Sobre a noite passada: porque é que (ainda) gostamos de The Walking Dead?

A New Beginning, ou de como a nona temporada de um fenómeno em crise recomeçou a destruir famílias e a reconstruir a civilização. Gostamos de (temer) zombies? Contém spoilers.

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Jackson Lee Davis/AMC

Porque é que gostamos de (temer) zombies? O apelo das histórias de mortos-vivos é variado: há o puro terror, a metáfora de tensões sociais, como a Guerra do Vietname ou a luta pelos direitos civis na América que George Romero imprimiu n’A Noite dos Mortos Vivos, ou identificar o terrorismo e, no geral, “os outros” nos walkers de The Walking Dead. Nove temporadas depois, é impossível ver a série sem ver a sua perda relativa e, agora, a tentativa de renascer. É outra das forças dos zombies - caminhar, sempre, para sobreviver. Ou para a reconstrução da civilização. Agora sem gasolina, nem um herói.

A New Beginning é o título óbvio do primeiro episódio de uma temporada óbvia para a série blockbuster que corre o risco de deixar de o ser. The Walking Dead, como não deixa esquecer nenhuma crítica ou história sobre este regresso da série (a mais vista em Portugal nos últimos dois anos), tem vindo a perder audiências e o apoio da crítica. “Já perdemos o suficiente”, diz Rick Grimes a certa altura do primeiro episódio que a Fox emitiu na madrugada, e depois na noite, de segunda-feira. O herói vai-se embora e desde o Verão que o mundo sabe disso. O público também sabe que, há um punhado de anos, a série não teria anunciado a sua saída. Teria feito um episódio de choque, como os que tornaram The Walking Dead exemplar da nova era televisiva em que ninguém está a salvo das canetas mais poderosas que as espadas que brandem os argumentistas.

Mas aqui estamos, no 115.º episódio, a ver as peças do tabuleiro de xadrez preparar-se para a saída anunciada de Rick Grimes, o ex-polícia da Virginia que acordou de um coma para o puro apocalipse zombie. Que conduziu uma história de sobrevivência que se dividia pelas ameaças dos seus walkers e dos humanos cuja natureza estava à prova. Agora, e como assinala o crítico da CNN Brian Lowry, a série “está a avançar de uma situação de guerra para a questão mais interessante de sustentar uma comunidade e de como impor a ordem num mundo sem lei sem ceder a superioridade moral”.

Ou seja, está a ultrapassar a “all out war” que constitui um dos pontos altos dos comics que lhe servem de base - e que lhe dão a sua vantagem e desvantagem que é não terem qualquer intenção de chegar ao fim, e muito menos a um final feliz, segundo o criador Robert Kirkman - e passar para uma tentativa de reconstruir a civilização. Outra vez. O Sr. Grimes vai a Washington, mais precisamente a parte do Museu Smithsonian, “olhando para o passado para ajudar no presente”, procurando arados, carroças e sementes para recomeçar. Tal como tem um novo genérico, The Walking Dead tem uma nova showrunner, Angela Kang, que, para a Variety, “se estreou com estrondo” neste primeiro episódio.

É uma das críticas elogiosas que o primeiro episódio (ou os primeiros três disponibilizados à imprensa) está a receber. Tudo começa cerca de ano e meio depois da vitória sobre Negan, que paira sobre esta temporada, com crianças crescidas ou nascidas, romances, sequências de acção e medo com zombies com formigueiro e contemplações sobre a “involução do ser humano” — quando um zombie é morto e fica preso ao placard onde o Cro-magnon, o australopitecos ou o Homo sapiens caminham numa parede, mas o morto-vivo é o mais recente da espécie. Há energia solar e combustível feito a partir do milho, uma mulher ganhou uma eleição contra um populista.

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Mas Maggie (Lauren Cohan) e Daryl (Norman Reedus) não estão do lado de Rick (Andrew Lincoln) e Michonne (Danai Gurira). Os sobreviventes continuam divididos. “Estamos a tentar estabelecer onde é que as personagens estão em relação a Rick”, diz Angela Kang à Hollywood Reporter sobre o actor britânico que se cansou de tantos anos dedicado a uma série filmada nos EUA e vai abandonar a série (ainda não se sabe em que moldes). “É um homem em busca da sua família e aqui está a família que tem agora”, continua Kang. “Já não há um ‘nós’”, atira Daryl a certa altura do episódio.

Os zombies são os outros mas também voltam, como tem sido habitual nos episódios iniciais de cada temporada, a ser adversários temíveis de mandíbulas famintas. São o símbolo e o centro de um fenómeno cultural central da última década, mais do que um franchise televisivo (que, com o sucesso de Fear the Walking Dead, no canal AMC, não pára de crescer), são a imagem dos valores extremados com os quais The Walking Dead namora e que ajudaram, na tese do historiador de cinema Peter Biskind, a aproximar a América, e o mundo, do extremismo político. Porque é que (ainda) gostamos de The Walking Dead? O aviso é da escritora Naomi Alderman, numa edição de 2011 da revista Granta, quando The Walking Dead era um fenómeno a despontar: “Os zombies são todas as coisas que não caem e morrem, a verdade que não podemos reprimir, a coisa que se erguerá até nos subjugar a todos. Seja o que for que se queira esquecer, está a tropeçar, de olhos mortos e boca aberta, na nossa direcção.”

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