Crítica

O poeta e a publicidade

O franco-americano Eugène Green reencontra a essência do seu cinema austero e escarninho com um delicioso “mini-filme” bem mais conseguido que muitos grandes filmes.

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“Primeiro estranha-se, depois entranha-se” — o slogan que Fernando Pessoa terá inventado para a Coca-Cola numa primeira tentativa falhada de introduzir a “água suja do imperialismo” em Portugal pode aplicar-se na perfeição a uma miríade de realizadores do circuito de festivais que são, na prática, “gostos adquiridos”. Um dos casos mais radicais é Eugène Green, americano longamente radicado em Paris e devoto da cultura clássica europeia, cujo cinema austero, seco e pontualmente escarninho começou por nos seduzir em obras mais excentricamente radicais como Le Monde vivant antes de nos perder definitivamente com a sua ode de cartão postal turístico a Lisboa e a Oliveira, A Religiosa Portuguesa. No entanto, este novo “mini-filme” de 30 minutos, estreado em complemento de 9 Dedos de F. J. Ossang, reencontra a ironia sardónica dos nossos Green preferidos numa homenagem muito mais conseguida ao mestre Oliveira do que A Religiosa Portuguesa, ao mesmo tempo que continua a lançar as suas farpas à massificação cultural (como se diz a certa altura, “o gosto cultural forma-se”).

É a história de como o senhor patrão Moitinho de Almeida encarrega o seu poeta escriturário Fernando Pessoa de criar um slogan para lançar a nova bebida, enfurecendo as autoridades ministeriais e religiosas do Estado Novo e levando a exorcismos e proibições e interdições que, vai-se a ver, salvarão Portugal da colonização cultural (“das suas derrotas nasce a luz de Portugal”). Continua a haver sebastianismo, fado, pitoresco, turístico, mas há também (e isto é muito importante) humor, piscadelas de olho, um burlesco quase keatonesco perfeitamente transmitido por um elenco em estado de graça, com Carloto Cotta impecável como Pessoa e um Manuel Mozos a confirmar como pode ser grande actor no papel do senhor patrão. E assim Fernando Pessoa salvou Portugal e Eugène Green reencontrou a essência do seu cinema; é um “mini-filme” bem mais conseguido que muitos filmes a sério.