Opinião

O Valle de los (“historiadores”) Caídos

Na era das fake news, dos factos alternativos e da “ascensão da nova ignorância”, urge desmascarar casos flagrantes como este.

A anunciada exumação do general Franco do Valle de los Caídos, mandado construir pelo próprio com recurso a trabalho escravo de espanhóis vencidos na guerra civil de 1936-1939, tem gerado algum interesse fora do país, especialmente pelo facto de ter sido permitido a um ditador continuar sepultado num mausoléu custeado com dinheiros públicos. O que acontece em Espanha é nada mais do que o final de um longo processo de normalização democrática, que culmina com a condenação da autocracia e a retirada da maioria dos seus símbolos do espaço público. Alguns, incluindo o Valle de los Caídos, devem ser conservados para memória futura por constituírem monumentos que encarnam os valores fundacionais do franquismo: a megalomania e o terror. A presença adicional da sepultura de Franco atribui, contudo, uma aura de respeitabilidade ao regime.

A extensão temporal deste processo deve-se ao legado da Transición democrática (1975-77) negociada com a ditadura, que se auto-amnistiou, e a um medo atávico amplificado pelo golpe de Estado falhado de 1981, a que se seguiu um Pacto del Olvido sobre o franquismo. Foi necessário passar uma geração para que fosse possível começar-se a averiguar o passado recente. Durante a sua longa vigência no poder (1982-96), o Partido Socialista optou por ignorar a questão das vítimas do franquismo até ao ano em que o conservador Partido Popular ascendeu à governação. Desde então, o PP sempre rejeitou todas as solicitações vindas da ONU para que a Espanha localizasse e concedesse um enterro digno às dezenas de milhares de vítimas da repressão franquista espalhadas em valas comuns pelo país — a Espanha é ainda hoje o segundo país do mundo com maior número de desaparecidos. O simbolismo da exumação do ditador possui um significado quase catártico: representa o fim de uma era e a condenação última do regime. Compreende-se, portanto, a ira dos ultras do franquismo.

Mais difícil de compreender é o aparecimento de um artigo num jornal português (“Talibãs no Valle de los Caídos”, Observador) que se apresenta como núncio da verdade histórica para logo acusar o PSOE de “humilhar as famílias e a memória dos vencedores”. De quem, exactamente? Dos combatentes da facção rebelde, tanto franquistas como não franquistas, já honrados e ao mesmo tempo instrumentalizados durante décadas para legitimar um regime imposto pela força das armas? Estará o cronista a referir-se ao ditador? Parece ser consensual a máxima de que a democracia não deve dignificar autocratas e, utilizando a prosa do próprio José Andrade, empregar o dinheiro de “desatentos contribuintes” para a conservação do Valle de los Caídos. Mais: a exumação pretende “criminalizar a descrição histórica imparcial do que (...)se passou”, que é nada mais do que uma alusão à narrativa política, nem histórica nem imparcial, do franquismo. Basta lembrar que, entre 1939 e 1975, toda a obra historiográfica que contradissesse a “verdade” do regime era censurada. O mais difundido dos mitos da ditadura, o casus belli em que se fundamentava a rebelião de 1936, era o de que a Espanha se encontrava ameaçada de morte por um conturbenio judeo-masónico-comunista. O facto de não haver presença judaica visível em solo espanhol servia como prova adicional do quão bem preparados os conspiradores realmente se encontravam. Num processo de projecção, em tudo semelhante ao idealizado pelos golpistas que acusavam os seus inimigos de sedição (sic), o cronista denuncia todo o historiador oposto à sua “tese” de reciclar propaganda do Komintern, tudo isto enquanto procura ressuscitar mitos desacreditados desde os anos 60 do século passado. Segundo a “imparcial” historiografia franquista, a República foi o apocalipse e a responsabilidade recai exclusivamente sobre os ombros da esquerda (longe do leitor seguir o processo intuitivo que o leve a concluir que os movimentos monárquicos pudessem vir a constituir uma ameaça existencial ao regime). O que se segue são alguns conceitos básicos de prática da história: primeiro, um investigador, quando decide elaborar uma síntese de uma época através da identificação de episódios-chave, deve mencioná-los a todos e não apenas os que julga que irão corroborar a sua tese, senão teremos a história ao serviço de uma tese e não o contrário. Segundo, tem de explicar o contexto. Portanto, se o cronista analisa a greve revolucionária de 1934 no contexto da instabilidade sociopolítica da República, então deve também, por exemplo, mencionar o golpe de estado anti-republicano frustrado do general Sanjurjo em 1932. Deveria também debruçar-se sobre papel de Gil Robles, líder do maior partido conservador da época, na eclosão e repressão da greve de 1934, em estreita colaboração com o seu protegé, o general Franco. E, já agora, citar dados globais e não parciais: 254 mortos entre membros das forças de segurança, 44 civis assassinados pelos grevistas e 886 grevistas e civis liquidados pelas forças governamentais. Do mesmo modo, quando o cronista decide fazer juízos de valor sobre a “desintegração do regime republicano”, deve também clarificar a atitude blasé  adoptada pelo mesmo Gil Robles enquanto via o seu partido, esse sim, desintegrar-se, e os seus militantes afiliarem-se no partido fascista espanhol, a Falange. Terceiro, todos os argumentos de autoridade são especiosos, mais ainda quando se tenta fazer passar historiadores polémicos por consensuais, como são os casos de Álvarez, de Villa e de Payne, este último apelidado de “insuspeito” apesar de recentemente ter negado o maior massacre perpetrado pelo exército franquista durante a guerra, a chacina de Badajoz. Ainda sobre o tema dos massacres, por que motivo o cronista menciona Paracuellos, omitindo o facto de se tratar do único grande morticínio republicano, e ignora, por exemplo, para além de Badajoz, Guernica? Por fim, mas não menos importante, o cronista identifica também o general Queipo de Llano, tema do meu livro publicado em 2017, como sendo uma vítima da “sanha exumatória que perpassa impunemente (...) sobre os diabolizados vencedores”. Se não sabe, ficará a saber o dito investigador que o general Queipo não só exortava publicamente os seus soldados a violarem mulheres republicanas como incitava civis a matarem “como um cão”qualquer pessoa que criticasse “o glorioso movimento nacional”. Com igual sanha ordenou também o fuzilamento do poeta Federico García Lorca e foi responsável máximo por cerca 50.000 execuções na Andaluzia, um território afastado dos principais cenários de guerra. O que me leva ao último ponto: a estatística. Existe um consenso historiográfico em torno do total aproximado de fuzilados durante a guerra civil: 50-60 mil pelos republicanos; 150.000 pelos franquistas. Estes números são o resultado de décadas de pesquisa plasmada em centenas de obras publicadas e devidamente referenciadas. Os “48 mil” assassinados pelos golpistas não fazem parte da história; são propaganda. Com isto, creio que ficaram patentes os significados dos conceitos de “Verdade” e de “Liberdade” defendidos com maiúscula pelo cronista.

Concluo dizendo que é na condição de historiador profissional que me vejo obrigado a repor a verdade dos factos históricos, porque, sem ponta de ironia, preocupam-me os “militantes políticos que se escondem sob a respeitabilidade do profissionalismo”. Na era das fake news, dos factos alternativos e da “ascensão da nova ignorância”, urge desmascarar casos flagrantes como este. E não é verdade que a história “tem uma tendência patológica a quase repetir-se”. 2018 nunca será 1936, excepto na mente dos que ambicionam manipulá-la para fins políticos. Mas, para fastio deles, não há um Caudillo que resgate o país deste novo conturbenio.

Uma última adenda: o dito cronista identifica-se como historiador em itálico, quando deveria tê-lo feito com aspas. 

Assistant professor na Universidade de Nottingham. Publicou, em 2017, o livro Conspiracy, coup d'état and civil war in Seville, 1936-1939: History and myth in Francoist Spain