Comentário

Os brasileiros podem salvar a democracia

Muitos analistas têm pruridos em designar de “fascistas” os novos partidos da extrema-direita. Umberto Eco, num discurso em Nova Iorque, afirmou que seria mais fácil identificar um partido fascista se ele defendesse abertamente as câmaras de gás, mas com Bolsonaro não é preciso tanto.

O resultado da primeira volta das eleições, com a dupla militar Bolsonaro-Mourão a obter 46% dos votos, é uma tragédia para a democracia brasileira. Ainda assim, os 29% de Haddad, somados aos 12,5% de Ciro Gomes, a que devemos juntar os votos dos outros candidatos democratas, como Alckmin, no total, mostram que Bolsonaro poderá ser derrotado, embora não seja nada fácil.

Os resultados mostram a revolta do eleitorado brasileiro com os partidos do centro-direita e do centro esquerda, acusados dos atuais problemas económicos do País e que se encontram envolvidos em graves casos de corrupção. Os partidos do centro direita (PMDB e PSDB) praticamente desapareceram, o PT sobreviveu graças ao Nordeste, onde está presente a memória do impacto social dos governos Lula, mas perdeu estrondosamente nos grandes estados do Sudeste, decisivos pelo seu peso demográfico e económico.

A consequência da derrocada dos partidos que governaram o Brasil desde o fim da ditadura militar foi a emergência da extrema-direita, neste caso com caraterísticas vincadamente fascistas.

Muitos analistas têm pruridos em designar de “fascistas” os novos partidos da extrema-direita. Umberto Eco, num discurso em Nova Iorque, afirmou que seria mais fácil identificar um partido fascista se ele defendesse abertamente as câmaras de gás, mas com Bolsonaro não é preciso tanto.

O movimento de Bolsonaro tem as características que Umberto Eco identificou com o fascismo. É populista, para ele o povo é uma massa indiferenciada de indivíduos sem direitos, que devem seguir o líder - o “mito” como chamam a Bolsonaro. O “povo” deixou de ser o dos grandes comícios e passou a ser um apanhado das declarações reaccionárias no WhatsApp.

Apela a uma classe média inquieta com a crise económica, com “a pressão dos mais desfavorecidos” e com os direitos laborais das “domésticas”.

É abertamente um inimigo da democracia e um admirador da ditadura militar, fazendo da violência a forma preferida de governo, afirmando, inclusivamente, que os polícias devem “atirar para matar”. Cavalga a onda da luta contra a corrupção, escondendo a da ditadura militar então protegida pela censura.

 É um racista assumido, falando de um caráter “parasita” dos afrodescendentes e de “branqueamento da raça”. É machista, defende que as mulheres devem ganhar menos do que os homens e a homofobia é gritante, designadamente, quando afirma que a homossexualidade se trata “à porrada” e que o sangue dos heterossexuais é “mais puro”. O seu discurso ultraconservador deu-lhe o apoio de poderosas correntes fundamentalistas evangélicas, cuja influência política não tem parado de subir.

Onde Bolsonaro se afasta dos velhos fascistas é na defesa do ultraneoliberalismo, tendo escolhido como porta-voz para a economia Paulo Guedes, da escola de Chicago. Paulo Guedes propõe reduzir os impostos dos mais ricos e por em causa os programas sociais. Tal política, num dos países mais injustos do mundo, mas com fortes movimentos sociais, só será imposta por uma ditadura. Bolsonaro defende uma ideologia que combina elementos do fascismo de Mussolini com o ultra neoliberalismo de Pinochet.

No outro lado, temos Haddad, o candidato do PT, partido que governou o Brasil durante 13 anos, com Lula e Dilma. É verdade que o PT cometeu erros graves. Desde logo, ter tido muitos dos seus líderes envolvidos em casos de corrupção, criando, como os demais partidos, uma relação espúria com as grandes empresas. Em paralelo, Dilma não soube lidar com o impacto no Brasil da grande recessão de 2008.

Mas o PT nada tem a ver com o caudilhismo militar de Bolsonaro ou de Chávez-Maduro, uma vez que se pauta pelo respeito pelas instituições democráticas. Lula recusou alterar a Constituição para tentar um terceiro mandato quando tinha mais de 80% de popularidade e o PT resistiu às propostas para controlar a comunicação social, mesmo sendo alvo de ataque cerrado da imprensa brasileira.

No poder, preservou a estabilidade macroeconómica, herdada dos governos do PSDB, ao mesmo tempo que desenvolveu programas sociais, como o da “Bolsa Família”, que tiraram 30 milhões de brasileiros da miséria e permitiram o acesso à educação a quem nunca tinha tido esse direito.

Comparando as trajetórias de Haddad e de Bolsonaro, a escolha, para qualquer democrata, devia ser fácil. No entanto, para muitos não o é, por ódio ao PT ou por egoísmo social.

Se no primeiro turno Haddad teve de defender a herança de Lula, no segundo já terá de ser ele mesmo, o político que foi um bom Ministro da Educação e Prefeito de São Paulo, que defendeu o rigor das contas públicas com o projeto de uma cidade mais humana.

Haddad tem de assumir que a hegemonia do PT chegou ao fim, vencer o sectarismo de muitos militantes do PT e aliar-se a todos os democratas de esquerda, centro e direita. O apoio de Ciro Gomes e de Boulas estará garantido, mas é preciso garantir o apoio do que resta do PSDB de Fernando Henrique Cardoso e de sectores empresariais, indicando, desde já, um nome sólido para as Finanças. Tem de voltar a garantir a estabilidade macroeconómica, retomar o projeto de acabar com a dívida social do Brasil e propor uma reforma política que garanta a governabilidade do Brasil e facilite o combate à corrupção.

Os democratas brasileiros podem vencer o fascismo. Será um serviço importante que prestam à derrota da extrema-direita do Brasil e do Mundo. Nós, europeus, agradeceremos encarecidamente.

Coordenador do livro Brasil nas Ondas do Mundo