Opinião

Todos temos o preconceito da loucura

A doença mental é um ponto de chegada, jamais é um ponto de partida, o que é uma excelente notícia porque através da prevenção podemos combater esta epidemia silenciosa que afecta 700 milhões de pessoas em todo o mundo, fazendo um verdadeiro investimento na vida de todos nós.
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Kristina Tripkovic/Unsplash

As epidemias silenciosas tendem a ser as mais mortais. Não as vemos, não as cheiramos, apenas sabemos que existem, até que assombram as nossas vidas através de um familiar, de um amigo ou de nós próprios. E isto molda a forma como julgamos a realidade.

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Sabemos que um preconceito é um juízo pré-concebido que se manifesta numa atitude discriminatória perante pessoas, crenças, sentimentos e comportamentos. E a verdade é que todos os seres humanos escondem na sua pele imperfeita vários preconceitos, ainda que sejamos contra os chamados preconceitos "da moda", que recaem sobre raças, orientações sexuais, géneros, etc.

Já pensaste na razão pela qual alguém em sofrimento se esconde a chorar numa casa de banho, mas fora dela dissimula o seu maior sorriso, para não falar na moldura de felicidade que essa mesma pessoa pinta nas redes sociais?

Qual a razão para tantas pessoas fingirem ser fortes quando a única verdade é que todos somos humanos? O ser humano dissimula a dor e o sofrimento, em boa parte porque a doença mental é um tema tabu na nossa sociedade. Este próprio termo foi aliás criado com uma intenção humanista para se evitar o preconceito da loucura.

A Organização Mundial da Saúde diz-nos que a doença mental se refere ao sofrimento, incapacidade e morbilidade devido a perturbações mentais e neurológicas e por uso de substâncias, podendo surgir devido a factores genéticos, biológicos e psicológicos, bem como a condições sociais adversas e factores ambientais.

Definindo assim as coisas torna-se fácil viajar para bem longe do preconceito de loucura, em relação ao colega que sabemos que toma medicação, à vizinha que está em depressão, não sai de casa e dizem que deixou de tomar banho, e ao pai daquela conhecida que se enforcou em casa.

Dizemos mais facilmente adeus a este preconceito pensando em Robin Williams, Philip Seymour Hoffman, Virginia Woolf, Anthony Bourdain ou em tantos outros artistas que admiramos e cuja morte por suicídio entrou nas nossas casas de forma violenta através das notícias.

Nestas situações, não pensamos em loucura — ou, mais propriamente, em loucos. Pelo contrário, viajamos para um sentimento de dor insuportável, tentando racionalmente justificar o suicídio que se configura como sendo um assassino silencioso e imprevisível.

Os estudos da OCDE dizem-nos que em cada três casos de suicídio, dois se devem a um estado de depressão profunda. A depressão é, aliás, a grande epidemia do século XXI e não é muito difícil percebermos a razão se pensarmos na forma como se desenvolve o quotidiano nas sociedades modernas.

A doença mental é um ponto de chegada, jamais é um ponto de partida, o que é uma excelente notícia porque através da prevenção podemos combater esta epidemia silenciosa que afecta 700 milhões de pessoas em todo o mundo, fazendo um verdadeiro investimento na vida de todos nós.

Entretanto, cada um de nós pode e deve trabalhar a sua saúde mental da mesma forma que trabalha o corpo no ginásio.

Poderia falar na meditação ou no mindfulness da moda — ou em tantas novas estratégias das quais sou apologista e praticante, e que aliás estão na moda, para lidar com o turbilhão de emoções e pensamentos que caminham no mesmo ritmo stressante do quotidiano —, mas isso não faz sentido, porque a resposta para a saúde mental de cada um está no próprio indivíduo.

O que me leva a "celebrar" este Dia Mundial da Saúde Mental com a definição da OMS, que nos diz que a saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo percebe o seu próprio potencial, é capaz de lidar com o stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera.

Termino em tom de homenagem a Robin Williams, que foi vítima da epidemia da mente, com uma frase da personagem que interpretou filme Good Will Hunting: "Vão sempre existir maus momentos, mas eles vão-te despertar sempre para as boas coisas às quais não prestavas atenção."