Opinião

Praxes violentas e praxes voluntárias: do Meco à Serra da Estrela

Aos estudantes pede-se, urgentemente, consciência cívica – sem isso não se fará a cidade, a República.

Depois da tragédia do Meco houve uma reacção da sociedade civil e de entidades responsáveis (reitorias, alguns políticos, algumas instituições), tentando-se, com intervenções pontuais e no calor do que acabava de suceder, consciencializar os diversos agentes educativos quanto à violência das praxes académicas e a concomitante desresponsabilização de quem poderia agir de facto. Como é uso em Portugal, país de memória curta, depois de se chorarem as vítimas, o tempo fez o seu trabalho e a indigência cultural a que chegamos fez o resto. Com maior ou menor visibilidade, com mais ou menos espaço mediático (conforme a sazonal hipocrisia com que se trata este e outros assuntos), lá foram regressando, com pezinhos de lã, as praxes, esse modo digníssimo de integrar o aluno vindo do secundário na comunidade de "veteranos", em regra, os que frequentam, com "saber de experiências feito", os 2º em 3º anos…

A recente queixa de um aluno do curso de biomédicas da Universidade da Beira Interior (UBI), alvo de praxe violenta na Serra da Estrela, apenas confirma o que, por esse país académico, continua sendo prática reiterada: as praxes como forma de integração são, no fundo, modos insidiosos de exercer sobre o outro o sadismo que, cada vez mais, é uma forma de ser e estar na sociedade portuguesa.

Com efeito, se virmos bem, no dia-a-dia, sadicamente tudo se relativiza. Sendo certo que na vida nada se pode absolutizar, o relativismo como absoluto é uma forma de ditadura. No tempo dos números e das estatísticas, devem-se relativizar os sinais óbvios da degradação dos valores por que se regem os alunos que estão hoje na Universidade? O dito “espírito académico” não se sobrepôs, afinal, ao desejável espírito científico? Sem absolutizar questões de ética, já que tudo é relativo, pergunte-se: Em que se baseia esse espírito? Nas praxes e nos comportamentos associados: do álcool desenfreado às inocentes brincadeiras em praias e serras. E de que valem as estatísticas que confirmam o cada vez maior número de vítimas (com morte, em muitos casos) se, para umas coisas as estatísticas são um absoluto e para outras, o que evidenciam é relativo? O que vale, com ou sem estatísticas, é que é tudo em nome da integração. Dirão muitos que há "praxes voluntárias", mas pergunto-me se nessa ambígua expressão não se esconde um problema que, queiramo-lo ou não, é um problema de carácter: o que pensa e sente aquele que voluntariamente se dispõe a ser praxado? Na pior das hipóteses é um canditado a torturador, que a veterania requintará; na melhor das hipóteses é alguém acrítico, alguém para quem lhe dá igual ser praxado, ser humilhado, ou ser “integrado” ou ver o outro sofrer.

 Ora, a recepção aos mais novos deveria pautar-se pela salutar convivência; convivência sobretudo com os livros que se aconselham nas bibliografias que os professores facultam nos primeiros dias de aulas e que poderia motivar conversas interessantes, necessárias... Aproveitando a natural curiosidade dos ditos “caloiros” (que infeliz nome…), não se poderia, com humildade, transformar a Universidade num espaço onde os estudantes mais velhos e mais novos convidariam personalidades da própria instituição que frequentam para fazer a história do Curso?

Nunca como agora se impôs com tanta urgência explicar o Como, o Quando, o Porquê, o Quem e o Para quê às gerações mais jovens. Como se estuda? Como se deve articular este com aquele saber, esta com aquela matéria dos currículos? Quando aconteceu dada descoberta? Quando se passou, em que contexto se viveram determinados eventos culturais, sejam da ciência ou de outras áreas e que tiveram consequências no pensamento social, na intervenção política, na formação disso a que chamamos “cultura”? Por que razão este ou aquele facto científico se relaciona com determinada evolução da tecnologia, por que razão ser-se estudante de gestão não implica a insensibilidade para a História e a Memória? Quem foram Bento de Jesus Caraça, Ricardo Jorge ou Alfredo Bruto da Costa? Sabia-se que Jorge de Sena foi engenheiro de formação? Para quem estuda medicina não fará todo o sentido ler o que escreveram Miguel Torga ou Fernando Namora (Retalhos da Vida dum Médico)? E aos estudantes de Biologia ou de Neurologia faria assim tão mal conhecer a poesia de Carlos de Oliveira ou ler José Cardoso Pires? Prega-se, aqui e ali, em reformas do Ensino a interdisciplinaridade, mas a ausência de referentes histórico-literários e histórico-culturais, a minimização da educação para a arte e pela arte, tudo isto que tem vindo a ser a absolutização duma mentalidade técnico-gestora está a ter as suas consequências. Só não vê quem não quer.

No deserto de ideias de que se faz tanta política, no império do lugar-comum que é hoje a maioria dos mass midia, quando reina a confusão sobre factos da História, sobre quem é quem, sobre o para quê das coisas da res publica e a superficialidade é tida como sinal de boa-disposição ou "espírito proactivo e dinâmico" (porque se ri muito, porque se pode fazer chiste com tudo), que nos resta? Esperar que, depois da tragédia do Meco e de mais esta praxe na Serra da Estrela, reitores e dirigentes associativos, governantes e demais responsáveis da educação e da cultura, percebam, em definitivo, que a Universidade não pode ser o lugar onde germinam o neo-fascismo e a tirania. Sim, no fundo, é disso mesmo que se trata: Seja na UBI ou na Alameda da Universidade, em Lisboa, seja em Coimbra e no Porto, é disso que se trata, da reprodução de comportamentos que julgávamos terem desaparecido. Aos estudantes pede-se, urgentemente, consciência cívica – sem isso não se fará a cidade, a República.