O apocalipse em San Sebastián

O sadomasoquismo e fetiches da burguesia. A ficção científica e o terror. In Fabric e High Life , dois dos filmes mais excitantes de 2018, foram programados pelo mais antigo festival de cinema da Península Ibérica e um dos mais antigos do mundo — e que talvez esteja a acordar de uma crise de identidade.

Há pouco mais de duas semanas, em San Sebastián, durante a conferência de imprensa que precedeu a entrega do prémio Donostia de reconhecimento pela sua carreira, Judi Dench falou da amizade que a unia a Kevin Spacey, desde que trabalharam juntos em The Shipping News, e lamentou a decisão de apagar a sua presença no filme que ele tinha acabado de rodar, quando surgiram as acusações de abuso sexual (Todo o Dinheiro do Mundo, onde foi substituído por Christopher Plummer). A intervenção de Dame Judi, oportuna crítica ao neopuritanismo disfarçado de conquista social que pretende reescrever a história retocando as imagens, foi citada pela BBC News referindo-se a declarações proferidas "num" festival de cinema em Espanha. Mais do que qualquer umbiguismo insular da imprensa britânica, este pormenor diz muito sobre a actual situação do mais antigo festival de cinema da Península Ibérica e um dos mais antigos do mundo.

Criado em 1953, quando o regime de Franco se sentia já consolidado para procurar uma tímida aprovação internacional, foi elevado pela FIAPF (associação de produtores responsável pela regulação dos festivais internacionais de cinema) à categoria A em 1957, vindo-se assim a juntar ao restrito clube que à época incluía apenas Veneza, Cannes, Locarno e Berlim.

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Juliette Binoche em High Life, de Claire Denis, uma das mais perturbantes entradas no género do “filme apocalíptico”

Com um enquadramento geográfico privilegiado (importante porto de recreio e tradicional zona de veraneio, corredor de passagem entre a Península e o resto do continente) e beneficiando de um trabalho de programação criterioso que acolheu o melhor e mais moderno cinema que se fazia na altura, viu o seu prestígio aumentar rapidamente, sendo considerado, durante os anos 60 e princípio dos 70, um dos 4 ases dos festivais de cinema.

As majors americanas não tardaram a utilizar San Sebastián como porta de entrada para a Europa (Vertigo e Intriga Internacional de Hitchcock tiveram lá a sua estreia internacional), e foi na bela cidade da "concha" que foi lançado muito cinema italiano (Germi, Risi, Lattuada), exibida muita da nouvelle vague francesa, dado a conhecer algum do cinema americano pré-New Hollywood mais interessante (Cinco Anos Depois, o belíssimo western e único filme dirigido por Marlon Brando, foi Concha de Ouro em 1961) ou sopraram os primeiros ventos que chegavam da Europa de Leste (Jiri Weiss, Roman Polanski). Entre 1969 e 1974, júris presididos por Josef Von Sternberg, Fritz Lang, King Vidor, Howard Hawks e Nicholas Ray premiaram filmes de Francis Ford Coppola (Chove no Meu Coração), Eric Rohmer (O Joelho de Claire), Victor Erice (O Espírito da Colmeia) e Terrence Malick (Noivos Sangrentos), o que não é dizer pouco da notoriedade que atingira na época o Festival de San Sebastián.

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In Fabric, de Peter Strickland: maneirista, sim, mas também crítica bem humorada e contundente do mundo capitalista

A morte de Franco e o advento da democracia em 1975 trouxeram o fim da censura (o regime, na verdade, sempre havia feito "vista grossa" aos atentados aos costumes, preocupado que estava com a sua autopreservação e com os atentados da ETA), muita liberdade, mas também momentos conturbados, apostas hesitantes, dificuldades em reconhecer as novas tendências, o aparecimento de outros focos de interesse cinematográfico por toda a Espanha, o que veio a provocar profunda crise de identidade, que acabou por durar muito mais do que se poderia esperar. Até há pouco, San Sebastián parecia haver perdido o comboio dos outros grandes festivais. Tinha-se transformado apenas "num" festival de cinema no Norte de Espanha.

Todavia, um festival que se atreveu a programar para esta edição que terminou no dia 29 de Setembro  — não acantonando numa qualquer secção paralela para onde costumam ser relegados filmes de género ou vagamente experimentais, mas incluindo na sua selecção oficial — dois dos filmes mais estimulantes vistos em 2018, dentro ou fora de festivais, como In Fabric de Peter Strickland e High Life de Claire Denis, é um festival que não está moribundo, é um festival que parece afirmar que há que contar com ele. Mesmo que júris preguiçosos não o reconheçam, mesmo que seja difícil entender outras escolhas, o gesto é significativo.

O britânico Peter Strickland prossegue o interesse pela revisita ao cinema de género, em particular o giallo, tornada explícita sobretudo a partir de O Som do Medo. A aparente diversidade temática da sua obra (uma mulher procura vingar-se dos homens que muitos anos antes a haviam violado; um engenheiro de som vê-se envolvido numa estranha aventura num estúdio de cinema de terror em Itália; a relação entre duas mulheres é levada aos limites do paroxismo por uma delas) não esconde alguns temas recorrentes que surgem de forma visível em In Fabric. Entre eles, o coleccionismo e o sadomasoquismo, fetiches da burguesia, aos quais não é estranho o mundo da moda, tema explicitamente central do seu mais recente filme.

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Robert Pattinson em High Life
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A história gira em torno da maldição de um vestido sobre as vidas de Sheila, uma mãe recém-divorciada, caixa de um banco, que vive com o filho adolescente pseudoartista, tendo também de aturar a invasiva namorada deste, e de Reg, um reparador de máquinas de lavar que festeja a sua despedida de solteiro, e a quem acontecem várias desgraças depois de se cruzarem com o referido vestido. Após notar que o sedutor vestido vermelho não só era de um tamanho que não lhe correspondia mas também lhe provocava uma crescente irritação de pele, Sheila regressa ao grande armazém onde o havia adquirido e dirige-se à mesma empregada que a havia atendido, e cuja aparência recorda a de um vampiro, que lhe conta que uma antiga modelo da loja havia sido assassinada depois de ter envergado o vestido. A atmosfera de estranheza adensa-se com a passagem desta empregada — através do monta cargas — ao submundo dos bastidores da moda, povoado de empregadas, modelos e manequins (que não só se satisfazem sexualmente como também alimentam ao voyeurismo masturbatório de um velho chefe) e que articulado com o mundo igualmente bizarro à superfície compõe um arriscado imaginário iconográfico cujo controlo Peter Strickland nunca perde. Confesso admirador de Lynch, é exímio em manejar os códigos do género, acabando por criar um universo próprio, cujo maneirismo não esconde uma crítica bem humorada e contundente do mundo capitalista. In Fabric é o seu filme mais ambicioso, simultaneamente surreal e sensual, impenetrável e fascinante.

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Os códigos do género são também utilizados — e não pela primeira vez — por Claire Denis, no seu primeiro filme inteiramente em língua inglesa, High Life. Regressa a temas que lhe são caros, os da paternidade e da transmissão, com o misto de amor e violência que frequentemente lhes estão associados. Desta feita, trata-se de uma fusão entre a ficção científica e o terror cronenberguiano, criando uma atmosfera claustrofóbica em que a referência temática é sobretudo a ficção científica literária dos anos 60.

A elíptica trama do filme divide-se em três tempos. O primeiro descreve a vida quotidiana numa nave espacial de Monte (Robert Pattinson), astronauta cujo único contacto humano é a filha pequena, de quem cuida com ternura nos intervalos da resolução dos problemas que vai detectando por entre as deambulações por corredores e compartimentos abandonados, que parecem saídos de uma estação espacial soviética dos anos 70. Um dos planos mais belos e terríveis surge quando Monte tem, por razões técnicas, de evacuar a sala de criogenização, libertando para o espaço os cadáveres do resto da tripulação. Essa descoberta macabra permite-nos passar à segunda parte, secção principal de uma série de flashbacks, memórias de quando a nave ainda contava com toda a tripulação, um grupo de reclusos perigosos recrutados para uma missão científica, provavelmente sem retorno, ao buraco negro mais próximo da Terra. O grupo parece ser dominado pela Drª Dibbs (Juliette Binoche), cientista de passado sombrio obcecada com o seu próprio programa experimental de inseminação artificial. O universo concentracionário de uma nave espacial é descrito por Denis com a sua característica combinação de sensualidade e violência, contendo algumas desabridas referências a fluidos corporais e uma das mais surpreendentes cenas de sexo "individual" que nos foi dado ver no cinema. A terceira secção volta a dar um salto temporal, naquilo que parece aproximar-se do "fim", onde encontramos Monte inexoravelmente acreditando na salvação da filha, agora adolescente. Claire Denis cria com aparente simplicidade uma das mais perturbantes e obsessivas entradas no género do "filme apocalíptico".