Jovens ao poder

Na terceira linha da grelha de partida estão equipas que caminham para o topo ao ritmo do desenvolvimento das suas estrelas, jovens que vão ganhando quilómetros nas pernas e que espantaram a liga no ano passado pela rápida maturação em jogos decisivos. Do lado Este, os Philadelphia 76ers, com a sua dupla Joel Embiid (um moderno Shaquille O’Neal para os optimistas) e Ben Simmons (rookie do ano, um moderno Magic Johnson, no melhor cenário), acompanhados de veteranos e de Markelle Fultz, uma talentosa mas enigmática primeira escolha do draft que esteve ausente no ano passado mas que dá sinais de poder estar de volta ao seu nível universitário.

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Preparados para dar o salto estão ainda os Milwaukee Bucks, do espantoso Giannis Antetokounmpo, um dos "unicórnios" da liga (jogador com tamanho de poste e habilidade de base), que terá este ano, pela primeira vez na sua carreira, um treinador de qualidade (Mike Budenholzer, que levou uma equipa sem estrelas Atlanta Hawks ao topo da liga só com base no seu sistema de jogo). Os Bucks vão correr muito, vão lançar mais e com os dotes físicos dos principais jogadores podem ameaçar de forma credível o topo do Este.

Os Toronto Raptors surgem então com Kawhi Leonard, numa espécie de aluguer de um ano (se não conseguirem convencê-lo a renovar), e com um conjunto de jovens jogadores entusiasmantes e um treinador que sobe na hierarquia depois de ter sido o ideólogo do seu sistema de jogo como adjunto. Mas a experiência depende, sobretudo, de uma imprevisível alquimia de elementos estranhos ao clube.

Do lado Oeste, os Utah Jazz liderados pelo electrizante Donovan Mitchell, que pressionaram ao limite os Rockets no ano passado, prometendo regressar esta temporada mais fortes e mais saudáveis, com o gigante francês Rudy Gobert a ancorar uma das melhores defesas da liga. Os Jazz jogam um basquetebol mais lento e pausado, ao arrepio da grande tendência de aceleração da NBA em 2018-19, mas com a qualidade dos seus jogadores essa originalidade pode dar-lhe uma vantagem competitiva difícil de superar.

Uma leitura que vale para os Oklahoma City Thunder, liderados pelo imparável Russell Westbrook, e que operaram uma afinação do plantel, com a saída de Carmelo e a improvável renovação de Paul George, que valoriza as suas virtudes e mitiga os seus defeitos. O dínamo de Westbrook – que começa a época em tratamento - será sempre determinante pela sua personalidade mas também pela disponibilidade física ameaçada a cada ano que passa.

Os New Orleans Pelicans arrasaram a competição desde que uma das suas torres – Boogie Cousins – caiu por lesão. O "unicórnio" Anthony Davis assumiu-se como candidato perene ao melhor jogador da liga (MVP) e dominou todos os jogos até cair aos pés dos Warriors nos play-off. Davis é o maior candidato a ganhar o MVP este ano, mas também a ser o próximo a bater com a porta e a reclamar uma transferência. Entretanto, os Pelicans andarão a correr pelos pavilhões numa prova de velocidade com bola, um estilo de jogo que no ano passado deu resultados e sobretudo muito espectáculo.

A factura da vertigem

O que os Pelicans mostraram, especialmente no final da época, é que numa liga dotada de bases de topo com pouca formação universitária e escolhidos num sistema de selecção pelas suas aptidões atléticas, acelerar o jogo expõe menos a falta de fundamentos clássicos do jogo (mais desenvolvidos e trabalhados na Europa, por exemplo). Este ano, os jogos vão acelerar em vários pavilhões. O lado lunar deste estilo é a pressão adicional sobre os corpos dos jogadores, cuja carga de 82 jogos em seis meses tem deixado um rasto de lesões sem precedentes na história da liga.

Em equipas com menor quantidade de talento, uma lesão numa estrela é a diferença entre os play-off e os draft. E, neste universo, encontram-se equipas como os Portland Trail Blazers (Damian Lillard), Denver Nuggets (Nicola Jokic) Indiana Pacers (Victor Oladipo), os cinematográficos Lakers (Lebron James), os dramáticos Minnesota Timberwolves (Jimmy Butler, se acabar por ficar, contra vontade), os New York Knicks (Kristaps Porzingis) os Los Angeles Clippers (Tobias Harry), os Miami Heat (Goran Dragic), os Washington Wizards (John Wall), os Detroit Pistons (Blake Griffin) os Cleveland Cavaliers (Kevin Love) ou os Charlotte Hornets (Kemba Walker).

No fundo das tabelas - e numa liga que premeia a incompetência com melhores probabilidades de escolher os melhores jogadores universitários no draft - cruzam-se equipas ainda num estádio de subdesenvolvimento à procura todos os anos de novas estrelas (Chicago Bulls, Memphis Grizzlies, Brooklyn Nets, Orlando Magic, Atlanta Hawks, Sacramento Kings) e outras que já as encontraram e esperam que os craques vão crescendo com a passagem do tempo. Os Phoenix Suns, com o novo "unicórnio" Deandre Ayton, número 1 do draft deste ano, e o atirador Devin Booker. Mas, sobretudo, a equipa do novo prodígio da liga, Luka Doncic, que dominou a Europa com o Real Madrid antes dos 20 anos. E chega à NBA com legítimas aspirações de a dominar também.

Entalados nesta escada de competitividade, estão os San Antonio Spurs. Resistiram a todos os ciclos, de todos os rivais, sempre no topo. Não resistiram à nova NBA. Num contra-ataque de Kawhi Leonard ficaram para trás, presos pelo fio do final da carreira de Popovich, que já não durará muito mais tempo.

Texto corrigido com uma referência aos jogadores que já foram campeões por três equipas diferentes

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