The Walking Dead: o apocalipse sem Rick Grimes

Algures durante a nona temporada, que começa nesta segunda-feira, vamos perder aquele que foi o protagonista desde o primeiro episódio. Mas, garantem os seus responsáveis, não será o princípio do fim de algo que se tornou um fenómeno global. É um novo início.

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Depois da guerra, Rick (Andrew Lincoln) e Michonne tentam uma vida normal de casal a cuidar de Judith, a filha de Rick dr
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Greg Nicotero é um dos principais criativos da série, como responsável pela criação dos zombies e realizador de vários episódios dr
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Tudo pode acontecer a qualquer um. É esse o mundo de The Walking Dead (TWD), que mata sem qualquer aviso. É o risco de se viver no apocalipse zombie, onde uma dentada de um morto-vivo pode estar ao virar de uma esquina, atrás de uma árvore ou na escuridão de uma casa abandonada. Desta vez, em vez de viver o choque no momento, como aconteceu com outras personagens, fazemos o luto por antecipação. Vamos deixar de ter Rick Grimes. “Quando começámos isto, tinha uma data definida na minha cabeça para acabar. É esta. E sinto-me orgulhoso da forma como vou embora”, contou Andrew Lincoln numa conversa com jornalistas (incluindo o PÚBLICO) durante a Comic Con de Nova Iorque, ele que, durante quase dez anos, encarnou o xerife feito líder de um grupo de sobreviventes.

Algures durante a nona temporada de TWD, que terá em Portugal o seu horário habitual nas segundas-feiras à noite no canal Fox (22h15, mas com estreia durante a madrugada quase em simultâneo com a estreia norte-americana), vamos perder aquela que foi a personagem principal desde o primeiro momento, aquele que nunca iria morrer numa série em que toda a gente morre. Se Rick vai ser mordido e tornar-se num zombie, se vai ter um misericordioso tiro na cabeça, ou vai deixar em aberto um eventual regresso, não sabemos.

O que sabemos é que Rick, o matador de zombies, vai desaparecer para que Andrew possa voltar a ser um homem de família a tempo inteiro. “As minhas razões são pessoais. Oitenta por cento dos últimos dez anos têm sido passados na América e agora os meus filhos são menos portáteis”, conta o actor britânico numa mesa com jornalistas, pouco antes de mais uma despedida com os fãs num dos palcos da Comic Con, uma sala do Madison Square Garden, onde teve direito a ovação de pé.

Lincoln já filmou tudo o que tinha para filmar em TWD, mas a produção da nona temporada continua, o que indicia que não será no último episódio que nos despedimos de Rick. Tem andado pelo set das filmagens algures na Georgia, a ver como o resto do elenco se porta sem ele (e a aprender o ofício atrás das câmaras para, no futuro, realizar um episódio), diz que ainda está “em negação” com a perspectiva de deixar de viver no meio do apocalipse, e nem sequer o deixaram ficar com as botas, outra das imagens de marca da personagem. “Só fiquei com um blusão de ganga ‘desconstruído’, ninguém ia dar pela falta daquilo, e talvez fique com barba. O Norman [Reedus, que faz de Daryl] é que está sempre a levar coisas. Já ficou com duas motos e umas sete ou oito bestas.”

E o último dia no set? Lincoln conta que começou por destruir parte de um cenário e que isso fez com que um operador de câmara ficasse inconsciente. “A culpa foi do Norman, que me começou a dar chapadas na cara para ficar no estado de espírito certo, e aquilo acabou por cair.” E a última cena? Era uma cena onde eu tinha de rir, o que é algo pouco característico da minha personagem. E, de repente, começo a sentir cócegas nos pés. Era o Norman e o Greg [Nicotero] a fazerem-me cócegas. Resultou, ri-me… Gosto de pensar que sou um actor sério e de método, e acabei como um palerma.”

É destas coisas que Andrew Lincoln vai sentir falta. Rick Grimes foi o papel que deu fama global a este actor britânico de 45 anos que era sobretudo conhecido por um papel secundário em O Amor Acontece, mas o que sente como a maior perda é o fim da convivência diária com a sua família do apocalipse zombie. Uma cumplicidade que era demonstrada em partidas. “Houve uma cena muito emotiva comigo e com o Andy no meio da floresta”, conta Norman Reedus, “em que ele mandou alguém da equipa cobrir o meu carro de papel higiénico”. “O sacana mandou alguém fazer aquilo”, recordou Reedus no painel da Comic Con. Resposta de Lincoln perante uma plateia de milhares de fãs: “Um carro made in America, o carro da crise de meia-idade do Norman. Eu tenho um Prius, um carro muito melhor para o apocalipse.”

Um novo começo

Não é a primeira vez que uma série perde o seu protagonista e as coisas nem sempre correm bem. Soa sempre a abandonar o barco e TWD, embora sendo ainda um gigante global de audiências e popularidade, dando origem a mais uma série, Fear the Walking Dead (e fala-se de mais um spin-off e um filme), já não é consensual. Fala-se de estagnação, do desgaste de quase uma década de histórias, algumas a seguir a banda desenhada de origem, outras não – Rick continua vivo nos comics, por exemplo.

Sem o homem que liderou o elenco, o “elefante na sala” é: o mundo dos mortos vai morrer? Numa palavra, “Não”, diz Andrew Lincoln. “A minha saída nada tem a ver com controlo de qualidade. Estes episódios estão ao nível do que fizemos nas primeiras temporadas”, diz o actor, que não tinha por hábito ver os episódios de TWD – “Odeio ver-me no ecrã” —, mas já viu um em que não entra “e era brilhante”. “E os dois últimos episódios em que apareço, são os meus favoritos desde o primeiro episódio da primeira temporada”, acrescenta.

Quem vai ser o líder depois de Rick e numa altura de paz (com um salto temporal de ano e meio em relação aos eventos da oitava temporada), depois de muito tempo em que o foco foi o antagonismo entre Rick e Negan? “De uma forma ou de outra, todos foram crescendo como líderes ao longo dos anos, tanto no ecrã como fora dele”, refere Angela Kang, que passou a showrunner de TWD, depois de muitos anos como argumentista. O receio dos spoilers impede mais revelações. “Gostava de contar mais, mas não posso”, lamenta Lincoln.

“É uma oportunidade de levar a história para outros sítios. Ninguém vai tentar ser o novo Rick Grimes porque não precisamos de o fazer. Estamos em boas mãos, a série não se está a desfazer. Era muito fácil isso acontecer. Não pensem que nunca pensámos que isto podia dar merda. Podia. Já houve séries que ficaram uma merda depois de perderem uma personagem como o Rick Grimes, mas acho que conseguimos transformar isto numa vantagem”, resume Jeffrey Dean Morgan, o actor que tem sido Negan, o vilão maior das últimas temporadas.

Negan irá passar os primeiros tempos da nova temporada preso numa sala com uma janela minúscula, de onde irá observar a reconstrução possível de um mundo onde há poucos recursos. Poderá ele ser o novo líder? Haverá redenção para o mauzão do bastão de basebol enrolado em arame farpado e com nome de mulher (Lucille), carrasco de algumas personagens queridas? Ainda é cedo para dizer, mas a verdade é que se Jeff vai sentir falta de Andy, também Negan vai sentir falta de Rick. “Acho que há ali uma relação de amor/ódio e de respeito naquela relação, foi por isso que ele [Rick] não o matou. Ele nunca o admitirá mas acho que secretamente tem um fraquinho pelo Negan”, conta Morgan.

Neste encontro com os jornalistas, também está Melissa McBride (Carol), uma das resistentes do elenco original. Ela vai passando ao lado de toda a conversa sobre o apocalipse pós-Rick – e Carol seria uma candidata a líder do grupo, evoluindo durante a série de uma dona de casa vítima de violência conjugal para uma mulher que faz o que é preciso para sobreviver. Quando abre a boca, é para meter toda a gente a rir.

Começa com uma pergunta a desafiar a lógica dos zombies. “Se as cordas vocais também apodrecem, como é que eles conseguem fazer aqueles sons ‘Aaaarrrggghhh’?” Palavra a Greg Nicotero, o responsável pelo visual dos mortos-vivos e uma das forças criativas que está com TWD desde o início. “É o som do ar a passar”, é a explicação que Nicotero tem para dar. “Excelente pergunta”, acrescenta Morgan. “Inventei esta agora. Como é que um zombie se peida?”, pergunta McBride à mesa, fazendo depois um som semelhante a uma ligeiríssima brisa. Morgan solta uma gargalhada sonora “à Negan” e acrescenta: “É diferente depois de ter comido alguém?”

O último adeus

Depois de nove anos a fazer convenções de fãs, Andrew Lincoln foi recebido em apoteose no Hulu Theather no Madison Square Garden. Toda a equipa de produção e o elenco entraram com o chapéu de xerife, como uma homenagem ao “leading man” que se vai embora. Sente-se que é o herói daquela gente (colegas e fãs), ele que terá um dos sotaques americanos sulistas mais credíveis da história da televisão, e ao qual não irá regressar tão cedo.

PÚBLICO -
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Andrew Lincoln e uma cosplayer no palco durante a apresentação da nova temporada de The Walking Dead na Comic Con no Jacob Javits Center, em Nova Iorque Andrew Toth/Getty Images for New York Comic Con

É com o seu sotaque britânico original que vai respondendo aos testemunhos dos seus colegas da última década. Ao lado estão Norman Reedus, Melissa McBride, Jeffrey Dean Morgan, Danai Gurira (Michonne), mais a showrunner Angela Kang, Greg Nicotero, Scott Gimple (que supervisiona todo o universo TWD) e Robert Kirkman, o autor da banda-desenhada que está na origem de tudo. E tudo terminou com a exibição antecipada em 24 horas do primeiro episódio.

Como não queremos estragar nada a ninguém, apenas dizemos que há mais cavalos e muito menos carros, um pouco a fazer justiça ao ambiente western que sempre foi o objectivo de TWD. “Este mundo é uma coisa hostil, e é como num western, com as comunidades a tentarem sobreviver e a tentar manter o mundo exterior afastado”, refere Greg Nicotero, remetendo para uma das imagens icónicas do início da série, Rick Grimes a entrar a cavalo numa cidade abandonada.

Será que a saída de Rick Grimes vai ser à western, em cima de um cavalo, rumo ao por do sol, e vaguear pela terra? Também é uma boa pergunta, que irá ter resposta daqui a uns meses. Outra boa pergunta é: irá ter TWD ter um fim, sendo ainda um incrível monstro de popularidade e com um vasto potencial de expansão? Andrew Lincoln, que está de partida, acha que devia ter um fim, de preferência com um final feliz: “Acho que devia ter um fim, as pessoas merecem que haja um fim. Não sei quando será, nem como será. Gosto de finais felizes. Se é possível um final feliz neste mundo? Não sei.”

O PÚBLICO viajou a convite da Fox