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Na fachada do MASP, o mais importante museu de arte do Brasil, a bandeira do colectivo Frente 3 de Fevereiro interpela o establishment artístico sobre a ausência de negros em seus acervos e cargos de direcção Eduardo Ortega
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Na fachada do MASP, o mais importante museu de arte do Brasil, a bandeira do colectivo Frente 3 de Fevereiro interpela o establishment artístico sobre a ausência de negros em seus acervos e cargos de direcção Eduardo Ortega

Atlântida enfim foi descoberta – e é negra

As narrativas contadas pela arte da diáspora negra, que começam há seis séculos, só agora chegam ao primeiro plano das grandes exposições. Em cartaz em São Paulo, Histórias Afro-Atlânticas propõe o oceano como espaço artístico, de Lisboa à Bahia, de Luanda ao Rio, mas também ao Caribe ou ao sul dos Estados Unidos.

“Evite sair de casa em altas horas: à noite, infelizmente, a partir do olhar do outro, não só você é negro, mas bandido, e apresenta perigo. Mande a sua localização pelo Facebook, pelo WhatsApp. Caso seja parado, grave com o seu celular: é o melhor registo que pode fazer p’ra gente conseguir informações sobre quem te parou, como te parou e por que te parou. Em lugares públicos, evite o uso de furadeira e guarda-chuva longo: muita gente acha que são armas de fogo. Não saia sem documentos. Procure andar acompanhado, principalmente se for uma mulher, um homossexual ou uma pessoa trans.”

Simpáticos e bem-humorados, três rapazes negros dão conselhos num vídeo publicado no YouTube em Fevereiro. A intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro havia acabado de ser decretada pelo presidente Michel Temer, levando  tropas do Exército a ocupar as ruas da Cidade Maravilhosa — melhor dizendo, ruelas e becos das favelas da cidade, onde há décadas se trava uma guerra que tem como alvo a população da cidade. Para a população negra, sempre foi um perigo andar à noite e sozinho pelas quebradas do Rio, mas com o aparato militar isso tornou-se mais arriscado. O Observatório da Intervenção, criado por moradores das comunidades afectadas, já conta 103 mortos entre Fevereiro e Setembro nas operações militares.

Os amigos AD Júnior, Spartakus Santiago e Edu Carvalho agiram rápido. Publicaram o vídeo Intervenção no Rio: como sobreviver a uma abordagem indevida com dicas que qualquer negro das favelas conhece. Mas não os brancos do asfalto. Por isso, o efeito daqueles pouco mais de três minutos foi o de uma bomba: AD Júnior contabiliza 11 milhões de visualizações.

Num lance inesperado, o vídeo foi parar à mais importante instituição de arte do país: o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP, simbólico e poderoso pela morada (a avenida Paulista), pelo acervo (Rembrandts, Van Goghs, Picassos) e pela arquitectura (de Lina Bo Bardi, a ítalo-brasileira que o suspendeu a oito metros da calçada).

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Não faltavam relevância nem público ao trio — AD Júnior tem 2,5 milhões de visualizações por semana no Facebook —, mas virar peça de museu trouxe-lhes atenção e prestígio, e ganharam as páginas dos jornais mundo afora. Ao incorporar o vídeo entre as 500 obras da exposição Histórias Afro-Atlânticas, em cartaz no MASP e no Instituto Tomie Ohtake, imprimiram um tom de urgência a uma narrativa que começou há seis séculos mas que só agora chega ao primeiro plano das grandes exposições no Brasil.

A mostra integra um ciclo organizado por Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz, curadores do MASP, que é uma das marcas da revolução institucional que vem ocorrendo desde que uma nova gestão conseguiu sanear graves problemas administrativos do museu, que chegou a ter a luz cortada por falta de pagamento.

A palavra “histórias” é o mote de uma nova exposição a cada ano, sempre com obras do acervo do MASP e emprestadas. Em 2016, foram as Histórias da Infância, em 2017, as Histórias da Sexualidade, e agora as Histórias Afro-Atlânticas”, explica Lilia, uma das especialistas em questões raciais no Brasil. Aqui, a novidade foi a entrada, pela porta da frente, de artistas e tradições ignoradas ou  subestimadas, com as excepções da praxe. Os curadores — além de Pedrosa e Lilia, Tomás Toledo, também do MASP, e os convidados Hélio Menezes e Ayrson Heráclito, ambos negros — reuniram obras de épocas, nações e indivíduos diversos. O que une e dá sentido a tudo é o oceano, “um espaço que conecta, e mais do que conecta, cria outros espaços”, explica Menezes.

Ele reserva palavras especiais para falar da terra natal: “A Bahia é um estado latente de arte, é uma grande festa de candomblé, uma grande performance”. Mas põe essa singularidade em uma perspectiva mais ampla. “Não dá para pensar e levar a sério a formação da cultura, digamos, da Bahia no século XX, sem levar em conta as suas conexões directas com o que acontece na Jamaica, no Sul dos EUA, em Cuba, na Nigéria, no Senegal, no Benin. Olhar a Bahia por si só, isoladamente, é retirar boa parte da discussão que a criou e que ela criou do outro lado. O Brasil era uma parte estendida da África, o Rio em algum momento virou uma espécie de capital de Angola. Luanda também virou uma espécie de capital do Brasil”.

Misturam-se objectos sagrados, tapeçarias de Gobelins, graffiti nova-iorquinos, telas de mestres da pintura holandesa, fotografias, vídeos, esculturas: todo tipo de media e de artista (inclusive brancos) que narrem com sua arte um capítulo destas histórias. O catálogo se desdobra em dois: um traz reproduções dos trabalhos, e outro, uma antologia de textos que fundamentam a curadoria. Pedrosa define o conjunto como “a maior e mais ambiciosa exposição jamais organizada pelo MASP em seu passado recente”. Além de peças de museus e colecções de todo o mundo, alguns trabalhos foram comissionados para a mostra.

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Retrato de João de Deus Nascimento, de Dalton Paula (1982), uma das obras encomendadas para a exposição Paulo Rezende

O oceano como espaço artístico

O conceito pode ser um ovo de Colombo, para usar uma expressão nascida nas águas do Atlântico. Posto de pé, parece óbvio, mas é fruto de uma intensa discussão de historiadores, curadores e activistas que buscam entender o oceano como um só espaço político, cultural e económico.

O oceano já havia sido chamado, por certo, de Black Atlantic, e historiadores como Luiz Felipe de Alencastro já apontaram a relação umbilical entre Brasil e Angola. Mas aos curadores pareceu necessário ir além das fronteiras da história e da geografia, atingindo um carácter simbólico, mítico.

“A exposição teve um processo bonito até no título”, diz Menezes, que aos 18 anos saiu de Salvador para se graduar em São Paulo, onde se tornou orientando de Lilia no mestrado e no doutoramento. De início, ainda restrito aos curadores do MASP, o projecto se intitulava Histórias da Escravidão, nome do ciclo de palestras e cursos destinado a preparar a curadoria.

“Acredito que eles foram se dando conta, muito informados pela reactividade social, do que significa pensar esse grande aporte africano na formação das Américas do ponto de vista da escravidão”, especula Menezes. “Os colectivos negros compareceram, e intelectuais, pesquisadores, nos quais eu me incluo, questionamos o conceito de Histórias da Escravidão. O que significa moldurar essa história, esse fluxo e refluxo, para usar uma expressão do Pierre Verger, apenas pelo viés da escravidão? O questionamento levou à expansão do time curatorial, à expansão da exposição e à troca do nome. Não a uma mera troca de nome, mas a uma reconceptualização.”

Nascido em 1986 e criado no bairro de classe média do Rio Vermelho (“o mesmo de Jorge Amado”, diz ele, sorrindo), filho de um advogado e de uma professora, Menezes aponta a influência mútua entre o que chama de “novas intelectualidades” e membros da elite intelectual, como a própria Lilia, professora na Universidade de São Paulo, curadora-adjunta de histórias do MASP e fundadora da influente editora Companhia das Letras, ou o diplomata Alberto da Costa e Silva, historiador que é um dos “imortais” da tradicionalíssima Academia Brasileira de Letras e foi agraciado com o Prémio Camões.

“De todos os lados, a gente vai-se influenciando”, celebra Menezes. “Antropólogos, historiadores, sociólogos, têm-se tornado permeáveis a construções intelectuais de fora da academia, a críticas trazidas por movimentos, activistas, intelectuais negros, feministas negras. A academia pode ser um pouco engessada, tem uma temporalidade distinta do tempo das discussões.”

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Tatewaki Nio

A influência mútua é visível na fala de alguns desses historiadores, que de pouco tempo para cá têm operado alterações subtis, porém significativas, numa terminologia que parecia já cristalizada. Em debates, Lilia, por exemplo, já não fala em “escravos”, mas em “escravizados”, termo cunhado na militância que chama a atenção ao ser empregado como substantivo, não mais como mero adjectivo. 

“Escravo é uma palavra que estamos mais acostumados a ouvir no debate público”, reconhece Menezes. “Quando se ouve ‘escravizados’, você tem um estranhamento. É uma mudança de conceito. Escravo é aquele que nasce, cresce e tem o destino predeterminado. ‘Escravizado’ traz em si o processo de transformação de uma pessoa nascida livre em escravo. Ninguém nasce escravo, não é uma condição permanente. As pessoas foram tornadas escravas, por isso ‘escravizadas’.”

Essa interlocução, rara hoje no Brasil, vem borrando as fronteiras que separavam produção universitária e activismo. “Somos todos do mundo académico. E eu próprio me considero um activista”, diz Menezes. “A seu modo, a Lilia é uma activista anti-racista. Figuras como Abdias Nascimento, Sueli Carneiro, Lélia Gonzales, Djamila Ribeiro, transitam entre academia e militância, militância e academia.”

O “acúmulo de discussões”, afirma ele, levou a uma revisão dos próprios museus, da composição dos acervos, das exposições e artistas que têm sido priorizados. “Ao mesmo tempo que o MASP e o Instituto Tomie Ohtake expõem Histórias Afro-Atlânticas, com artistas e colectivos que muito dificilmente entrariam nesses espaços de prestígio, a mostra Histórias Afro-Atlânticas expõe as instituições. Deixa-as expostas, as interpela: onde estão os negros nessas instituições? Como é formado o acervo do MASP? Por que a direcção é composta por X, Y e Z? Por que não a presença de certos corpos nesse espaço?”

Onde estão os negros? A pergunta está estampada na única obra que transitou entre os dois museus que receberam a mostra: uma bandeira de 16 por 9 metros, confeccionada pelo colectivo negro Frente 3 de Fevereiro. A bandeira já havia passado em frente ao MASP, durante a manifestação em protesto ao assassinato da vereadora negra carioca Marielle Franco, num crime ainda não solucionado que chocou o país. Agora, a convite dos curadores, cobria as imponentes fachadas do MASP e do Instituto Tomie Ohtake, na forma de uma “intervenção institucional”, como diz Daniel Lima, da Frente 3 de Fevereiro. “A pergunta que a gente propôs nessa bandeira se desdobra em várias outras: onde estão os negros na história da arte? Onde estão os que se reconhecem como negros na nossa sociedade?” Para o activista, a pergunta ressoa melhor sem respostas objectivas, permanecendo como um incómodo ponto de interrogação.

O facto é que com essas Histórias Afro-Atlânticas os negros começam, ainda que timidamente, a estar nesses espaços. Menezes assinala a grande quantidade de negros, sobretudo de bairros periféricos, que têm ido pela primeira vez aos museus, o que levou o MASP a franquear a entrada também às quartas, para desafogar as filas das terças, o dia de gratuidade no museu. A entrada não é cobrada no Instituto Tomie Ohtake.

“Portugal é absolutamente parte dessas Histórias Afro-Atlânticas”, diz Hélio Menezes. “Não se pensa Angola, Bahia, Rio, Havana, Porto Novo, sem Lisboa. São regiões conectadas por um Atlântico que não só criou Luanda, mas criou Lisboa a partir de Luanda.” O curador vê a antiga metrópole como um elemento ambíguo no imaginário brasileiro: “Boa parte de Portugal ainda se vê como tendo realizado uma colonização benéfica, como se a sua presença nas Américas tivesse sido um acto civilizatório. Não foi. Foi um acto bárbaro, de violência absurda. Portugal precisa rever a maneira como conta sua história, o Brasil precisa rever a maneira como tem contado sua relação com Portugal”.

Mas ele reconhece avanços nessa relação pós-colonial, citando a individual de Rosana Paulino, de São Paulo, no Padrão dos Descobrimentos, intitulada O Atlântico Vermelho. “Ora”, diz ele, “era uma exposição de uma artista negra, contemporânea, do Brasil, com obras de grande questionamento sobre as relações Brasil-Portugal, que encontrou espaço expositivo primeiro em Portugal. Em Dezembro ela vai receber uma individual em São Paulo, na Pinacoteca, mas recebeu visibilidade antes em Portugal. É muito sintomático e bonito que Portugal revisite a sua história pelos olhos do Brasil, entendendo, se deixando permear por reflexões vindas de suas ex-colónias. Esse é um caminho para uma longa e nova relação entre Portugal e Brasil, pautada em outros termos.”