Crítica

Um voyeur em lugar privilegiado

Alan Hollinghurst é um autor atento aos detalhes do mundo físico e das mentes das personagens.

Um escritor atento aos detalhes, sejam os que pertencem ao mundo físico, sejam os que estão alojados nas mentes das personagens
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Um escritor atento aos detalhes, sejam os que pertencem ao mundo físico, sejam os que estão alojados nas mentes das personagens PEDRO CUNHA/ARQUIVO

Em Outubro de 1940, enquanto a aviação de Hitler bombardeava a Grã-Bretanha com uma ferocidade inaudita, a 80 quilómetros de Londres, castigada pelas bombas inimigas, vivia-se, em Oxford, um tempo suspenso, de vazio e de expectativa. Os poucos alunos e professores que ocupavam os Colégios assemelhavam-se a fantasmas, sobreviventes de uma catástrofe sobre a qual não tinham controlo. É neste cenário que Alan Hollinghurst situa o primeiro dos cinco capítulos de O Caso Sparsholt, cuja trama se estende até 2012, cobrindo, assim, seis décadas de acontecimentos, não propriamente os que são noticiados nos meios de comunicação, mas aqueles que se insinuam na vida das personagens, determinando o seu rumo pessoal.  O tédio dos dias — as noites,  escuras devido ao blackout, propiciam misteriosas deambulações e encontros fortuitos — é quebrado pela chegada de um estranho, como acontece na grande tradição do género romanesco. David Sparsholt, muito jovem, atlético e belo, torna-se objecto de desejo de três amigos, que o observam e o cercam com uma avidez predatória, mascarada pelo embaraço e pelo mal disfarçado desejo.

“O elemento deles era a noite e o não-dito, com toda a sua repugnante ambivalência” (pág. 106), conta um deles, marcando o tom de toda a narrativa.  Os intervenientes são Peter Goyle, um artista intenso, sarcástico e ávido que se propõe pintar Sparsholt, Evert Dax, o filho inadequado e desajeitado de um escritor de bestsellers — Hollinghurst aproveita  para satirizar um certo tipo arrogante do que ele chama  “autores de trilogias” — que se apaixona por David, e o narrador deste capítulo, Freddie Green, possuidor da dose certa de hipocrisia irónica para descrever os acontecimentos, deixando entrever uns e obliterando outros. Todos pertencem a um “clube” informal que convida autores célebres para palestras de que desconhecemos o tema e todos eles — e os elementos das suas famílias — se irão cruzar uns com os outros, ao longo dos anos, num jogo de encontros e desencontros que constituirá o cerne da ação.

À chegada a Oxford, David Sparsholt é encarado como  um “caso” — mais tarde, em 1966, um ano antes da descriminalização do acto sexual consentido entre homens com mais de 21 anos , o Sexual Offences Act de 1967, haverá outro “caso” que envolverá um membro do Parlamento e um escândalo com prostitutos — mas não dá mostras óbvias de entender ser o exemplar perfeito da beleza masculina, o polo magnético  que atrai e perturba quem o rodeia.  Não possui a sofisticação dos novos amigos, estuda uma matéria pouco excitante (engenharia), está só à espera de fazer 18 anos para combater na RAF e tem uma namorada, Connie, com quem, saberemos mais tarde, irá casar, depois de sobreviver à Guerra e se ter convertido num rico homem de negócios.

Hollinghurst é um escritor paciente e atento aos detalhes, sejam os que pertencem ao mundo físico, sejam os que estão discretamente alojados nas mentes das personagens. O olhar é oblíquo, mas certeiro, fazendo, de quem o lê um voyeur que tudo observa a partir de um lugar privilegiado, embora nem sempre com visão clara e desimpedida.  Em O Caso Sparsholt existem muitas janelas, aberturas, ameias, fissuras, de onde é possível observar sem se ser visto, janelas iluminadas e obscurecidas, postos de observação que excitam a imaginação. A geometria dos colégios oxfordianos — com os seus pátios quadrangulares, os seus torreões, as vistas para dentro e para fora, para o relvado, para o rio, onde valorosos remadores, quais deuses gregos,  mostram os músculos, em toda a sua glória — é compatível com esta tenaz contemplação do mundo e das pessoas, seja nesse espaço, seja em Londres, no campo ou nas praias, onde os mais jovens passam os dias de verão, eternamente postos à prova, torturados pelo tédio e pelo desejo adiado.

Hollinghurst é o romancista dos romancistas, um autor a quem poderíamos chamar “clássico”, como o são Tolstói ou Stendhal. À semelhança destes, escreve histórias de amor e drama, sobre pessoas afectadas pela História, pela interferência na moral e nos costumes, marcadas pela arte e pela literatura, parte de uma constelação de seres pensantes e atuantes que não escapam aos revezes do tempo.  Evelyn Waugh, principalmente em Declínio e Queda (1928), a quem Hollinghurst vai buscar referências — e o próprio estilo — observou com verve e ironia cortante o declínio da sociedade e do modo de vida britânicos, no período entre as guerras. Fê-lo de um ponto de vista “conservador”, uma vez que a sua preocupação era direccionada para as classes altas, ao contrário, por exemplo, de George Orwell. Hollinghurst, que podemos situar algures entre os dois, alude directamente a Waugh no primeiro capítulo, mas passa para um registo mais “jameseano” no resto do romance, como fez questão de mostrar em obras anteriores como A Linha da Beleza (2004), onde foca a tumultuosa e desastrosa “era Thatcher” e o aparecimento da Sida, com a crueza nostálgica e meticulosa de Henry James. Em A Biblioteca na Piscina (1988) centra a acção na Londres gay dos anos 80 do século passado, mas com uma alusão directa ao movimento decadente e esteta dos anos 80 do século XIX e aos seus representantes mais marcantes, como Oscar Wilde, Ronald Firbank e até Proust, influência óbvia em The Folding Star (1994).  Recorde-se que, no seu anterior romance, O Filho do Desconhecido (2011), a acção também cobre um período que se estende desde as vésperas da Iª Guerra até 2009, com referência especial aos poetas de 1914-1918, como Rupert Brooke, Wilfred Owen e Siegfried Sassoon.

O poema Diz-me a Verdade acerca do amor de W. H. Auden, (“Há quem diga que o amor é um rapazinho/ E quem diga que ele é um pássaro; /Há quem diga que faz o mundo girar, /E quem diga que é um absurdo, (…) “ ) poderia servir como resumo deste romance. Enamoramento, sedução, sexo, decepções, as questões do corpo masculino — quando, por exemplo, um dos amantes é mais velho do que o outro —, escândalos políticos e sexuais, encobrimentos, fertilização in-vitro, amor e amizade, relações familiares e a alteração dos códigos sociais, principalmente a partir dos anos 70 do século XX, preenchem as páginas desta saga,  na qual Hollinghurst se empenha a fundo para ponderar sobre os as relações humanas.

O Caso Sparsholt — o nome de David e do seu filho Johnny contém a pouco lisonjeira e popular palavra arsholt (ou asshole) —   é um clássico da literatura gay e queer, como aliás todos os outros romances do autor, uma extensa e perfeita caracterização de um tempo e dos que o habitam. O autor preocupa-se em mostrar como os acontecimentos históricos acompanham, influenciam e atravessam, pungentemente as vidas privadas e os sentimentos de cada um, determinando também o rumo da criação artística, da estagnação ou revitalização das artes plásticas e da literatura.