Morreu Paul Allen, co-fundador da Microsoft

O empresário norte-americano criou a Microsoft juntamente com Bill Gates e era um dos homens mais ricos do mundo.

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Allen era dono da equipa Seattle Seahawks
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Allen era dono da equipa Seattle Seahawks Brendan McDermid/REUTERS

O co-fundador da Microsoft Paul Allen morreu nesta segunda-feira, aos 65 anos. O empresário, um dos homens mais ricos do mundo, tinha anunciado no início do mês que se encontrava a fazer tratamentos contra um linfoma não-Hodgkin, um tipo de cancro.

Allen morreu na cidade norte-americana de Seattle, onde nasceu a 21 de Janeiro de 1953. Tal como Bill Gates,  dedicou muito do tempo de vida à filantropia, depois de deixar a empresa que ajudou a fundar na década de 1970, mas que abandonou cedo, devido a um outro cancro. Ao todo, segundo contas citadas pela agência Reuters, Allen doou mais de 2000 milhões para diferentes causas. Era também um apaixonado do futebol americano – e dono da equipa Seattle Seahawks, campeões de 2013. Tinha também a equipa de basquetebol Portland Trail Blazers e entre os seus múltiplos projectos estava a construção de um gigantesco avião, com o qual pretendia colocar satélites em órbita. 

"Estou desolado com o falecimento de um dos meus mais antigos e queridos amigos", escreveu Bill Gates, num comunicado. "Desde os nossos primeiros dias juntos na Escola de Lakeside, passando pela criação da Microsoft, até alguns dos nossos projectos filantrópicos ao longo dos anos, o Paul foi um verdadeiro companheiro e um amigo chegado. A computação pessoal não teria existido sem ele".

Também o actual presidente executivo da Microsoft lembrou o trabalho do co-fundador da empresa. "A contribuição de Paul para a nossa empresa, a nossa indústria e para a sociedade é incontornável", afirmou Satya Nadella. "Como co-fundador da Microsoft, à sua maneira calmo e persistente, criou produtos magníficos, experiências e instituições – e ao fazê-lo mudou o mundo", salientou Nadella, numa mensagem publicada através da conta da Microsoft no Twitter. 

"O meu irmão era um indivíduo notável a todos os níveis", escreveu por seu lado a irmã, Joddy Allen, num testemunho publicado pela Vulcan Inc., a empresa actual de Allen. "Como um tecnólogo e um filantropo, foi para nós um irmão muito amado, e um tio e um amigo excepcional." 

O início da Microsoft

Paul Allen conheceu o seu futuro sócio, Bill Gates, quando ambos andavam no liceu. Juntamente com alguns outros colegas, eram frequentadores assíduos da sala de informática, um conceito que era uma novidade nos anos 1960. Naquele tempo, ainda não existiam computadores pessoais. Os jovens passavam horas a aprender programação informática num terminal – a computação propriamente dita era feita por um enorme computador à distância, ao qual a escola pagava o tempo de acesso. Allen era dois anos mais velho do que Gates, mas era este – com a sua convicção de que era sempre a pessoa mais inteligente da sala – quem assumia a posição de liderança, numa relação de forças que se prolongou pelos anos da Microsoft.

Allen foi de seguida estudar para a modesta Universidade Estadual de Washington. Foi nessa altura, e quando Gates estava ainda no último semestre do liceu, que uma companhia que fazia gestão de redes de electricidade os contactou para fazerem parte da sua equipa de programadores. Os dois jovens passaram a programar freneticamente nas instalações da empresa (e a tomar poucos banhos).

Gates, por seu lado, viria a entrar em 1973 na prestigiada Universidade de Harvard, onde conheceu Steve Ballmer, um dos primeiros funcionários e mais tarde presidente da Microsoft. Mas destitira pouco depois do curso para fundar uma empresa com Allen, que entretanto arranjara um emprego confortável de programador numa empresa tecnológica.

Tanto Gates como Allen estavam fascinados com o aparecimento de microprocessadores, uma tecnologia que prometia reduzir o tamanho dos computadores, que naquela altura eram máquinas que ainda ocupavam salas inteiras ou, na melhor das hipóteses, tinham o tamanho de grandes secretárias. Os dois jovens sonhavam com um mundo em que toda a gente teria um computador no escritório e em casa.

Em 1974, decidiram criar software para um computador pessoal chamado Altair. Contactaram a empresa fabricante e disseram que tinham, pronto para funcionar no Altair, software que permitiria que outras pessoas pudessem desenvolverem os seus próprios programas capazes de correr naquele computador. Hoje, a ideia de qualquer pessoa com os conhecimentos necessários poder programar software compatível com vários computadores é banal. Na altura, uma solução como a que Gates e Allen propunham podia ser um trunfo para o sucesso comercial de um computador. A história, no entanto, era mentira: os dois não tinham ainda feito nada.

Do lado dos fabricantes do Altair, porém, houve interesse – e a dupla pôs mãos à obra. Poucos meses depois, Allen (que parecia ser muito mais velho do que Gates e tinha por isso mais hipóteses de ser levado a sério) levou um produto funcional à sede da fabricante do Altair. Para surpresa de todos, Allen incluído, o software funcionou bem e os dois jovens conseguiram um contrato de fornecimento. Allen ainda conseguiu que lhe oferecessem um emprego. O contrato referia-se aos dois programadores como “Paul Allen e Bill Gates a operar como Micro-Soft”.

Em 1975, foi oficialmente criada a Microsoft, que alguns anos mais tarde viria a ser crucial na revolução dos computadores pessoais. Allen tinha uma fatia menor dos lucros da empresa: Gates argumentara que, ao contrário dele próprio, o sócio já tinha outro emprego e que, por isso, não fazia sentido uma divisão a meias.

Doença e afastamento

Foi ainda nos anos iniciais da Microsoft que Allen pela primeira vez enfrentou um cancro. Em 1982, aos 29 anos, foi-lhe diagnosticada a doença de Hodgkin. A Microsoft ainda não era um gigante, mas tinha crescido muito e tornara-se uma empresa com uma actividade frenética, que não era compatível com os tratamentos. Allen viu-se forçado a sair da companhia que tinha ajudado a fundar.

O episódio foi recordado por Allen, muitos anos mais tarde, de uma forma amarga. Segundo escreveu na sua biografia (Idea Man, publicada em 2011), foi essencialmente forçado a sair por Gates e Ballmer, ambos desejosos de o afastar. “Eu tinha ajudado a lançar a empresa e ainda era um membro activo da equipa de gestão, apesar de limitado pela minha doença, e agora o meu sócio e o meu colega estavam a conspirar para me roubar. Era oportunismo mercenário, puro e simples.”

Gates já negou esta versão dos acontecimentos. Mas, na altura, tanto Gates como Ballmer acabaram por lhe pedir desculpas. “Durante os últimos 14 anos, discordámos muitas vezes. Contudo, duvido que dois sócios alguma vez tenham concordado tanto, seja no que diz respeito a decisões específicas, seja sobre a visão geral das coisas”, escreveu então Gates, numa carta a Allen. “Paul, às vezes sinto que me estás a dizer que eu sou um mau tipo, ou que a empresa é má. Às vezes sinto que não percebes o esforço que foi posto nesta empresa.”

Apesar do afastamento da gestão da Microsoft, Allen manteve a sua posição na empresa e em 1986, quando esta entrou em bolsa, tornou-se multimilionário.

Muitos anos mais tarde, em 2008, quando foi a vez de Bill Gates deixar a gestão da Microsoft, este não deixou de recordar, no discurso de despedida, o antigo colega de liceu e co-fundador: “A Microsoft é talvez uma daquelas poucas empresas de que se pode dizer que começou apenas com um sonho. O sonho de que o software seria importante. O sonho de que haveria um computador que seria barato para as pessoas. Esse é um sonho que o Paul Allen e eu tivemos, e que na altura parecia muito maluco.”