Cáritas termina agora entrega casas, pelo caminho recusou a construção de cinco

A Cáritas foi uma das entidades que andou no terreno a reconstruir habitações de quem perdeu tudo. Das 40 iniciais, construiu 35, que espera entregar até ao final do mês.

A Cáritas foi a entidade responsável pelo apetrechamento das casas reconstruídas
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A Cáritas foi a entidade responsável pelo apetrechamento das casas reconstruídas Adriano Miranda

Por aqui, as contas são feitas em inúmeras folhas de Excel, actualizadas a cada dia. Sem exagero, estão ali registados os valores de cada tijolo, de casa saco de cimento que teve de ser comprado para a reconstrução das 35 habitações. Sabem o valor unitário de cada elemento e guardaram os orçamentos e contas. Já as mostraram ao Ministério Público, na primeira metade do ano, quando as notícias sobre alegadas irregularidades na reconstrução de habitações que arderam no incêndio de Pedrógão Grande ainda não estavam na ordem do dia. Para já, na Cáritas Diocesana de Coimbra, não têm conhecimento de que algo tenha corrido mal nesta sua contabilidade ao milímetro, mas irão fazer uma auditoria para afastar fantasmas.

O processo não foi simples e foi prolongado no tempo. No início eram para ter sido reconstruídas pela Cáritas 40 casas, atribuídas pelo Fundo Revita, que tem um protocolo de colaboração com o fundo gerido pelo Estado. Contudo, no meio das trocas de papéis, acabaram por rejeitar a reabilitação de cinco, por em parceria com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR-C) terem descoberto a tempo que não estavam elegíveis para serem reconstruídas. Quatro destas situações eram de pessoas que afinal tinham seguro e acabaram por ser rejeitadas, e um quinto caso em que houve problemas e a Cáritas devolveu o processo à CCDR-C.

Na Cáritas Diocesana de Coimbra corre um misto de dever cumprido e de apreensão pelo que é dito sobre a reconstrução de casas. O padre Luís Costa, responsável pela entidade no distrito, tem receio que as dúvidas levantadas sobre a reconstrução em Pedrógão Grande prejudiquem a solidariedade para situações futuras. E não só. Teme que prejudiquem a vontade de muitas entidades que foram para o terreno desde Junho do ano passado o voltarem a fazer.

"O cruzamento de expectativas não é fácil", diz em conversa com o PÚBLICO. Uma das expectativas tem a ver com o tempo. Construir 40 casas demora. Primeiro, foi feito um rastreio, depois, em Agosto do ano passado, começou o processo com as pessoas, explicando-lhes o que ia ser feito. Em Setembro lançaram as duas fases de concursos com a consulta a cerca de 50 empresas da zona. A dimensão do que estava em causa levou a que poucas respondessem ao apelo e a Cáritas acabou por fazer contrato com apenas cinco. Com o Inverno a prolongar-se pela Primavera adentro, o prazo para a entrega de todas as casas foi dilatando.

Até ao final deste mês, esta entidade espera acabar a entrega das 35 casas que lhe foram destinadas, já reabilitadas e com recheio. Ao todo tinha 16 casas de reabilitação parcial, em que as pessoas já estão a viver, 17 de reabilitação total, já na fase final, com algumas já entregues, e duas compras, realojando as pessoas noutros locais onde antes tinham as suas habitações.

Foi um processo complicado, admite o responsável pela Cáritas de Coimbra que geriu a aplicação de 1,88 milhões de euros de donativos feitos à instituição aquando do fogo de Pedrógão Grande. A casa mais cara que construíram custou 98 mil euros no total. Uma casa de família para um casal com dois filhos, que custou mais porque o terreno é desnivelado. 

“A primeira opção foi repor aquilo que era a vida das pessoas. Não conseguimos devolver a vida, a história das pessoas, mas tentámos adaptar ao que existia", ao mesmo tempo que ajustavam "aos parâmetros actuais". "Ainda bem que as casas agora são melhores", diz o padre Luís Costa. Antes de se iniciar todo o processo, estes proprietários assinaram um acordo com a instituição, dando-lhes autorização para a reconstrução, uma espécie de carta de compromisso. Agora, no final, assinam um compromisso para a sua utilização pós-construção, recusando a sua venda por um período de cinco anos. 

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