Opinião

Além do som e da fúria. Consistência, compromisso e competitividade no ensino superior

Os sucessos dos últimos 50 anos demonstram afinal que planear o futuro é para a Universidade Católica Portuguesa uma matéria com muito passado.

O ensino superior em Portugal vive o tempo do som e da fúria, cindido entre políticas públicas de boas intenções e a escassez de meios para fazer face a esses compromissos. Entre o narcisismo das pequenas diferenças e o barulho mediático da feira das vaidades institucionais, que frequentemente impede uma verdadeira política de colaboração, a imagem pública aparece demasiado acantonada à gestão do financiamento face a um abundante e alargado caderno de encargos gerido pelo Estado.

Ao mesmo tempo, envolvida numa teia que, de novo, transforma a boa intenção de garantir a qualidade através de processos de acreditação transparentes, num pesadelo burocrático, parece exigir-se à universidade o reforço de uma tendência de padronização que é afinal a negação do que a universidade deve ser: uma instituição nuclear da capacitação do país, que forma cidadãos, profissionais e indivíduos cientificamente capazes e eticamente responsáveis, a partir de uma proposta de valor própria, de uma identidade distintiva. Só assim é possível aos estudantes fazer uma escolha que seja determinada pela identidade do curso e a proposta científico-pedagógica da instituição e não pela comodidade geográfica. Nada disto está infelizmente na ordem do dia. Se não em espírito, de forma evidente na prática, a universidade emerge como fábrica de saber, massificada, com outputs idênticos, geridos por um processo de acreditação que aposta na semelhança e não na distinção. Neste sistema, quer-se porventura fazer crer que a universidade é estatal ou não é.

Todavia, além do bramido do som e da fúria, e como realidade apoiada na sociedade civil, a Universidade Católica Portuguesa tem justamente demonstrado que é possível um projeto de grande qualidade académica e científica não-estatal, regido pelos princípios de desenvolvimento que estruturam o sistema científico nacional, mas com um perfil de singularidade e inovação.

Quarta universidade criada em Portugal, por via de um tratado de Direito Público Internacional assinado entre o Estado português e a Santa Sé, a Universidade Católica Portuguesa é atualmente a única universidade católica europeia sem qualquer apoio do Estado, que cresceu como grande projeto apoiado pela sociedade civil, reconhecida pelo seu contributo distintivo de serviço ao país, à educação e à ciência. Por identidade e posicionamento, tem sido pioneira na criação de formações inovadoras. Criou o primeiro curso de Administração e Gestão de Empresas, a primeira escola de Biotecnologia do país – em 1983 -, internacionalizou o ensino do Direito ao fundar a Global School of Law. Foi a primeira universidade portuguesa a fazer o caminho para a acreditação internacional, a posicionar-se e a liderar em rankings de especialidade em Economia e Gestão (FT), e continua a inovar, tendo atraído este ano para Portugal o maior investimento privado para investigação translacional em Biotecnologia, num projeto de interesse estratégico nacional de 47 milhões de euros.

Recorda Franco Nogueira, na sua biografia de Salazar, que este não olhou com bons olhos a criação desta universidade à margem do ‘projeto de Educação Nacional’. A autonomia afinal sempre foi um problema da pulsão normalizadora dos sistemas fortemente estatizantes. Ao celebrar 50 anos de vida, o impacto social, cultural e económico da UCP na sociedade portuguesa é reconhecido, porque a Católica não hesitou quando era necessário fazer diferente e inovar. E também porque o fez com qualidade, foi consistente e assumiu com clareza o compromisso da qualificação da sociedade, do apoio às famílias e de cooperação estratégica com o sector empresarial. Com ‘gradualidade prudente’, como lhe foi recomendado no ato de fundação, a UCP estabeleceu-se como universidade nacional, em Lisboa, Braga, Porto e Viseu, de forma a servir também o interior, agindo para qualificar o território, atraindo talento e fomentando o conhecimento. De acordo com os dados apurados no estudo de impacto Cató[email protected], elaborado pelo CESOP (1), a universidade teve nas suas 5 décadas de existência um impacto direto acumulado na economia portuguesa de 18 mil milhões de euros, e ultrapassa atualmente os 600 milhões de euros por ano.

Esta proposta diferenciada que cria valor com valores, não assenta numa visão da universidade como fábrica, mas sim como estúdio, que se desenvolve em torno da singularidade criativa. Não trabalha para ser igual, mas dá prioridade à diferença nas escolhas estratégicas que faz, na aposta na inovação, no apoio à criatividade nas suas 15 faculdades. O estúdio é onde se explora o horizonte a vir, é um espaço de experimentação, onde se planeia o futuro através do fomento de um modelo de desenvolvimento científico baseado na resolução de problemas e no diálogo interáreas.

A singularidade da UCP no sistema de ensino superior português demonstra a força e a competitividade de um projeto da sociedade civil e da Igreja, feito para educar mulheres e homens científica, cultural e eticamente aptos, intervindo na consolidação de sociedades democráticas, trabalhando para construir comunidades abertas e inclusivas, combatendo o que Virginia Woolf chamou a ‘ignorância segura dos especialistas’, a favor de uma especialização inclusiva, que potencia o diálogo entre os saberes. Uma universidade empreendedora e cientificamente capaz, competitiva num horizonte que não se esgota no plano nacional, soube posicionar-se com autonomia além do som e da fúria. Os sucessos dos últimos 50 anos demonstram afinal que planear o futuro é para a UCP uma matéria com muito passado.  

 

[1] Centro de Estudos de Sondagens e Opinião da Universidade Católica Portuguesa.