Opinião

Doze anos, ou um programa para o planeta

Continua a ser necessário saber o que fazer, mesmo que os obstáculos humanos sejam neste momento ainda maiores do que os obstáculos naturais.

No ano em que eu nasci, 1972, David Bowie lançou um dos seus melhores álbuns, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. A primeira música desse álbum tinha por título Five years e por tema uma ansiedade comum daquela época: o que aconteceria se, por causa de uma catástrofe não especificada, um apresentador aparecesse no telejornal para nos dizer que o planeta tinha apenas mais cinco anos de vida?

A canção de David Bowie fala de momentos de raiva e desespero, choro convulsivo nas televisões e olhares perdidos no vazio das grandes cidades. Hoje sabemos que não seria nada assim. Há raiva e indignação sim — na maior parte das vezes, justificadas ou não, por causa de qualquer coisa que alguém disse na véspera nas redes sociais — e os olhos não estão perdidos no vazio mas concentrados nos écrans dos dispositivos que nos trazem a cada momento todos os dados que nós quisermos.

E, no entanto, passou relativamente despercebida a informação, revelada pelo último relatório do Painel Internacional sobre Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) de que a humanidade tem doze anos para limitar o aquecimento global a um grau e meio e assim evitar as piores consequências das alterações climáticas. Alguns jornais fizeram a ligação com o prémio Nobel atribuído a dois economistas, William Nordhaus e Peter Romer, cujo trabalho incide nas duas áreas nas quais precisaremos de mais inovação para resolvermos a tarefa gigantesca que temos diante de nós: a economia do combate às alterações climáticas e a da incorporação de tecnologia. Mas no geral mesmo o esforço desses jornais foi em vão: não há choro nem desespero, o pessoal está ligado noutras coisas.

Não digo isto como crítica: é que é mesmo difícil não estar ligado noutras coisas quando as outras coisas de que estamos a falar são a reemergência do fascismo e do nacionalismo e o aumento das fricções entre os estados, autoritários e/ou ainda democráticos. É difícil ver as notícias sobre como a Rússia e a Arábia Saudita podem ter comandado assassinatos no Reino Unido e na Turquia e não achar que ainda um dia destes uma dessas operações vai estar na origem de um conflito ainda mais destrutivo do que a guerra na Síria. É difícil concentrarmo-nos na emergência de médio prazo no meio de tantas urgências de curto prazo.

Mas não é impossível, porque ambas estão interligadas. Tenho para mim que uma das razões por que o nacionalismo está tão vociferante hoje é porque está fraco e não porque está forte. Ele faz-se forte precisamente porque no seu íntimo sabe que os seus argumentos são estruturalmente fraquíssimos perante um mundo cada vez mais integrado e a ameaça de uma crise ecológica global. Quando os nacional-populistas fomentam teorias da conspiração sobre o governo mundial ou atacam a surpreendente resiliência do espírito cosmopolita na cultura popular e na juventude é porque querem que não vejamos aquilo que está na cara: que a nossa única salvação está precisamente em considerarmo-nos como cidadãos do mundo, para sermos melhores cidadãos dos nossos países, e que pensar em formas de governança e regulação global (no clima como na evasão fiscal) não só não enfraquecerá os nossos países como talvez seja a única forma de garantir que eles tenham recursos para proteger as suas populações (ou que não gastem grande parte dele a reagir quando já é tarde demais perante cada evento climatérico extremo).

Os nacional-populistas, pelo contrário, berram sobre os problemas de superfície enquanto fazem tudo por agravar as suas causas: é o que se passa com Trump quando faz da imigração tema de campanha — mas a seguir tira os EUA dos acordos de Paris, que seriam a sua melhor esperança de mitigar os fenómenos que provocarão certamente migrações climatéricas de massas. Não será o canto do cisne, mas é certamente o urro da besta nacionalista perante problemas que não entende e que é incapaz de começar sequer a pensar como resolver.

O relatório do IPCC e, sobretudo, as suas 35 páginas de conselhos para responsáveis políticos fazem assim um pouco o papel daqueles cálculos que fazemos nas costas de um envelope e que nos permitiriam salvar o mundo — e, de caminho, criar emprego e dar qualidade de vida à população mundial — se as condições políticas para salvar o mundo fossem as adequadas. Como sabemos, as condições políticas atuais são profundamente inadequadas. Mas isso não retira validade ao exercício. Continua a ser necessário saber o que fazer, mesmo que os obstáculos humanos sejam neste momento ainda maiores do que os obstáculos naturais. Mas mantenhamos alguma esperança: os humanos mudam de ideias e a natureza é teimosa. E o relógio só tem doze vezes doze badaladas de passagem de ano para bater antes que as piores consequências estejam aí.