A arte pública vai desencaminhar-nos para o interior do Alto Minho

Fernanda Fragateiro, João Mendes Ribeiro ou Gabriela Albergaria, entre outros vão, nos próximos meses, instalar dez obras que funcionarão como leitores de paisagem nos dez concelhos da região, no âmbito do programa Desencaminharte.

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Fernanda Fragateiro vai espalhar bandeiras pela paisagem de Sistelo Nelson Garrido

A artista portuguesa Gabriela Albergaria abandonou por uns dias o seu quotidiano em Londres para preparar a instalação, no Parque do Castelinho, em Cerveira, de uma vala, um rasgo granítico na paisagem verde, metáfora de uma terra onde, há 40 anos, um grupo de criadores decidiu rasgar horizontes e pôr de pé uma bienal de arte. A obra, uma das dez que integram a segunda edição do Desencaminharte, serve também de metáfora para a marca que este programa pretende inscrever em paisagens dos dez concelhos do Alto Minho, que nos próximos meses acolherão intervenções de outros tantos criadores, entre eles Fernanda Fragateiro, João Mendes Ribeiro ou os FARH 0.123.

Há anos que Hugo Reis e Filipa Almeida, do estúdio FAHR 0.213 ambicionavam levar arte para paisagens menos óbvias do que a das cidades, que já acolhem algumas das suas obras. Fundadores e membros do Colectivo Hodos, que reúne outros arquitectos e criadores, viram um projecto para um troço antigo do caminho de Fátima ficar-se pelo papel, e ainda aguardam pelo avanço de uma outra intervenção colectiva num concelho do Alto Minho. Pelo meio, acabaram por ser convidados para programar o segundo Desencaminharte, e deram uma volta a este projecto da Comunidade Intermunicipal do Alto Minho, que passa a ambicionar a instalação, ao longo dos próximos anos, de arte pública em pontos dispersos das belíssimas paisagens da região.

As primeiras dez obras são instaladas nos próximos meses, tornando-se o ponto de partida de um tipo de roteiro que, noutros pontos do planeta, atrai visitantes e acrescenta identidades outras às identidades próprias de cada local. Os projectos do Colectivo Hodos inspiram-se em iniciativas como as rotas cénicas da Noruega, que integram instalações e obras de arquitectura à beira-mar, espalhando pontos de paragem obrigatória pelas estradas que serpenteiam pela costa daquele país nórdico, ou no Projecto de Escultura de Munster, na Alemanha, iniciativa de cariz mais urbano que vem espalhando arte pelas ruas daquela cidade.

Mas regressemos ao Alto Minho. Os promotores do Desencaminharte pretendem que o programa projecte culturalmente uma região ainda periférica, do ponto de vista artístico e até turístico, apesar de contar com o único Parque Nacional português, o da Penêda-Gerês, e com um património construído invejável. E o Hodos, explica ao PÚBLICO Hugo Reis, pretende responder a esse desafio enxertando no território novos pontos de interesse, com a assinatura de artistas reconhecidos e outros emergentes, que foram desafiados a conceber obras que, para além do seu valor intrínseco, funcionassem como leitores de paisagem.

Catálogo editado em 2019

Chegada esta semana a Cerveira para preparar a instalação do seu trabalho, Gabriela Albergaria, que tem obras em espaços públicos de vários países, vai estrear-se, finalmente, com uma peça ao ar livre em Portugal “Estou muito feliz, porque tenho a oportunidade de fazer algo que não é uma escultura no meio de um praça”, explica a artista actualmente radicada em Londres, depois de passagens por Berlim e Nova Iorque, e que que prossegue, no Desencaminharte, um percurso marcado pela manipulação de materiais orgânicos, naturais.

Gabriela Albergaria teve, como todos, carta-branca, dentro dos limites de um orçamento que, entre fundos comunitários e comparticipação de cada município, ronda os 90 mil euros para o conjunto das obras - que serão inauguradas, à medida que forem instaladas, até 15 de Dezembro – e para todo um trabalho de comunicação em torno do projecto, que incluirá a edição de um catálogo, já em 2019.

O Hodos ainda não estabeleceu, com a CIM do Alto Minho, qual será a periodicidade futura do Desencaminharte, mas a expectativa dos parceiros envolvidos é que, de facto, este seja o primeiro momento de um projecto que espalhe land art pelo território, criando novos pontos de interesse para quem o visita. Os primeiros dez trabalhos estão a caminho, e, por ordem alfabética dos municípios envolvidos, aqui fica uma ideia do que se pode esperar destas intervenções.

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  1. Sistelo, em Arcos de Valdevez, já é paisagem cultural, classificada, e é por lá que Fernanda Fragateiro, uma das vencedoras do Prémio AICA 2017 vai erguer bandeiras, em postes com dez metros de altura, num gesto tão artístico como político, dado que cada uma delas será portadora de uma mensagem, pontuando a paisagem no seu fundo amarelo. A artista volta a inspirar-se em frases do filósofo e poeta norte-americano Ralph Waldo  Emerson, para provocar, nas milhares de pessoas que hoje em dia passem por esta jóia à beira-Vez, uma reflexão sobre o lugar e a paisagem.
  2. Para reflexão pode ser, também, o cubo, perfeito na sua abertura para o Rio Minho, que os FAHR vão instalar junto à marginal ribeirinha, em Lanhelas, Caminha. Inspirando-se nos abrigos para pescadores, a dupla de arquitectos do Porto, impôs, como é hábito no seu trabalho, plasticidade a esta obra, cuja traseira, deformada, nos indica para onde devemos posicionar os olhos: para o plano de água, pois claro.
  3. Lamas de Mouro, no concelho de Melgaço, é uma das portas do Parque Nacional da Peneda-Gerês e o colectivo DepA Architects, do Porto, quer convidar os visitantes a contactarem com o solo verdejante, e a com a humidade das charcas ali existentes, rasgando no chão uma rampa que nos põe ao nível deste substrato, e nos oferece, também outra perspectiva, imponente, pelo contra-picado, do vidoal envolvente.
  4. Os Still Urban Design juntaram a sua experiência em urbanismo e arquitectura bioclimática à criatividade do artista plástico Miguel Seabra para uma intervenção no Castro de São Caetano, em Longos Vales, Monção, onde um destes dias seremos interpelados por uma peça longa, tão cilíndrica como as casas do castro, mas projectando-se ao alto, como um menir, ou um cruzeiro. A ideia é que entremos, que subamos por uma escada interior, e possamos, a partir desse novo ponto de vista, redescobrir a envolvente.
  5. Em Paredes de Coura, num ponto do caminho de Santiago que passa em Romarigães, terra da casa grande que deu nome a um romance, a artista Dalila Gonçalves vai instalar um biombo, articulando enormes tábuas de madeira em bruto. A obra interpela os peregrinos, mas oferece-lhes também um lugar de descanso, já que abriga, no interior do seu semi-círculo, uma grande pedra onde é possível sentar.
  6. Lugar de descanso é também o Choupal de Ponte da Barca, em plena vila, onde a dupla de arquitectos Pablo Pita - Pablo Rebelo e Pedro Pita - vai criar um espaço de paragem e contemplação. A obra, uma parede curva metalizada, enquadra-nos o olhar, numa zona em que o rio Vade se junta ao Lima, funcionando como um novo leitor para esta paisagem relaxante.
  7. O Miradouro dos Socalcos de Labrujó e Rendufe, em Ponte de Lima, já é, nos seus 600 metros de altitude, um local imprescindível para a leitura da paisagem. Por isso, o artista plástico André Banha propõe a implantação, no local, de uma peça que rompe com os materiais pré-existentes, ainda que lhe possamos vislumbrar alguma relação com os afloramentos rochosos do lugar. Trata-se de uma escultura oca, onde poderemos entrar, para contemplar uma envolvente de cortar a respiração.
  8. À dupla luso-suiça  Barão-Hutter coube a sorte de intervir, em Valença, no interior dos muros do Mosteiro de São Fins de Friestas, importante exemplar de um românico com influências galegas que chegou aos nossos dias. E aqui, os arquitectos Ivo Barão e Peter Hutter acrescentam à paisagem uma obra que nos espicaça a curiosidade sobre a história deste monumento, e das suas antigas regras, que impunham, por exemplo, que o primeiro salmão pescado no rio, ou o primeiro javali que por ali se caçasse, fosse entregue aos frades.
  9. O arquitecto João Mendes Ribeiro, outro dos consagrados desencaminhados para este programa, vai intervir no exterior de uma capela num monte em Deocriste, já no interior de Viana do Castelo, reformulando alguns elementos, e acrescentando-lhe outros - no caso duas namoradeiras, junto a um miradouro – para nos reorientar o olhar para a linha de horizonte, marcada por um mar a perder de vista.
  10. Gabriela Albergaria vai rasgar no Parque do Castelinho, em Vila Nova de Cerveira, uma fenda no solo, entre choupos e bétulas, emulando as marcas, na terra, das cheias do Rio Minho, e transportando, para a margem, a rugosidade granítica das montanhas em volta, com as pedras que suportarão esta obra que marca a sua estreia num espaço público do país onde nasceu.