Nelson Motta: “Escrevo para divertir e emocionar as pessoas, esse é o meu único objectivo”

O livro Força Estranha, do escritor e compositor brasileiro Nelson Motta, é lançado esta sexta-feira em Lisboa, numa conversa entre o autor e José Eduardo Agualusa. Na Ler Devagar, às 18h30. Entrevista, com o Brasil ao fundo.

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Nelson Motta em Lisboa RUI GAUDÊNCIO

Oito anos depois da sua edição no Brasil, chega a Portugal o livro Força Estranha, de Nelson Motta, com edição da Chiado Books. Compositor, escritor, jornalista, letrista e produtor musical, nascido em São Paulo (em 29 de Outubro de 1944) mas ligado ao Rio de Janeiro desde a infância, dizendo-se por isso “um falso carioca”, Nelson já tem um lote considerável de livros editados. Desde memórias ligadas à música (Memória Musical, 1990; Noites Tropicais, 2000; 101 Canções Que Tocaram o Brasil, 2016) ou ao desporto (Confissões de Um Torcedor, 1998; Resenha Esportiva, 2014) até roteiros de viagem (Nova York é Aqui, 1997), biografias (Vale Tudo – O Som e a Fúria de Tim Maia, 2007; e A Primavera do Dragão, este sobre o cineasta Glauber Rocha, 2011) e romances. Aqui, começou com O Canto da Sereia, em 2002 (que já deu minissérie televisiva no Brasil, com “um sucesso espectacular”, diz ele) e prosseguiu com Bandidos e Mocinhas, em 2004, e Ao Som do Mar e À Luz do Céu Profundo, 2006 (“Talvez seja o meu melhor livro”, comenta).

O sucesso da biografia de Tim Maia, cantor e compositor de voz possante que deixou a vida demasiado cedo (1942-1998), empurrou Nelson para escrever um quarto romance: “Mas não tinha uma ideia boa para um romance, tinha várias histórias que ia anotando. Até que olhei e disse: ‘Tenho um livro de contos’. Com medo, porque o conto, a síntese, é mais difícil.” Acabou por ser um desafio. “E muito prazeroso também, porque eu tinha esses esboços de histórias e tinha a ideia de misturar coisas da minha vida pessoal com histórias que ouvi e com pura ficção. Foi esse mix que me tranquilizou um pouco.”

Assim nasceu Força Estranha, um entrelaçado de contos que desagua num romance. Porque várias personagens das oito primeiras histórias, aparentemente soltas e sem ligação entre si, acabam por se cruzar na nona história, desvendando-se o mistério do seu aparecimento no décimo e último capítulo do livro. “À medida que fui escrevendo, fui dando essa forma, já prevendo isso.” Mas se há coisas no livro que são decalcadas da realidade (o assalto de “Noite quente em motel barato” existiu mesmo, só que não foi assim; a sogra que vai viver maritalmente com o genro em “Felizes para sempre” também se baseia num caso real), outras são totalmente inventadas. Como o Jonas contador de histórias que surge no final, na paradisíaca Boibepa. “Mandei esse final para as minhas duas editoras, a editora literária e a da Folha de São Paulo, e elas acreditaram completamente: ‘Quem é esse cara?’, ‘Onde ele está?’, ‘Morreu?’”

Como poemas urbanos

“Escrevo para divertir e emocionar as pessoas, esse é o meu único objectivo”, diz Nelson. Por isso preocupa-o agarrar logo o leitor. “Acho que um livro tem de abrir com uma frase forte. E este abre com ‘o abandono é uma merda’ [no conto “O cavalo”]. Quem ler vai continuar. Foi uma dor de corno que vivi, com essa intensidade, fiquei louco, embora tenha saído dela de outra forma.” No livro, o sujeito recorre ao candomblé, meio que Nelson conhece bem. “Gosto muito, são casas da paz, gosto dos rituais, acho bonito. E sempre tive curiosidade de saber o que acontece quando uma pessoa incorpora uma entidade. Pesquisei muito e concluí: nada explica o transe!” Em Nova Iorque, onde viveu quase dez anos, Nelson frequentou uma igreja baptista, no Harlem. “O pastor vai falando, como num rap, e umas mulheres saem dançando igual ao candomblé.” Um dia perguntou ao pastor que entidade aquelas mulheres recebiam. “A resposta foi: ‘O Espírito Santo, meu filho.’ É um espírito que gosta de dançar.”

O título do livro, Força Estranha, vem de uma canção que Caetano Veloso escreveu para Roberto Carlos (para este, tal “força estranha” será Deus). Mas só no final, já com o livro escrito, Nelson Motta se lembrou dele. Escreveu a Caetano (“somos muito amigos há muitos anos”) e disse: “Caê, posso samplear o seu título para o meu livro? E ele falou: ‘É uma honra.’ Foi um anjo.” Mas a força estranha ganha no livro um outro sentido. “É o que engendra essas histórias todas, que se resolvem no final, dando uma coisa completamente imprevista. É um final surpreendente, que ninguém imagina.”

Capa e contracapa do livro glosam a imprensa sensacionalista, em títulos flamejantes como “Filho faz filme erótico sobre a vida da mãe!” ou “Pai e filha no motel assaltado, cada um com seu amante!”. “Sempre gostei muito de jornais sensacionalistas, vejo essas manchetes brutais como poemas urbanos. É uma linguagem superdirecta.” Uma das histórias, aqui sintetizada como “Filha vira cafetina [dona de bordel] para chantagear o pai”, vem de um sentimento antigo de Nelson: “É fruto do meu ódio aos políticos de Brasília. Escrevi isso na esperança de que alguém achasse uma boa ideia e dissesse: ‘vou fazer’. É um conto intensamente político, terrorista [risos].”

De Lula ao “troglodita”

E é em Brasília, hoje, que se centram as atenções do mundo. “Tenho 73 anos, passei por tudo (golpe militar, 20 anos de ditadura, plano Collor), mas nunca vi esta exacerbação”, diz Nelson. “O PT teve um início brilhante, todo o mundo gostava porque era para ser diferente dos outros. E quando apareceu o Lula, mais ainda. Votei Lula da primeira vez, tudo se animou ali. Mas no poder o PT começou a se destruir, a agir igual ou pior do que os partidos velhos.” A chegada de Dilma ao poder, pela mão de Lula, foi para Nelson Motta “um desastre total”. “O Lula foi muito moderado, nunca foi comunista nem de esquerda, é um social-democrata, malandro, um génio político. A Dilma não, era guerrilheira, comunista radical nos anos 60, é autoritária e ignorante. E resolveu trocar completamente o sistema económico no Brasil. Gastou que nem uma louca para se reeleger e o preço da reeleição dela foi o Brasil dividido ao meio”. Que continua.

Que saída haverá? “O Haddad foi um óptimo prefeito de São Paulo, é o melhor quadro do PT. Bolsonaro, um ex-capitão que foi expulso do exército, completamente ignorante, é fruto do ódio ao PT. Metade do Brasil odeia o PT, essa é a situação dramática. Eu detesto o PT, para mim seria a pior coisa do mundo o PT voltar ao poder, porque vai aplicar de novo o que já deu errado. Se o Haddad fosse candidato de outro partido, ganharia até talvez no primeiro turno.” O dilema dos eleitores, para Nelson Motta, é este: “Vou votar nesse troglodita do Bolsonaro ou vou trazer o PT de volta ao poder?” E isso condena o Brasil a eleger o “troglodita”? “Acho que estamos condenados, sim. A minha esperança é que ele tente uma conciliação, que amenize as coisas, porque há muita provocação, muita guerra. Mas o PT de volta não trará nada de bom.”

Regresso a Dancing Days

Voltando aos livros: “Estou louco para escrever um outro livro agora, mas tive muito trabalho: já fiz quatro musicais de teatro, de lá par cá, todos muito bem-sucedidos. E quero trazer um para cá [para Portugal]. Esse que está em cartaz agora, e que é sobre a discoteca Dancing Days [título de uma canção co-escrita por Nelson Motta e também de uma telenovela que foi exibida na televisão portuguesa]. Fizemos uma peça sobre os quatro meses que essa discoteca durou, em 1976. É o maior sucesso da minha carreira.”

Sucesso que é visto com outros olhos, ávidos de felicidades, no Brasil de hoje. “São aquelas músicas maravilhosas da era ‘disco’ brasileiras e internacional, Donna Summer, Chic, James Brown, as Frenéticas. E foi muito bom agora, porque nesse clima horroroso que está no Brasil, muita gente chora. Não tem nada pra chorar porque é tudo alegre, tem happy end e tudo, mas a coisa está tão feia que você entra naquela sala e, por uma hora e meia, é transportado para uma época de alegria e felicidade que não há mais. O público fica cantando bastante depois, porque a seguir vai voltar para a escuridão. Na verdade, o facto de o clima externo ser tão ruim torna a peça até melhor do que ela é.”

Nelson Motta está também a escrever o guião para um filme biográfico sobre Roberto Carlos. “Ele me chamou para escrever o roteiro do filme da vida dele. Já fiz a minha parte, praticamente. Agora o resto, sabe Deus! Conheço o Roberto desde que ele chegou ao Rio, somos amigos, gosto muito dele pessoalmente, mas é uma ‘força estranha’.”

Já o livro 101 Canções Que Tocaram o Brasil deu origem a uma série de 13 programas de televisão. “Muito lindo! Vai entrar agora, no início do ano que vem. Já está quase pronto, tudo gravado, programas de meia hora com 6 a 7 músicas cada. Na televisão é muito melhor, porque se pode tocar as músicas, mostrar imagens, o contexto da época. É uma história do Brasil do século XX, que mostra como o sentimento brasileiro vai mudando, da maestrina Chiquinha Gonzaga até ao rap brasileiro, que é muito bom.”

“Bobagem”, a nova ortografia

Quem ler, mesmo com menos atenção a pormenores, o livro Força Estranha, vai notar que há palavras sem acentos, a par de outras semelhantes que são acentuadas. Exemplo, numa mesma frase: “remediá-las” (acentuada) e “cura-las” (não-acentuada). Ou “você” sem acento (“voce”). Já “côro” e “idéia” surgem acentuadas, respeitando a ortografia brasileira pré-acordo de 1990, mas “Polónia” e “chinês” não (“Polonia”, “chines”). A isto, Nelson Motta responde que não foi de propósito: “Foi erro mesmo. Na verdade, eu achei uma bobagem esse negócio da nova ortografia, não faz o menor sentido. Vão adaptar o Eça de Queiroz, o Camilo Castelo Branco, o Jorge Amado? O que foi escrito antes está errado e agora é que vem o certo, por causa de alguns burocratas? Continuo escrevendo do meu jeito. A revisão que se vire. Então, são certamente erros de revisão.”