Crítica

Resistir ao vazio

Um romance inteligente que confunde o real e o imaginário de maneira a interrogar ambos.

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Shevuan Williams

A escritora e ensaísta Dubravka Ugresic (n. 1949), nascida numa vila da antiga Jugoslávia (numa região que actualmente pertence à Croácia), é uma das vozes mais originais e eruditas da literatura da Europa Central — nomeada em 2009 para o International Man Booker Prize e em 2016 recebeu o Neustadt de Literatura (para alguns uma espécie de ante-câmara do Nobel) — deixou a Croácia em 1993 (depois de anos a ensinar literatura russa e as suas vanguardas na Universidade de Zagreb), e isto porque foi acusada pelo poder, no Parlamento e na imprensa, de “bruxa, puta e traidora”; tudo isto devido às críticas assertivas e irónicas que fez, entre outros, ao regime autoritário e nacionalista de Tudjman e às causas da Guerra dos Balcãs.

A mestria técnica de Ugresic é uma das suas características mais notadas, ao conseguir juntar, por exemplo, subtis intertextualidades (conhece bem as tradições literárias e filosóficas europeias) com diálogos assertivos que iluminam sátiras corrosivas; ou como consegue fazer uso do seu sentido de observação para os detalhes sócio-culturais. A complexidade do seu pensamento é expressa com uma simplicidade tocante. A estrutura dos romances é quase sempre episódica, resultando numa acumulação de partes narrativas e de polifonia de registos, num patchwork em construção. Raposa não difere deste modo narrativo.

Antes da desagregação da antiga Jugoslávia, Dubravka Ugresic — que estudou e ensinou literatura russa e as suas vanguardas — escreveu, numa espécie de exercícios de ironia paródica, romances cómicos e arremedos pós-modernistas de histórias românticas com um final feliz. Mas veio a Guerra dos Balcãs e os tempos mudaram: foi obrigada a deixar o ensino em Zagreb, e depois de ter passado por várias “residências artísticas”, e se ter fixado em Amesterdão, tornou-se numa autora mais “séria”, passando a escrever (alternando entre a ficção e o ensaio) sobre o exílio, a vida de escritor, os nacionalismos, ou a imposição arbitrária de fronteiras e de identidades.

Em português tinha até agora dois livros traduzidos: Museu da Rendição Incondicional (Cavalo de Ferro, 2011) — brilhante e ambicioso exercício reflexivo sobre a poética do exílio, tendo sempre a memória como metáfora da possibilidade de reconstrução da vida e do passado — e Baba Yaga Pôs Um Ovo (Teorema, 2010) — um romance originalíssimo baseado na figura mítica de uma bruxa do folclore eslavo, e que Ugresic transpôs para o nosso tempo, servindo-lhe de lente para um olhar sobre a feminilidade e o envelhecimento, a sexualidade, o amor e os seus segredos. Curiosamente, neste Raposa também recorre ao folclore e ao simbolismo dos seus arquétipos. É sabido que o campo simbólico da raposa (apesar das diferenças de substracto cultural) pressupõe a astúcia, a perfídia, a artimanha, a mentira, a hipocrisia, a duplicidade, o egoísmo, a luxúria, a reclusão. E Dubravka Ugresic interroga-se ao longo de toda as partes do romance: “A raposa é o totem do escritor?” Talvez por isto afirme: “A vida literária só é interessante quando estamos à nossa secretária, entre quatro paredes. Tudo o resto evoca um sentimento de derrota, tanto humana como profissional.”

Na primeira parte do romance — que é dividido em seis — titulada Uma História Sobre Como as Histórias Se Tornam Matéria Escrita, é aquela onde mais se define a afinidade entre o escritor e a “raposa aldrabona”: a autora parte de um conto do escritor russo Boris Pilniak (1894-1938) — e conta histórias adjacentes, aparentemente reais, à história narrada nesse conto (também se acredita que verídica). Algumas das histórias chegam misturadas com elementos autobiográficos — a autora estudou, nos anos 1980, em Moscovo, tentando escrever uma tese de mestrado sobre Pilniak — tornando a ficção em auto-ficção, recorrendo a alguns truques do pós-modernismo. Enquanto narra parte da história escrita por Pilniak em 1926 (baseada, em parte, numa suposta autobiografia da personagem), Ugresic fala da Moscovo dos anos 1980, um tempo em que “as pessoas não alimentavam expectativas nem tinham quaisquer esperanças”. E depois interroga-se: “Estarei a contar uma história sobre o conto de Pilniak ou uma história sobre mim mesma?”

Erudita e inteligente, Dubravka Ugresic confunde o real e o imaginário de maneira a interrogar ambos. Assim, nas partes seguintes, a viúva de um escritor recria o seu legado, criando na realidade as ilusões que o marido criara na sua obra. Chegando-se a uma possível existência de um último romance desse escritor, mas que na verdade parece existir apenas na memória de outros escritores que com ele privaram. Pelo meio surgem referências, por exemplo, a Bulgakov e a Nabokov e a episódios das suas biografias. Desta maneira a História da Literatura começa a fazer parte da própria literatura, a confundir-se com a ficção.

Os temas habituais de Ugresic surgem mais uma vez: o exílio, os nacionalismos, a reabilitação da História, o modo de vida do escritor, e o mercado cultural da arte. Sobre este último: “Os festivais literários que hoje temos não são assim tão diferentes das feiras rurais medievais, nas quais os visitantes caminhavam de tenda em tenda, passando do espectáculo dos engolidores de fogo para o dos malabaristas. Actualmente, os escritores já não aborrecem o seu público com uma leitura; hoje em dia, actuam.”

Em Raposa, a autora croata parece querer reivindicar uma maior veracidade para a magia da literatura, a que nos ajuda a resistir ao vazio.