Opinião

Luta de sexos, o novo feminismo

Teresa Rita Lopes e Raquel Varela conversam sobre Ronaldo, a presunção de inocência e os novos feminismos na era MeToo.

Teresa Rita Lopes (TRL) – A que é que conduz o feminismo desenfreado? A criar fronteiras de suspeição entre homens e mulheres – e uma atitude de permanente e desconfiada defesa deles em relação a elas. É querer substituir a “luta de classes” passada de moda pela “luta dos sexos”! Pergunto-me se as manifestações das mulheres contra Bolsonaro não serão contraproducentes, aparecendo como manifestações desse papão comunista brandido pelos seus apoiantes!

Raquel Varela (RV) – Há pouco tempo houve uma greve em Espanha contra a desigualdade salarial – finalmente as mulheres a adoptarem meios colectivos como a greve ou outros como forma de pressão chamando também a atenção contra o trabalho doméstico exaustivo, os baixos salários, etc. Que adoptaram, como símbolo? Uma mão a uni-las aos homens? Não, uma vagina! Sim, milhões de mulheres a fazer o símbolo da vagina. Imagino se fossem milhões de homens a “segurar nos tomates” gritando “todo o poder aos homens!”. De fugir este feminismo! Já ouvi o ridículo que as mulheres são anticapitalistas e os homens capitalistas – quantos milhões de mulheres votaram em Bolsonaro?

TRL – É isso, o que o mundo precisa é de que homens e mulheres se unam para fazer face aos tremendos problemas que nos ameaçam: catástrofes naturais, que já fazem parte do nosso quotidiano, por enquanto só televisivo, e o avanço desse monstro que é a finança internacional, que tudo a si submete. O próprio Ronaldo é seu produto e, neste momento, candidato a vítima: o que seguramente mais o apoquenta é que acabem os milhões que os patrocinadores lhe pagam para emprestar a sua imagem aos produtos que vendem! Eles sabem que os seus compradores são comandados como carneiros pelos (pré) conceitos vigentes, e rejeitarão esse novo campeão, afinal reles violador!

RV – Ela sim, Ele não, que engenhosa e vazia palavra de ordem... Se fosse homem, fora da bolha activista, acharia que tal manifestação não me convocava. MeToo é o puritanismo norte-americano com glamour de Hollywood. As mulheres não reclamam por creches públicas mas querem trazer o homem para o lar, o núcleo familiar tradicional (no Maio de 68 era a defesa da conquista da esfera publica, agora são os dois juntinhos a lavar loiça... que delicia de vida!); não reclamam pela segurança no emprego mas por serem chefes na empresa; não exigem a redução do horário de trabalho mas quotas no conselho de administração onde devem ficar a trabalhar até à meia-noite... Deprimente. É, como alguém dizia, usar a condição de opressão para justificar o mercador. A Rita viveu em 68 outro feminismo, libertador... Este feminismo chegou-nos da derrota do Maio de 68 e das esperanças revolucionárias, e elas pensam que chegou da sua vitória... A esquerda está sem rumo. Sem meta narrativa. É urgente reinventar o amor, em liberdade, fora de ódios e puritarismos.

TRL – O que o mundo precisa é que se destrua o fosso que separa os super-ricos dos miseráveis, os que não têm voz contra os que mandam em tudo, não é pôr os homens a lutar contra as mulheres ou vice-versa! Todo o clima de denúncia é mórbido: criar tribunais onde as mulheres vão denunciar os homens que as pseudoviolaram sem provas faz delas criaturas tão odiosas como as que, em tempos de Inquisição, denunciavam os vizinhos judeus com quem tinham algum contencioso.

RV – Dá vergonha alheia ver os jornais onde elas publicam denúncias, sem qualquer investigação. Que náusea. Alguns locais de trabalho onde o MeToo chegou mais cedo lá fora tornaram-se irrespiráveis, conheço uma dúzia de pessoas de esquerda, pelo menos, e várias mulheres, que pediram para mudar de local de trabalho por conta desse clima absurdo de "assédio", na feroz competição académica e nas empresas aproveita-se o assédio para destruir colegas. É o vale tudo. Para condenar uma minoria de predadores condenam-se todos à suspeição permanente.

TRL – É urgente que ensinem os portugueses a pensar, antes mesmo de escrever.

Pela parte que me toca, não me sinto representada por nenhuma dessas bandeirolas – feminismo, machismo, ronaldismo! Só venho tentar separar os alhos dos bugalhos porque uma jornalista (Ana Sá Lopes) do PÚBLICO me meteu ao barulho – a mim e si, Raquel Varela. Chamou-nos machistas...

RV – Oh eu vítima, estão-me a ofender, quem ousou tratar uma jovem mulher como eu de machista? Quem terá sido a machista?!

Vamos à parte séria. É o Movimento MeToo a entrar em Portugal pela porta mais frágil, o nosso crónico atraso, o peso desmesurado do futebol na economia do país. O caso Ronaldo é o mote para a defesa do fim da presunção de inocência. Várias pessoas vieram a público esta semana, entre elas o ex-ministro da Administração Interna Rui Pereira no Correio da Manhã, afirmar com base em "estudos" que as vítimas de abusos sexuais não mentem, deve-se presumir que os homens são culpados até prova em contrário. O MeToo, embora pareça de esquerda, porque é "amigo das vítimas", trata-se de uma reacção mundial conservadora em curso em vários países que defende que em nome da segurança deve-se diminuir a liberdade, ou suprimi-la em parte. É um movimento conservador contra as Luzes.

TRL – Com a serra de Sintra a arder, o Brasil à beira disso, metaforicamente, e os nossos militares a confessar o seu “acordo de cavalheiros” (ipsis verbis) com o ladrão de Tancos (o seu representante, visto que deve haver mais), o país arma uma tremenda barafunda nos chamados órgãos de informação, televisão e redes sociais incluídas, sobre... nem dá para perceber: patriotismo ofendido, feminismo exacerbado, machismo manifestado... com todos os -ismos misturados! Vamos lá então tentar separá-los.

Uma coisa é pugnar contra a violência de que as mulheres são alvo, por esse mundo fora, em casa, na rua, seja onde for, por companheiros ou predadores avulsos – inútil enumerar o número das que, mesmo aqui ao pé da porta, já foram mortas desde o início do ano neste país de suaves costumes, dos mais seguros do mundo (dizem)... E acrescentem as vítimas espanholas, francesas... para não irmos mais longe. Nenhuma relação com Ronaldo (o centro do relambório), que eu saiba.

RV – Às mulheres, vítimas de abuso sexual, devem ser dadas medidas públicas onde não se deve conter qualquer custo na protecção jurídica imediata (não é com julgamentos morosos), deve ser dado o melhor apoio psicológico/psiquiátrico. Mas jamais acabar com a presunção de inocência. O mais odioso dos crimes – e a violação é para mim social e moralmente equiparada a homicídio ou perto, é destruir a vida de alguém, por isso não é compatível com penas ridículas – não justifica a suspensão de uma única liberdade democrática. 

TRL – Na presente novela ronaldiana é ser irracionalmente feminista defender cegamente a fêmea, que, coitada, foi forçada a... neste caso, não só a assinar o compromisso de calar o bico a troco de 300 e tal mil euros como, se calhar, a ignorar agora o contrato e pedir mais!

RV – Querem que declarações grotescas de Ronaldo façam prova de violação, eu não sei se foram proferidas e em que condições, aliás até hoje ele negou o crime. Valem o mesmo, essas declarações, que colocar os vídeos em circulação da moça roçando-se nele tentando dizer "ela merecia" ou que a subida voluntária dela ao quarto é consentimento da alegada violação. Nunca. Desconfio de mulheres que não dançam sensualmente, para desconhecidos também, porque a sedução é parte essencial da nossa felicidade, foi para isso – sair do lar recatado e decidir a nossa sexualidade em liberdade – que lutámos todo o século XX. E o direito a seduzir é delas e deles, sim, deles também!, é um direito básico a ser colocado nos Direitos Humanos. Não tenho respeito ético por alguém que recebe 325 mil euros mas naturalmente não autoriza violação, se existiu. Violação é um acto de violência extrema, um crime vil – não há dança que a justifique ou atenue. Continuam a querer fingir, em suma, que não percebem que neste caso só há uma moral correcta – a de que a justiça não é feita numa fogueira pública. Não defendo que Ronaldo é inocente, defendo a presunção de inocência e o direito a um julgamento justo, para ele e para o pior criminoso do mundo.

TRL – Outra coisa ainda a considerar à parte é essa excitação dos que defendem o CR7 por patriotismo, como representante do nosso brio lusitano, desculpando-o: que um homem não é de pau, e que ela é que se pôs a jeito, e etc. e tal... Também não vou por aí: recuso-me a ser representada por esse lusitano deus do bolapé! Prefiro que continuemos a ser a pátria de Camões e não de Ronaldo – apesar daquele não ter nenhuma estátua com a estatura da do CR7, na sua ilha natal!

RV – Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.
(Camões)

Teresa Rita Lopes, escritora, investigadora pessoana
Raquel Varela, historiadora, professora universitária