Governo tinha sido avisado para riscos do Parque Sintra-Cascais

Relatório de peritos da Comissão Europeia datado de Maio fala num risco estrutural “muito alto e extremo” e da falta de condições de evacuação. Se o vento tivesse soprado de oeste, “a serra tinha ardido toda”, acredita professor universitário.

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Em 15 horas terão ardido perto de 600 hectares no parque natural REUTERS/Pedro Nunes

O Governo está alertado pelo menos desde Maio passado para o elevado risco de incêndio no Parque Natural Sintra-Cascais: um relatório elaborado por peritos da Comissão Europeia que se deslocaram a Portugal para o efeito dá conta da extrema vulnerabilidade desta área protegida.

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O documento foi entregue ao secretário de Estado das Florestas, que de resto se chegou a reunir com os seus autores, bem como aos presidentes do Instituto de Conservação da Natureza, da Parques de Sintra-Monte da Lua e ainda ao responsável pela estrutura de missão dos fogos rurais, Tiago Oliveira. O PÚBLICO tentou saber junto do executivo que medidas foram tomadas para reduzir o perigo, mas não obteve qualquer resposta.

“O índice de risco estrutural é muito alto e extremo”, refere o relatório em causa, assinado por três especialistas que vieram de Espanha e trabalharam com técnicos nacionais, nomeadamente do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). No que a Sintra diz respeito – os peritos estiveram também no Parque Natural de São Mamede, no Alentejo –, falam da fragilidade tanto das casas isoladas como das urbanizações existentes. Em caso de catástrofe, “as evacuações estão comprometidas, pois necessitam de duas condições que não existem, tempo e recursos – a que acresce outra limitação, a largura das estradas face à quantidade de veículos existentes”.

Os autores do trabalho consideram fundamental que a população residente e os visitantes de Sintra sejam alertados para o risco que correm, até porque, aparentemente, as medidas de prevenção em vigor não são adequadas à perigosidade da situação. Sugerem a criação de áreas de segurança para turistas e planos de autoprotecção para a construção e urbanização, mas falam também na necessidade de eliminar a grande quantidade de combustível morto (vegetação) existente na maioria das áreas florestais.

A celebração de rituais ou macumbas também é factor de preocupação para os peritos, por implicarem o uso de velas nos cruzamentos dos caminhos florestais. Bem como a falta de recursos do ICNF para gerir os terrenos à sua guarda.

Perante estas conclusões, o responsável pela estrutura de missão dos fogos rurais recomendou ao secretário de Estado das Florestas logo em Maio várias medidas, como a criação de rotas de fuga e o apoio a pessoas que necessitem de fazer queimadas. “Torna-se evidente a possibilidade de grandes incêndios florestais já em 2018”, antecipava. 

Noite de susto

E se o incêndio que deflagrou este sábado à noite não entra na categoria dos grandes fogos florestais, a verdade é que foi sobretudo graças à direcção do vento que as chamas acabaram por não fazer perigar o património ambiental mais valioso, já que começaram junto ao convento da Peninha – onde, por sinal, se comemora esta semana o 37.º aniversário do parque natural – mas evoluíram para uma área mais urbana, embora dentro do parque natural. A maior parte dos 600 hectares ardidos situa-se no concelho de Cascais e o sistema dunar da Cresmina, no Guincho, foi uma das partes atingidas. A autarquia promete repor a vegetação rasteira que ardeu nesta zona da Rede Natura 2000. Se o vento tivesse soprado de oeste, “aí a serra tinha ardido toda”, acredita Paulo Fernandes, professor do Departamento de Ciências Florestais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Na contabilidade final registaram-se 21 feridos ligeiros, duas dezenas de operacionais envolvidos no combate ao fogo e um civil. Sofreram traumas oculares, entorses e luxações. Já a vítima civil “teve queimaduras de primeiro e segundo grau, em menos de 10% do corpo", disse o comandante distrital de Lisboa da Autoridade Nacional de Protecção Civil, André Fernandes, no balanço que fez dos acontecimentos. Mas à hora de almoço esta vítima também já tinha tido alta hospitalar. Cerca de três centenas de pessoas foram retiradas durante a noite do parque de campismo de Guincho, bem como 47 habitantes de várias aldeias na região. Não houve habitações atingidas.

O facto de o alerta para o fogo ter sido dado já de noite, às 22h50 de sábado, despertou suspeitas: terá havido mão criminosa? Mas, como explica um especialista na matéria, o critério da hora não é decisivo para aferir dessa possibilidade, que de resto está já a ser investigada pela Polícia Judiciária.

Assim que soube do que se estava a passar, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, rumou a Sintra, onde esteve reunido com o presidente da câmara, Basílio Horta. De madrugada, o autarca eleito nas listas do PS chegou a referir-se ao sucedido como “uma desgraça”, mas no domingo de manhã havia de mostrar-se mais calmo: "Tratou-se de um milagre, porque se o vento estivesse em sentido contrário e tivesse empurrado o fogo para terra, certamente que haveria uma grande desgraça em Sintra."

De Sintra, o Presidente rumou a Cascais, onde de resto mora, para se encontrar com o presidente do município, Carlos Carreiras. Este autarca acabaria por garantir, horas mais tarde, que na área ardida não vai ser permitida construção nova: “Não era possível e continuará a não o ser.”

Já o primeiro-ministro, António Costa, garantiu que também não foi à cama senão às 4h30, quando percebeu que o pior perigo tinha passado. Acompanhou os acontecimentos à distância, tendo-se mantido em contacto quer com Marcelo, quer com o ministro da Administração Interna. “Felizmente foi possível fazer o combate ao fogo com sucesso, sem danos pessoais significativos nem nenhuma habitação atingida”, congratulou-se já neste domingo, à margem das comemorações do 20.º aniversário do Nobel de José Saramago. E aproveitou para elogiar o social-democrata Carlos Carreiras, pela “forma muito serena como exerceu as suas funções” durante a noite. Já sobre as reacções de Basílio Horta não proferiu palavra.