Megaprojecto para Alcântara começa a ganhar forma

Começaram as demolições da antiga fábrica da Sidul, em Alcântara, que tem numa das paredes uma obra de Vhils. Naqueles terrenos, junto à Lx Factory, vão nascer dois edifícios para escritórios e habitação, num investimento que será “bastante superior a cem milhões de euros”.

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Miguel Manso

A antiga fábrica da Sidul era um dos últimos exemplares do complexo industrial que um dia definiu a paisagem de Alcântara. Escapou às demolições que ocorreram nos anos de 2003 e 2004, mas agora, este imóvel da Avenida da Índia — onde inclusive o artista plástico Vhils quis deixar numa das suas paredes um resquício de memória colectiva da cidade —, está a ser demolido, sendo o ponto de partida para um megaempreendimento que ali nascerá.

Para já, vai avançar a construção de dois edifícios destinados a escritórios e habitação, pela mão do grupo SIL e da consultora imobiliária francesa BNP Paribas Real Estate, cujos trabalhos acompanharão também a construção no novo hospital CUF Tejo que, ali ao lado, tem já grande parte da estrutura erguida. 

Depois das demolições, começaram a surgir planos para ocupar estes terrenos devolutos: a primeira surgiu do gabinete do arquitecto Álvaro Siza, em finais de 2003 e previa a construção de três torres com 105 metros de altura – mais altas que o tabuleiro da ponte 25 de Abril. Só que o projecto foi alvo de grande contestação, inclusive por alguns vereadores da câmara de Lisboa, que era à data presidida por Pedro Santana Lopes, e acabou por ser abandonado. 

Acabou substituído por outro do arquitecto Mário Sua Kay que previa a manutenção das antigas instalações fabris da Sidul, que estão agora a ser demolidas, mas que foi também abandonado. 

O empreendimento que será ali erguido terá cerca de 72.000 metros quadrados. Serão construídos dois edifícios de escritórios, cujo projecto de arquitectura está a cargo do gabinete do arquitecto Miguel Saraiva, que o BNP ocupará com cerca de três mil novos postos de trabalho, explicou ao PÚBLICO, por escrito, Pedro Silveira, presidente do grupo SIL. O restante será destinado a habitação com a construção, numa primeira fase, de cerca de 70 apartamentos. No total serão cerca de 270. “As fases seguintes de habitação serão lançadas quando atingirmos 70% de vendas das fases de habitação em curso”, notou.

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Fotomontagem do projecto desenvolvido pelo gabinete do arquitecto Miguel Saraiva DR

Na descrição que é feita pelo gabinete do arquitecto no site do projecto lê-se que os dois edifícios serão unidos por uma pala. Terão oito andares. O piso térreo será destinado às áreas comuns e de apoio, sendo encarado "como uma área de permeabilidade ao espaço público envolvente". Os restantes pisos poderão ser transformados em open space ou em espaços autónomos subdivididos em gabinetes, salas de reunião, zonas técnicas e de apoio logístico ou operacional. 

Sem adiantar valores exactos, Pedro Silveira diz que o investimento será “bastante superior a cem milhões de euros”.

Este projecto inclui-se no Plano de Urbanização de Alcântara que prevê para aquele quarteirão, onde também se inclui a LX Factory, "grandes operações urbanísticas".

Pedro Silveira diz que o projecto que ali está a nascer está a ser desenvolvido, "não só em articulação, mas em co-gestão de obras de infra-estruturas" com todos os proprietários que integram a mesma da unidade de execução, definida no Plano de Urbanização de Alcântara: LX Factory (que foi vendida no ano passado pela sociedade portuguesa Mainside ao grupo francês Keys Asset Management, especializado em imobiliário comercial), Santa Casa de Misericórdia de Lisboa e a imobiliária Stonewise. 

O grupo SIL tem ainda outro megaprojecto para a Cruz Quebrada, perto da foz do rio Jamor, que se arrasta há vários anos. O projecto Porto Cruz, que tem sido amplamente contestado, tem prevista a construção de uma marina, um hotel, uma zona comercial, escritórios e também habitação, para uma zona que é considerada pelos críticos do projecto o "pulmão verde" da cidade. O investimento está estimado em 250 milhões de euros e Pedro Silveira espera vê-lo lançado em 2019.

De Alcântara ao Oriente

Não é só na parte ocidental da cidade que a frente ribeirinha está a mudar de paisagem. No caminho até ao Parque das Nações, está já a andar o projecto que o arquitecto italiano Renzo Piano desenhou há 20 anos para a zona de Braço de Prata, e que prevê a construção de 499 apartamentos, num investimento que deverá rondar cerca de 450 milhões de euros. A reboque desse investimento privado, a autarquia tratará de transformar a área envolvente num jardim que terá quase 90 mil metros quadrados. O Parque Ribeirinho Oriente, assim se chamará, custará aos cofres do município 3,85 milhões de euros.