Editorial

Brasil, a eleição do desespero

Eleger um ditador com vocação para ser cartoon, misógino, racista, belicoso, autoritário é apenas uma catástrofe do tamanho da catástrofe causada pela política brasileira.

Se nada de muito surpreendente acontecer nas eleições deste domingo no Brasil (à hora a que escrevo ainda não há dados sobre a votação), Jair Bolsonaro pode ter dado o primeiro passo para conquistar a presidência. Ainda antes de o conseguir, a sua extraordinária e imprevisível ascensão produziu todo o tipo de explicações. Para alguns, os brasileiros tornaram-se fascistas. Para outros, Bolsonaro foi empurrado pelo coro de protestos que gerou. Para muitos, Bolsonaro é o Trump em versão tropical e tem de ser explicado à luz dos mistérios que elegeram o Trump autêntico. O Brasil está transformado num balão de ensaio sobre o regresso ao passado que justifica todas as especulações.

Não admira, por isso, a proliferação de mitos e de atoardas na eleição deste Outubro. O Brasil não deixou de ser mais ou menos democrático do que nas eleições históricas de Fernando Henrique Cardoso ou de Lula, mas tornou-se seguramente mais céptico, desesperado e sem espaço para fugir do abismo para onde os políticos o conduziram. Eleger um ditador com vocação para ser cartoon, misógino, racista, belicoso, autoritário é apenas uma catástrofe do tamanho da catástrofe causada pela política brasileira. Bolsonaro chega onde chegou por culpa das críticas dos partidos, dos media e das manifestações que o tornaram um ídolo, diz-se por aí um pouco. Talvez, mas qual seria a alternativa? Um Brasil calado perante a ameaça, sem coragem nem ousadia para o questionar, mereceria qualquer tipo de elogio? Depois, será Bolsonaro um novo Trump? Não, comparado com Bolsonaro Donald Trump é um filósofo da Enciclopédia, progressista e tolerante.

O Brasil vive o seu maior tumulto em décadas e Bolsonaro é apenas o títere desse tumulto. Quando o desencanto leva, como levou, ao ressentimento e ao ódio, tanto serve para chegar ao poder um Tiririca (um palhaço eleito deputado em São Paulo sob o lema “Pior do que está não fica”) como um ex-militar boçal e autoritário. O Brasil arrisca-se a pagar muito caro a sua descrença no melhor dos sistemas para governar um país – a democracia liberal. Regressar ao passado dos militares não salvará o país dos seus males. Se a classe política aprender com os seus erros e expiar as suas culpas, nem tudo estará perdido.